Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de jul de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 51

MADALINA
Milionésima ficha. Provavelmente.

Jennifer Shrader-Vaccari.
Possui cidadanias líbia, canadense e italiana.
Filha de Odila Fehr-Shrader e Ethan Maurice-Shrader.
Irmã de Noah Fehr-Shrader.
Odila era líbia, simpatizante da ideologia extremista, assim como Ethan, seu marido, e Noah é um foragido da Interpol há anos por suas ligações com o terrorismo.



“Noah é praticamente considerado morto.”
 – Murmuro, enquanto Diana examina as fichas.
“Faz décadas desde que se ouviu alguma notícia sobre ele. Ele simplesmente sumiu. A Interpol enxerga-o como um cadáver, apesar de não haver nenhuma comprovação de sua suposta morte.”

“O grupo extremista no qual Noah estava, ou está ligado fazia negócios com os Vaccari até poucos anos.” – Diana explica. – “Esse grupo comprava armas das mãos do velho Jon, e depois passou a comprar das mãos do César. Eu ouvi menções a esse grupo em jantares e conversas privadas relacionadas ao contrabando.”

Toda a família de Liza Vaccari foi revirada de cima a baixo com todas essas fichas.
Os dados de César, Beth, Rachael Vaccari e vários outros membros da família foram analisados durante exaustivas três horas, e é incrível que só agora viemos parar na Jennifer.
Ela deveria ser um dos primeiros, afinal foi através dela que o enigma foi descoberto.
Talvez tenha sido exatamente este o efeito produzido propositalmente por ela.
Subestimação.

“Acho que Jennifer Vaccari é exatamente o oposto do que ela diz ser no diário.”
  – Murmuro.
“Observe suas ligações; seu irmão estava envolvido em atividades terroristas de um grupo no qual os Vaccari eram aliados. Ela era casada com Anthony Vaccari, e ela descobriu o tal enigma. Percebe como a historinha de Amélia e tudo mais já não faz tanto sentido?”

Foi necessário quase meia hora para explicar toda a investigação a Diana.
Ela estava certa de que seria jogada para escanteio da mesma forma que foi com Will, e assim como o resto de nós, demonstrou um ceticismo quanto ao enigma, não somente quanto a existência da bomba, mas também às motivações de tudo isso.
Ela realmente se preocupa com Richmond.
Há uma espécie de ligação invisível, porém palpável, entre os dois. Eles são amigos desde que ela começou a trabalhar neste departamento, mas é uma espécie de amizade silenciosa. Eles não saem juntos, não visitam a casa do outro e conhecem muito pouco sobre seus passados, mas há uma lealdade mútua entre eles, como um acordo não dito.
É como se ao mesmo tempo em que se conhecem muito, não se conhecem nada.
É um tipo de relação estranha e críptica que me desperta a curiosidade.

“Jennifer Vaccari tem alguma ‘’irregularidade’’ na ficha?” – Diana pergunta.

Há um tom reflexivo em sua voz.

“Além de suas ligações familiares? Não.”

Eu observo, encostada num dos armários, Diana calar-se e pousar seu olhar em algum ponto morto.
Colocá-la nessa operação foi uma boa ideia.
Ela conviveu com César Vaccari durante cerca de dois meses, possui contato com a família e o caso há muito mais tempo que qualquer um de nós. E ela é o tipo de pessoa que enxerga as entrelinhas.

“César Vaccari nutria um ódio muito pessoal a Jennifer.”
– Ela quebra o silêncio, depois de quase 1 minuto de espera.
“Era uma repulsa, um nojo, como se ele quisesse se manter longe de qualquer coisa pertencente a ela.”

“Ela foi estuprada por ele, certo?”

“Certo.”

“Acha que ele a conhecia?”

“Mais do que qualquer outra pessoa.” – Afirma. – “César pode nos dar informações sobre a Jennifer.”

“Ele não fará isso de graça.”

“Não será de graça.”

Arqueio a sobrancelha.
Diana puxa o celular do bolso em busca de algo, mas desliga a tela e o põe de volta.
Seu olhar se fixa em mim, e ela não hesita um segundo em dizer...

“Sabe onde Miranda Safroncik poderia estar agora?”

DIANA
O acesso irrestrito ao elevador não demora nada depois que mostramos os distintivos a recepcionista do saguão.
Este é um hotel caro e esbelto, no centro de Nápoles, com uma aparência a la Antiguidade Clássica,  e segundo Madalina, abriga Miranda Safroncik num dos quartos mais próximos à cobertura.
Este é o último dia da representante da UE dentro da cidade. Segundo Saxe, ela irá voltar para a Alemanha na manhã seguinte.
Solto um lento suspiro.
Minhas costas doem pelo esforço da tarde. Além das fichas de familiares próximos e distantes à Liza, o diário confiscado numa das mansões também foi avaliado.
Toda a história envolvendo o estupro de Jennifer Vaccari e o nascimento de sua segunda filha, Rachael, foi explicada envolvendo uma única palavra; obsessão. César era obcecado pela esposa do irmão da mesma forma que uma criança cobiça o brinquedo da outra, pelo simples prazer de tomar posse daquilo. A forma como a violência se manteu às escondidas durante tantos anos, sem nenhuma reação da vítima, foi justificada através do comportamento passivo de Jennifer.
Era um caso obscuro, mas resolvido.
Agora todas as teorias e argumentações quanto a isso vão se dissolvendo a cada informação adquirida.
Se ela é de fato o que está se revelando nessa investigação, é muito difícil acreditar que ela não tenha se vingado de César.

Madalina aperta o botão 52 no painel do elevador.
O breve momento de inércia me permite voltar àquela conversa com César, no dia da audiência. Ele disse que não faria nada a Arjean, mas será que posso confiar no que diz?
Mais do que isso, será que posso confiar na hipótese de que Arejan seja suficientemente importante para não ser descartado?
Kvitova foi assassinada porque sabia demais sobre a máfia.
Até que ponto Arjean conhece a máfia?

“Vamos.” – Madalina murmura assim que as portas se abrem.

O corredor em tons de nude se estende, comprido e silencioso, repleto de quartos.
A consciência do que estou prestes a fazer me enche de nervosismo a cada passo dado em direção ao quarto de Safroncik. Se Miranda aceitar a proposta, eu terei que fazer a negociação.
Eu terei que enfrentar César de novo.

De frente para a larga porta branca, com espirais esculpidos, aguardamos a resposta às batidas de Saxe.
Há o som leve de passos arrastando-se sobre o piso de madeira polida, suave, como um roçar de movimento em meio à quietude do corredor.
O piso do corredor é de uma cerâmica antiga, mas bem cuidada, com tons de marrom estampados nela. A pintura das paredes é nova, e este lugar soa como algo que nunca foi reformado, mas submetido sempre à constantes manutenções.
A porta é aberta.
Miranda está arrumada, maquiada, com a aparência de alguém que acabou de voltar para a casa. Sua sobrancelha mantém-se arqueada para nós, como alguém a espera de uma explicação.

“O que fazem aqui?” – Murmura.

“Adoraria responder sua pergunta se nos permitisse entrar.” – Respondo.

“Deveriam estar ocupadas com a investigação.”

“É justamente por causa dela que estamos aqui.” – Afirmo.

Ela abre espaço e nos permite entrar, em seguida.
A decoração de seu quarto é rústica, mas elegante, e Miranda mantém tudo na mais perfeita organização; há prateleiras em formatos quadrados, um lustre a estilo vitoriano, poltronas e uma imponente cama king size.

“Pois bem” – Diz. – “Estamos sozinhas. Digam o que querem aqui.”

“Eu suponho que esteja atualizada sobre os processos de Liza e César Vaccari, estou certa?”

“Sem rodeios, Diana.”

“Sabe que César pediu para ser extraditado para o Brasil, não sabe?”

“Sei.” – Suspira. – “Algo que com certeza não vai acontecer.”

“Eu não diria isso...” – Saxe murmura, arrastadamente.

“Enfim, nós descobrimos que César pode ter informações valiosas para a investigação.” – Digo.

“Pode.” – Miranda frisa, cética.

“Não podemos ter certeza, mas não podemos deixar de tentar.”
  – Solto.
“A questão é que César Vaccari teve períodos significativos de convivência com Jennifer Vaccari, e descobrir quem é ela é, no momento, é vital para a investigação.”

“Por que?”

“Porque desconfiamos que Jennifer Vaccari esteja mais profundamente ligada às bombas do que se fez mostrar, mas ela própria é um enigma e se sabe muito pouco sobre ela.”
– Saxe afirma.

“E de onde veio a desconfiança, então?”

“Ela é a irmã de Noah Shrader.”
Miranda se cala, de repente interessada na conversa.
Só agora noto o quanto seu nome é conhecido e exerce efeito. Miranda, até então cética e entediada do assunto, se mostra pensativa e atenciosa a isso a partir do momento em que seu nome é citado.

“Bom...”
– Murmura, depois de um instante de espera.
“Não posso negar que isso é alguma coisa.”

“O grupo terrorista no qual Noah era associado comprava armas nas mãos dos Vaccari.” – Digo. – “Não dá para supor muita coisa, mas com certeza esse casamento entre a Jennifer e Anthony Vaccari não foi por acaso.”

“E vocês acham que César pode saber de algo...”

“Sim.” – Digo. – “Ele me soa como alguém que teve um convívio muito próximo com ela.”

“Apesar de desconfiar, vou perguntar mesmo assim...” – Miranda solta. – “Onde eu entro nisso tudo?”

“César só vai liberar informações através de uma negociação.”
– Digo.
“E seu preço é a extradição. E você é a única que pode pagar.”

“Não posso garantir que ele será extraditado.”

“Mas você tem influência suficiente para facilitar as coisas e ele sabe disso.” – Afirmo. – “César sabe que sua situação não é boa, apesar de sua defesa na audiência. Se ele souber que está conosco, ele vai colaborar.”

“Pretende permitir que César consiga o que quer atrás de uma informação que você nem sequer sabe se ele tem?” – Pergunta. – “Você sabe que uma vez no Brasil, todos aqui perdem o controle sobre ele e seus planos. Ele com certeza tem ligações por lá que vão facilitar a vida dele. Está realmente disposta a permitir isso? A correr este risco?”

Ele sabe de algo.
Mesmo que não seja tudo sobre ela, mas ele sabe alguma coisa. E qualquer informação sobre Jennifer Vaccari, neste momento, é válida.
Expiro.

“Estou.” – Respondo, mantendo firme minha voz.

Miranda faz um movimento afirmativo na cabeça.
Ela puxa seu celular da bolsa pousada numa das poltronas e se afasta até um canto do quarto, discando números na tela.
Sua voz torna-se apenas um barulho suave ao fundo, enquanto ela diz algo a alguém. Minutos depois, ela volta, séria e resoluta...

“Irá visitá-lo no presídio amanhã, antes do meio dia.”