Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

18 de jun de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 48

DIANA
Eu caminho entre corredores e mais corredores, como num labirinto.
As vozes dos outros presos se aglomeram num rugido primitivo enquanto passo pelas várias celas. César está numa solitária. Seu confinamento em relação aos outros presos é tão intenso que até seu banho de sol é individual.
É uma grande ironia que eu tenha sido escolhida para escoltá-lo.
Saxe voltou para a Suécia novamente para acompanhar o caso de Kvitova e ficará por lá até que o caso se encerre ou que o comando exiga sua presença na Itália. Ettori, Braggati e outros estão ocupados demais no redemoinho de energia e trabalho desencadeado com a prisão da Liza. Will nem se fala. Eu era a única disponível.

Há dois policiais fortemente armados que me escoltam até a cela de César. Seus rostos, posturas e armas demonstram o temor que as autoridades possuem por César e seu poder de influência. Todo um esquema de alta segurança foi formado para que o carro que vai levá-lo até a audiência siga a viagem sem complicações. César vai fazer sua própria defesa, e isso me deixa receosa. Sempre há o risco de que ele escape.

“Detetive Milazzo?”
  – Um homem de baixa estatura e cabelo grisalho me estende a mão quando chego ao portão que me leva às celas solitárias.
“Prazer, Francesco Massari, direitor de cela.”

Esboço um fraco sorriso.
Ele abre o grosso portão de ferro e aponta para uma porta a minha frente.

“Aí está.” – Diz. – “A porta é de chumbo e só é acionada por controle eletrônico.”

Ele puxa um comunicador do bolso do uniforme.
Aguardo enquanto ele murmura um comando para que alguém em alguma cabine abra a cela. A porta é aberta em segundos e a imagem de César entra em meu campo de visão.
Ele está sentado numa postura perfeita em cima de sua cama.
Sereno e equilibrado, como sempre gosta de soar.

O direitor de cela se afasta e César se levanta, caminhando lentamente até a saída. Seus olhos se fixam em mim, e há uma constante expressão de deboche em seu rosto.
Ele me reconhece, é óbvio, mas prefere não dizer nada. Apenas permanece em silêncio e obedece minhas ordens, e isso é pior do que qualquer zombaria, ameaça ou desprezo falados. Seu olhar insistente é torturante.

“Coloque as mãos para frente.” – Digo, em tom formal. Ele obedece.

Fecho as algemas em torno de seus pulsos.
E ele observa.
Ordeno que ele caminhe. Ele obedece, e me observa.
Nós passamos pelos corredores cercados de celas coletivas e ouvimos os gritos e assovios dos outros detentos, até chegarmos até a saída.
Carros blindados estão a nossa espera, e eu descubro que terei que acompanhá-lo no mesmo carro. Ao seu lado.
Passo o resto da viagem com uma das mãos pousada no cabo da pistola.

    O prédio onde a audiência de César será feita é um prédio antigo, largo e imponente. Eu guio César desde o saguão até corredores adjacentes e salas menores.
Olho para o relógio. 14:25.
Faltam exatamente 5 minutos para a audiência começar.

“Você deveria seguir os passos do seu marido.”
– Ele sussurra para mim. Volto o rosto em sua direção, num sobressalto.

Ele continua, imperturbável...

“É mais inteligente que a maioria dos seus colegas.” – Diz. – “Sabe que poderia ter uma vida melhor do que isso, se quisesse. E seu casamento ainda estaria de pé.”

Eu não respondo.
A forma como ele diz “isso” enquanto observa meu distintivo, é desprezível.
Os policiais que nos escoltaram até aqui estão distantes o suficiente para impedir que nos escutem.
É claro que ele descobriria sobre Arjean. Nem sei porque estou surpresa.

“Não vou fazer nada a ele, se é isso que está pensando.”
– Murmura.
“Diferente de você, não costumo desperdiçar talentos.”

“Kvitova que o diga.” – Murmuro, com acidez.

Ele ri.
É uma risada borbulhante, mas suficientemente discreta.
Eu permaneço tão séria quanto antes.
Seu riso se esvai com rapidez, mas ainda há humor em seus olhos quando ele solta...

“Sempre há a possibilidade de se abrir exceções.”

No instante seguinte, seu nome é chamado e eu volto a guiá-lo para fora da sala de espera.
A porta dupla de acesso ao tribunal se abre e eu o escolto, sozinha, até o banco do réu.
Há muito mais policiais aqui dentro. Eles estão de pé próximos às paredes e portas de saída, imóveis e eretos como estátuas de mármore.
A quantidade de evidências colhidas contra ele é suficiente para enviá-lo ao tribunal, mas é muito difícil que as coisas se resolvam por aqui ou que um parecer do juiz saia com alguma rapidez.
Abro suas algemas e me afasto da tribuna.
E então, a audiência começa.

“Muito bem, vamos iniciar a audiência criminal de César de Ambrósio Vaccari, investigado no inquérito de nº 623.421 realizado pela Polícia Italiana em conjunto com a Interpol, sobre as acusações de organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, tráfico internacional de armas, contrabando de migrantes e associação ao terrorismo.” – O juiz declara. – “O réu deseja acrescentar algo ou apenas confirmará o que disse nos interrogatórios?”

Prendo a respiração.
César move-se pela primeira vez em sua cadeira. Sua mão arruma a haste do microfone para mais próximo de sua boca.

“Merítissimo Senhor Juiz” – Ele começa. Sua voz ressoa formal e profunda. – “Cabe-me esclarecer a Vossa Excelência de uma informação que talvez não conste nos laudos do inquérito. Dentre os crimes dos quais sou acusado nesta tribuna, um deles é o homicídio qualificado de Anthony e Jennifer Vaccari, meu irmão e cunhada, crime este praticado em território brasileiro e portanto, debaixo da incubência do Estado brasileiro.”

Permaneço presa, submersa em cada palavra dita nessa sala.
O juiz observa o discurso de César com uma nota longe de ceticismo em seu rosto.

“Pouco tempo depois de suas mortes, um inquérito contra mim foi aberto no Brasil e eu me ausentei do país, onde até hoje sou considerado um fugitivo da polícia.” – Continua. – “Excelência, estou relatando todos esses fatos ocorridos há decádas atrás porque me sinto em dívida para com meu país, e penso que este é o momento correto para tentar reparar meus erros passados.”

“O que quer dizer com “meu país”?”

“Sou brasileiro.” – Murmura. – “Herdei a cidadania de minha mãe. Em realidade, também herdei a cidadania italiana do meu pai, mas me desfiz dela quando ainda era jovem, num ímpeto de raiva e imaturidade, como uma espécie de vingança e rechaço contra meu pai.”

“E porque se sente em dívida com o que, como diz ser, seu país?”

“Porque, Excelência...” – Responde. – “De todos os crimes dos quais sou acusado, esse é o único no qual sou de fato responsável.”

Há um período de um ou dois segundos de absoluto silêncio.
Talvez tenha sido um pouco mais que isso.

“Isso é uma confissão?” – O juiz solta.

“Sim, Excelência.”

Há outro instante de silêncio.
Então, como uma serpente que encontra a situação perfeita para atacar, ele destila...

“Se me permite, Excelência, eu tomo a liberdade de questionar a procedência deste processo, já que não sou um cidadão italiano e apesar das evidências, ainda não há provas inquestionáveis do meu envolvimento com os crimes no qual sou acusado.” – Diz. – “Inclusive, como cidadão brasileiro e com um inquérito aberto contra mim em meu país de origem, ouso dizer que é, no mínimo, estranho que não me seja permitido um contato com a Embaixada brasileira até agora.”

Ele está pedindo por uma extradição, isso é claro.
Um processo diplomático difícil e lento, que pode durar muitos meses até que se chegue a um acordo. O processo então ficaria parado até que as questões diplomáticas fossem resolvidas, e caso a extradição seja aceita pelo governo italiano, provavelmente há um plano para que ele escape do processo penal lá.
O pior de tudo, é que ele tem direito a isso.

“César Vaccari, até onde sei, o governo brasileiro não apresentou nenhuma objeção quanto ao seu julgamento aqui, e a existência de evidências – evidências fortíssimas, vale sinalizar –, de seus crimes em território italiano é o suficiente para validar este processo, e portanto, esta audiência.” – O juiz declara. – “Devo parabenizá-lo pela competência que apresenta em advogar sobre sua própria causa, mas não há, até o momento, nada que o senhor faça para ilegitimar este processo.”

“Perdão, Excelência, se me expressei mal, tenho a absoluta consciência da legalidade de todos os procedimentos jurídicos nos quais fui submetido.” – César rebate. – “Apenas tomei a liberdade de exigir algo que é um direito inerente meu; recorrer a embaixada de meu país. É a única coisa que reinvidico aqui.”

Sim, há um plano.
O discurso desconcerta o juiz, e eu começo a pensar que já vi e ouvi o suficiente. É um esforço enorme não dar meia-volta e sair da sala.
Infelizmente, eu estou responsável por César Vaccari e devo permanecer aqui até que a audiência termine. Minha mente vasculha minhas memórias em busca de qualquer vestígio de conversas ou contatos que denotem alguma ligação de César com pessoas importantes no Brasil.
Talvez seja alguém pertencente a família de sua mãe. Até onde sei, ela veio de uma família influente.
O fato de não conseguir desvendar nada e não ter a mínima ideia de suas ligações e próximas jogadas me dá uma sensação de impotência. É como se eu não tivesse feito o meu trabalho corretamente.
Eu vivi meses na casa desse homem. Eu deveria saber tudo, ou quase tudo, sobre ele.
A audiência se arrasta por longos minutos de formalidades até que termine, e quando eu o escolto de volta, não há mais conversas escondidas entre nós dois.
Tudo que ele tinha para dizer, obviamente, já foi dito.

MADALINA
Enfio as mãos dentro do grosso casaco quando saio do táxi.
O som dos meus sapatos batendo contra o pavimento da calçada é, de alguma desconhecida forma, tranquilizante. Estou de volta a Itália; provavelmente pela última vez.
A temporada na Suécia foi parada e tediosa, e por isso mesmo, desgastante. Fui instalada num hotel e de vez em quando, tinha que comparecer a reuniões e conferir relatórios. As temperaturas ficavam cada dia mais baixas e era comum tempestades de neve que me impossibilitavam de sair do quarto. No final das contas, o período de trabalho de campo em Nápoles foi muito mais produtivo.
      O departamento está cheio, como sempre, e eu caminho satisfeita por corredores até chegar na sala de reuniões. Provavelmente Mogherini vai estar lá, para acertar as últimas coisas para minha viagem de volta a Romênia.
É bom estar de volta ao lar.
A perspectiva de que talvez eu embarque amanhã num voo de volta a minha casa me enche de uma aura nostálgica, e eu estou com um quase sorriso estampado no rosto quando abro a porta da sala.

Então, ao invés da silhueta alta de Mogherini, meu olhar encontra o rosto de Miranda Safroncik, e toda a magia se quebra.

“Miranda?” – Deixo escapar. Ela não parece minimamente alarmada com o meu espanto.

“Bom dia, Agente Saxe.”
– Ela murmura. Seu olhar pousa por um segundo em seu relógio.
“É uma pessoa pontual. Gosto disso.”

“Pensei que Mogherini estaria aqui.” – Digo.

“Mogherini está em Roma.”

“Por que?”

“Porque não há mais nada que ele possa fazer aqui.” – Afirma. – “Mas isso não importa, minha conversa é sobre você.”

“Então é você que vai acertar meus papéis para minha volta à Romênia?”

“Você não vai voltar.” – Declara, tranquilamente, como se não fosse nada.

“O quê?!”

“Surgiram imprevistos que vão segurá-la aqui.” – Diz. – “O departamento vai precisar de um representante da Interpol.”

“Achei que Mogherini fosse um...”
– Solto, arrastadamente.

“Tem a péssima mania de questionar as ordens de seus superiores.” – Ralha.

“Se eles dissessem algo que fizesse sentido...” – Sussurro.

“O que disse?!”

“Nada.”

“Ótimo.” – Solta. – “Pois bem, ficará em Nápoles e vai dirigir uma importante investigação.”

“Qual investigação?”

“Confidencial.” – Murmura.

“Previsível.”

“Sabe que Liza Vaccari foi presa, não sabe?” – Miranda diz. Balanço afirmativamente com a cabeça. – “Ela revelou algo muito grave durante um interrogatório e a investigação será para conferir a veracidade da informação.”

“E o que é?”

“Alerta vermelho.”
– Murmura, de repente, séria. Não é para menos. Um alerta vermelho está relacionado a pandemias ou ataques nucleares.
“Parece que os Vaccari decidiram brincar com armas de destruição em massa.”