Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

13 de jul de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 49

LIZA
Encosto a cabeça na fria e úmida parede.
Esse é o meu primeiro banho de sol, e eu estou cansada demais para passear pelo pátio como o resto das detentas. Estou sentada num banco de pedra num dos cantos e aproveito a posição para erguer os olhos para o céu nublado.

O interrogatório acabou no instante em que revelei o enigma.
Policiais foram chamados e eu fui escoltada para o presídio sem que uma palavra a mais me fosse dita. Já faz quase uma semana desde que fui presa e nunca mais fui interrogada até então. No final das contas, é melhor assim. A notícia das bombas vai deixá-los ocupados demais para que pensem nos outros membros da mafia. Ou no paradeiro da Jennifer.
Seria bem vinda uma informação sobre a vida lá fora, é sobre o que divago durante meu pequeno período ao “ar livre”. Provavelmente estão todos quietos, escondidos e articulados, como eu os deixei, mas há o risco de que alguém seja pego. E ainda há o César.
A lembrança dele faz minha cabeça doer.
O portão se abre com um rangido, e eu saio dos meus pensamentos para ver alguém entrando no pátio. Provavelmente algum carcereiro, guarda ou quem quer que trabalhe nesse lugar.
Mas então, quando estou prestes a desviar o olhar, a silhueta de Will entra no meu campo de visão.

Eu evito fazer alarde, apesar do meu espanto, e ele se mantém parado a poucos metros de mim, encarando algum ponto insignificante à sua frente.
Apesar da discrição, posso notar como ele varre o pátio e as torres de vigia com o olhar.

“Por que está aqui?” – Sussurro para ele, depois de quase 1 minuto de espera.

“Pensei que talvez precisasse de algo.” – Murmura, e após um curto instante de hesitação, completa: – “Ou talvez precisasse dizer algo.”

A umidade gélida do banco de pedra me incomoda, e eu luto contra o impulso de remexer-me.
É claro que ele está se referindo ao enigma. A essa altura, isso provavelmente já chegou aos ouvidos dele.

“Foi esse o preço do César em troca da Jennifer.”
– Solta. Não uma pergunta, mas uma declaração, completamente livre de dúvidas.
“E agora o enigma está nas mãos dele, suponho. Por isso o revelou para a polícia.”

Não.
A consciência de minhas motivações quanto a revelação que fiz me atingem como uma onda.
Não fiz isso apenas pelo César. Secretamente, de forma involuntária, eu nutria o desejo de fazer isso antes, mas ainda não havia encontrado a oportunidade.
Mais do que isso, estou torcendo internamente para que a polícia o tenha em mãos antes de qualquer um de nós.
A percepção disto faz com que eu me sinta um pouco melhor, afinal.

Apesar de tudo, não tento negar ou me desfazer da acusação de Will, apenas pergunto:

“A Jennifer ainda está segura?”

Então, pela primeira vez, ele me encara.
Suas pupilas estão mais dilatadas do que de costume, mas ainda assim consigo notar os tons de preto, castanho-claro e médio que se misturam ao longo da íris. Começo a me dar conta de que esperava encontrar preocupação, cansaço, ou qualquer outro sentimento que se diferencia do que encontro em seus olhos agora: atenção.
Will está me analisando.

“Ao que depender de mim, sim.”
  – Responde, finalmente.

 “Bom.” – Solto, num tom de voz tão baixo que tenho a impressão de que não se possa ouvir.

Mas ele ouve.
Sua cabeça se move num gesto quase imperceptível de afirmação. Ele devolve então a formalidade de volta a sua expressão e se levanta.
Eu passo então os minutos restantes do banho de sol, e talvez algumas horas depois, em minha cela, tentando descobrir o que ele queria enxergar em mim, e o que ele de fato enxergou.

MADALINA
Encontro a equipe de geólogos montando equipamento quando saio do carro.
São aparelhos enormes, de metal, com hastes longas e espessas bobinas quadradas. Detectores de metais pesados. É aqui onde começa a investigação.
Essa é a antiga mansão onde Anthony e Jennifer Vaccari foram mortos, no Brasil, e a equipe se divide em profissionais nativos e estrangeiros. São mais de dez pessoas, com carros e grandes aparelhos, e a polícia nacional acompanha o exame junto a Interpol.
Toda a área num raio de 5 km foi interditada, e há cabines de controle instaladas nos arredores, onde os sinais enviados pelos detectores serão organizados e analisados em computadores.
Não sei até onde Miranda e companhia podem chegar para manter essa investigação em sigilo. As mansões pertencentes aos Vaccari estão espalhadas por diversos países e todas devem ser analisadas já que Liza Vaccari não sabe onde as supostas bombas estão.
É uma operação conjunta. Necessitará do apoio e discrição das forças policiais de cada país, e não estou certa de que isso será suficiente.

“Até onde eu sei, está tudo muito quieto fora do cerco.”
 – Ettori murmura para mim logo depois de se afastar do grupo de policiais a minha frente. Há entusiasmo em seu olhar, uma espécie de frenesi silencioso que ele carrega desde que foi designado para a operação.
O único membro do departamento – até agora – escolhido para uma operação a esse nível. Não é para menos.

Tecnicamente, começo a notar que eu deveria estar exatamente desse jeito. Sou quase uma novata na Interpol, apenas com experiência de escritório até aqui. Essa é uma oportunidade jamais me estendida até o momento na minha carreira.
Talvez seja o peso e a consciência da responsabilidade desta operação, somado ao cansaço e a saudade de casa; mais do que um simples membro, eu fui posta numa posição de liderança neste caso. O lembrete contínuo de que provavelmente a sobrevivência de milhares de pessoas está, em parte, nas minhas mãos, faz com que o fardo disso tudo torne-se palpável.

“Uma coisa que noto nestas mansões é que elas nunca estão em locais muito visíveis.” – Ettori continua. – “Geralmente elas se encontram entre matas ou faixas de terra escondidas, em lugares afastados dos pontos centrais de uma cidade, as vezes no interior delas... Enfim, é basicamente fácil não chamar atenção por causa disso.”

“Quando o exame vai começar?”
– Solto. Ele torce a boca ao meu gesto de desinteresse por sua explicação.

“Logo.” – Responde. – “Só precisam arrumar uns detalhes. O grupo se dividirá em dois, sendo que um deles irá avaliar o interior da casa, e o outro, o exterior.”

É uma etapa ociosa, e a única coisa que tenho a fazer é observar a cena.
Três enormes detectores são instalados ao norte, leste e oeste da casa, em meio ao barro avermelhado. Duas camadas de metal em cada lado, em formato cilindríco, como duas barras paralelas, formam um extenso quadrado, com seu centro livre.
Dos mais de quinze integrantes da equipe, cerca de oito deles se instalam com seus detectores manuais na extensa faixa de terra crua ao redor da casa, a maioria ao sul. O cheiro de terra e garoa chega ao meu nariz com a lufada de vento que sopra no local, e eu assisto o movimentar dos geólogos dentro e fora da mansão.
Todos eles trabalham silenciosamente, focados, organizados como um exército, cada um com sua função predefinida.
Quaisquer informações captadas nesse teste serão avaliadas e se materializarão num longo e exaustivo relatório. O som emitido pelos aparelhos, com seus níveis de vibração e ressonância, determinarão se o que está a mais de 3 metros abaixo é simplesmente ferro, ou urânio.

Os fones presos aos detectores manuais são postos sobre os ouvidos e o teste começa. O ambiente externo continua tão silencioso quanto antes.
Minha mente passa a divagar sobre Will e o departamento; ele foi mantido afastado das investigações por Miranda e Craven, relocado num setor monótono e medíocre que só se encarrega de papelada desnecessária e casos pequenos. Em teoria, o afastamento manteria a investigação sob segurança e lhe daria espaço para acalmar os nervos. Na realidade, o resultado pode ser outro.  
   Manter Will livre de grandes ocupações pode dar espaço para que ele aja por conta própria. É sua família. Sua esposa está presa e a polícia quer o paradeiro de sua filha.
Miranda sabe disso.
Desde o momento em que passei informações sobre os passos dele para Safroncik, ela não tem mexido uma única palha. Ela sabe o quanto é arriscado mantê-lo longe, o quanto sua tristeza, seu sentimento de impotência e sua raiva pelo assassinato do Alex – que por sinal foi o responsável pelo relatório que incrimininou a própria tia – pode desencadear as mais diversas reações; ela simplesmente ignora. Ou finge ignorar.
A essa altura do campeonato, não há como prever atitudes e motivações de quem quer que seja.

“Agente Saxe.”
– Um dos geólogos caminha em minha direção, minutos, talvez horas depois, com o fone pendendo em seu pescoço.
“Posso te fazer uma pergunta?”

“Claro.” – Respondo, apreensiva, enquanto ele coça a sobrancelha, hesitante.

“Tem certeza da veracidade da denúncia?” – Solta. – “Quero dizer, quais são as chances de que a informação quanto as bombas seja verdadeira?”

“Por que está me perguntando isso?”
  – Lanço. Seu olhar ao redor me faz perceber que o teste já acabou e pelas expressões, não há informações muito relevantes.

Há um tom de frustração em sua voz, como se ele de fato quisesse que uma bomba estivesse logo abaixo dele.

“Nada foi encontrado nos detectores.” – Murmura, confirmando minhas suspeitas.

Eu não permito que o frescor e a paz momentânea tome conta de mim com suas palavras.
Este é um alívio que provavelmente não durará muito tempo.
Ainda há outras mansões na lista.