Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

2 de jun de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 47

DIANA
O conjunto de várias vozes e conversações torna a cafeteria um lugar cheio e barulhento.
Num local mais afastado, Will está recostado no balcão, de pé, bebericando o líquido escuro em seu copo plástico.
Ele está sozinho e sua cara não é nada boa, como de praxe.
A minha também não é, e nós não somos os únicos. Tenho a impressão de que metade desse departamento está com a vida mergulhada na lama.



“Acabaram de confirmar a prisão da Liza.”
    – Murmuro para Will, assim que me aproximo dele. Ele não me olha. Encaro o moço de avental no balcão.
“Me dá um com leite e sem açúcar, por favor.”

Observo por dois segundos enquanto o atendente se afasta até as maquinas.
“Sabe que só estou te contando porque acho que você tem o direito de saber, não é?”
  – Solto.

“Sei.” – Responde. – “Obrigado.”

“Como vai ficar a operação agora?” – Pergunto.

“Não fica.” – Murmura. – “Já conseguiram a prisão dos dois. O caso saiu da nossa mão.”

“Ainda há um longo processo pela frente...”

“Processo esse que será decidido por juízes e promotores, não por policiais.” – Rebate. – “Como eu disse, o caso saiu da nossa mão.”

“E você?”
– Pergunto, escolhendo cuidadosamente meu tom.
“O que vai fazer agora?”

Ele joga o copo vazio displicentemente na lixeira ao lado.
Nesse espaço de tempo, o atendente volta com o meu café.
Seu olhar então se fixa em mim, finalmente.

“O que eu deveria fazer?”

Talvez não seja uma pergunta retórica.
Ettori, um dos policiais que participaram da operação, caminha a passos largos em nossa direção, com a expressão séria, porém formal. A apreensão só se faz presente quando ele abre a boca...

“Milazzo, o comando solicitou você.”
 – Diz.
“Querem que você escolte César Vaccari até a audiência.”

LIZA
Quando desço do avião, provavelmente já na Itália, uma multidão de jornalistas correm na minha direção.
As algemas apertam meus pulsos e enquanto vários policiais tentam afastar as câmeras e microfones, Braggati me guia até um dos carros de polícia com a mão fechada em meu braço. Minha mente trabalha na tentativa de encontrar alguma situação em que eles possam ter conseguido encontrar meu paradeiro.
Todos eles estão muito bem organizados, e uma grande equipe foi mandada para o Brasil. Me encontrar na mansão dos meus pais com certeza não foi algo que aconteceu ao acaso.
Tento não pensar em Will.
Por mais que eu me sinta traída, não consigo sentir raiva dele.
Ele mentiu para mim, me ocultou coisas e desconfiou de mim, mas não deixo de pensar que por outro lado ele só está fazendo seu trabalho. É um ponto de vista que luto para afastar da minha cabeça porque faz com que a consciência me acuse. Eu sou uma criminosa, chefe de uma máfia, e ele é um policial. Não fez nada além de sua obrigação.
Eu tento julgá-lo e digo para mim mesma que ele é a única parcela errada, mas então a consciência do que eu sou e do que fiz até aqui volta, e a sensação é como se alguém mexesse numa ferida aberta até fazê-la sangrar novamente.

Eu sou posta dentro do carro e nós seguimos até o departamento de polícia, onde muito provavelmente foi passar por uma bateria de interrogatórios.
A placa de cobre permanece na mansão Vaccari.
De alguma forma eu consegui colocá-la de volta ao lugar sem ser pega, e obviamente ninguém notou uma suposta caixa de energia no canto da parede. Por mais que César também esteja preso, não posso pensar que as coisas acabaram para ele. Ele quer esse enigma tanto quanto eu, e vai buscar o que eu não consegui pegar mais cedo ou mais tarde.
E com o detonador, o pingente e a placa de cobre, só Deus sabe o que ele não pode fazer.

Meus olhos procuram instintivamente por Will quando entramos no departamento.
Assim como na pista de pouso, a entrada do prédio pertencente a polícia italiana estava repleta de jornalistas, empurrando seus microfones e pedindo para que eu dissesse algo.
Will não está em nenhuma parte.
Nós passamos por corredores barulhentos e repletos de gente até que uma sala.
A sala está vazia, e as únicas coisas presentes nela são dois bancos metálicos e uma mesa, onde um fino microfone está preso a ela. Sala de interrogatório.
    Braggati abre minhas algemas em silêncio e faz sinal para que eu me sente. Há outros policiais aguardando na porta. Quando olho para a parede ao lado, há todo um painel de vidro fosco que não me permite ver nada do que está além dele, mas que com certeza permite que os outros me vejam do outro lado.

Então, a porta se fecha atrás de mim e eu me encontro sozinha.
Está muito silencioso aqui dentro, o que me faz pensar que essas paredes são à prova de som. Observo as finas e leves marcas vermelhas em meus pulsos.
Suspiro.
Não há nada que eu possa fazer além de esperar.

“Liza Vaccari.”
– Uma voz masculina surge de repente e um policial entra apressado, fechando a porta atrás de si. Ele se senta ao meu lado e cruza as mãos em cima da mesa.
“Acredito que todas as formalidades quanto a sua prisão e ao porque está presa já foram feitas, estou certo?”

Eu não respondo.
Ele toma isso como um sim, de qualquer forma.

“Vamos começar.” – Murmura. Sua mão se estica até a base do microfone e ele aperta um minúsculo botão. – “Por questões de protocolo, vou começar a fazer perguntas básicas.”

Continuo calada.
O microfone se encontra no centro exato da mesa retangular.

“Seu nome completo é Elisa Vaccari-Richmond?”

“Sim.” – Murmuro.

“Sua mãe se chama Jennifer Shrader-Vaccari?”

“Sim.”

“Seu pai se chama Anthony van Bergen Vaccari?”

“Sim.”

“É sobrinha de César de Ambrósio Vaccari?”

“Sim.”
  – Digo. Essa foi outra descoberta feita através de Beth; César é na verdade meio irmão do meu pai, filho de um relacionamento passado do velho Jon. Um relacionamento oculto e conturbado. Jon não gostava que tocassem nesse assunto.

“Sua irmã se chama Rachael Shrader-Vaccari?”

Minha irmã retirou o nome de Will depois do divórcio.
De certa forma é um alívio ver que se referem a ela por seu nome de solteira.

“Sim.”

“Confirma que é a atual chefe da máfia denominada ‘’Vaccari’’?”

É uma pergunta muito simples e óbvia.
Entretanto, responder positivamente a essa pergunta é encerrar o processo por aqui. E neste momento, o melhor que posso fazer é procastiná-lo pelo maior tempo possível.

“Não.”

“Confirma que conhecia James Hansson?”

“Sim.” – Murmuro. Negar não seria de muita valia.

“Quais suas relações com ele?”

“Ele era um conhecido de minha irmã e eu tive a oportunidade de vê-lo algumas vezes.”

Ele estende fotos reveladas na minha direção. Nelas, uma única imagem, em diferentes ângulos;  eu e James em ruas adjacentes a sede Vaccari.

“As fotos mostram que são mais que conhecidos.”

“As fotos mostram o que eu disse aqui: ele é um conhecido e eu o vi algumas vezes.” – Rebato.

“E quanto a essa casa?” – Ele pergunta, mandando outra foto. O plano de fundo é a mansão de Beth, em Catanzaro.

“Pertencia a minha falecida tia.” – Murmuro. – “Eu a herdei depois que ela morreu.”

“Quais suas ligações com César Vaccari?”

“Ele é meu tio.”

“Ele não parece gostar muito de você, já que sequestrou sua filha.”

Fico calada.
Ele se inclina na minha direção e solta:

“Nega que sua filha foi sequestrada?”

Eu não respondo. Entretanto, meus olhos permanecem fixos nele.

“Fico aqui me perguntando...” – Ele continua. – “Por que seu tio iria querer raptar a filha da própria sobrinha? César Vaccari não me parece o tipo de pessoa que faz as coisas por fazer.”

Tudo o que eu disser aqui será documentado.
E confessar o sequestro da Jennifer seria carta branca para que ele fizesse mais perguntas. Perguntas essas que chegariam até a atual localização dela.

“Eu não estava no Brasil por acaso.”
– Começo. Ele arqueia a sobrancelha.
“Eu estava em busca de provas para uma coisa que descobri.”

“Liza Vaccari, não tente desviar...”

“Sua investigação provavelmente deve ter se esbarrado nesse termo: “enigma”. Quase uma lenda, algo que praticamente todas as famílias e máfias queriam conseguir.” – Interrompo. O reconhecimento da palavra passa por sua expressão. – “Pois bem, minha mãe conseguiu essa proeza e ao que tudo indica, eu também. Não quer que eu contribua com as investigações? Essa é a minha forma de contribuir.”

“O que tem a dizer?” – Ele pergunta, tentando soar indiferente, mas eu sei que captei sua atenção.

“Lembra do grupo de cientistas que desaparecem misteriosamente na URSS? Cientistas nucleares, ligados com o experimento de bombas de destruição em massa. Lembra que posteriormente seus corpos foram encontrados boiando no Mar Tirreno, próximo a costa leste de Sardenha?” – Digo. – “Na época o governo soviético tentou abafar, mas eu sei que tudo está aí disponível num banco de dados. Os Vaccari foram responsáveis por essas mortes. Os cientistas foram sequestrados e depois mortos porque foram obrigados a construir bombas de hidrogênio que estão espalhadas nas fundações de cinco mansões pertencentes à máfia.”

É isso.
Um silêncio sepulcral é o que se segue, e eu percebo que consegui o efeito necessário.
Ele pode não acreditar, mas não descarta totalmente a ideia. Ninguém ousará pagar pra ver.
Acabo de dar um novo rumo à investigação.