Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

1 de jun de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 46

LIZA
O carro é estacionado no final da estrada de terra.
Ao meu lado, Aco, com uma micro uzi na mão, me escolta até a antiga casa dos meus pais. Ele é jovem e recém-chegado, cheio de energia e bom atirador, saiu da Macedônia e migrou para a Itália faz quase 3 anos e entrou para a máfia há meses. Ele não tem nenhuma informação relevante e é inexperiente. Justamente por isso que eu o trouxe aqui.



Por mais vantajosa que tenha sido a prisão de César, isso não deixa de me provocar alarme. A investigação está caminhando a passos largos em minha direção. E caso eu seja presa, não posso correr o risco de que alguém com muita informação seja preso junto comigo. Todos os membros do alto escalão receberam ordem expressa para se manterem em segurança em diferentes pontos da Itália. A máfia foi espalhada. Nico, Sidney, Yuval e Carlo dividiram os demais membros em grupos e se concentraram em estados diferentes. Não há praticamente ninguém na sede.

Observo o cenário a minha frente.
O portão permanece inalterado,com a mesma aparência de 40 anos atrás e eu puxo a chave no meu bolso esquerdo. A cada passo dado em direção a ele, uma memória é ressucitada na minha mente.
Meus pais mortos na sala de estar.
O som de passos na minha direção.
Rachael no meu colo.
Pressiono a chave contra a fresta do cadeado.
Anos depois, o enterro da Rachael.
O som da voz de Beth na biblioteca.
James.
Will.
A cofre. A carta.

Somente agora, prestes a entrar numa das mais antigas mansões Vaccari, me dou conta de que eu, Jennifer e César somos os únicos Vaccari restantes.
Toda a família foi dizimada durante anos de guerras e rixas.
O velho Jon, morto. Meu pai, morto. Minha mãe, morta. Beth, morta. Alex, morto. Rachael, morta.
Fico me perguntando quem será o próximo nessa lista.

“Espere aqui.”
– Murmuro para Aco, na entrada da casa. Ele acena em afirmação e eu entro.

Apesar do aspecto exterior deteriorado, o interior da casa é tão ricamente decorado que te faz lembrar de que se trata de uma mansão.
Os móveis são os mesmos, é claro. Mas eles são tão caros e resistentes que nem mesmo o efeito dos anos lhes tira a elegância. Estão dispostos no mesmo lugar, nenhuma alteração além das limpezas mensais foi feita.
Meus passos ecoam pela sala de estar.
A bonita escada se ergue na minha direção, e é um esforço conter os pensamentos turbulentos que se aglomeram na minha mente.
A placa de cobre é a razão pela qual estou aqui, e não posso me perder disso.
Desde minha descoberta quanto ao enigma, nunca tinha me perguntado sobre o porquê e como todas essas memórias estão aqui. Essa é na verdade a primeira vez que a questão surge para mim.

    Me desloco até o quarto que antigamente pertenceu aos meus pais, e meus olhos vasculham as paredes até uma placa de plástico azul-claro, bem próxima ao criado-mudo.
Então, nesse momento, meu corpo, ou talvez meu subconsciente, toma as rédeas.
Me agacho de frente para a placa e abro a terceira gaveta do criado-mudo, retirando uma chave de fenda pequena e fina. Minhas mãos se movem com agilidade girando os quatro parafusos que prendem a superfície à parede. O plástico cai aos meus pés e o que se revela, ao invés de uma caixa de energia, é um compartimento forrado por veludo.

Lá dentro, o cobre reflete a luz do quarto.

Meus dedos tocam a delicada placa de comprimento médio. Diferente do que eu pensei, a placa de cobre é de curta largura e em forma de um retângulo comprido, mas fino.
Provavelmente este é o formato do detonador.

Meus dedos se pressionam com maior urgência no cobre, e eu estou prestes a puxá-la para fora quando uma rajada de tiros me sobressalta.
O que acontece nos minutos seguintes, ninguém saberia narrar ao certo.
Minhas mãos se movem com rapidez, encaixando os parafusos em seus lugares. O compartimento é fechado novamente nos poucos instantes que me restam até que a casa seja invadida. Homens com coletes e fortemente armados se espalham pelos cômodos da casa. Há viaturas policiais em todo o perímetro da casa e Aco deve estar preso ou morto a esse momento.
Eu estou completamente sem ação quando Braggati, o único rosto conhecido no meio da bagunça, entra no quarto.

“Liza.”
– Ele diz. Seu tom é amistoso, mas ele está com uma arma apontada para mim.
“Acabou. Você está presa.”

WILL
Meus passos ressoam fortemente no chão do departamento.
César foi mandado automaticamente para um presídio assim que foi trazido para a Itália. Pelo menos uns dois interrogatórios foram feitos desde então e uma audiência jurídica foi marcada para hoje, daqui a algumas horas. Ainda não se sabe quem vai escoltá-lo.
Entro sem bater na sala de reuniões. Mogherini, Craven e Miranda me encaram com uma nota remota de sobressalto em suas expressões. Fixo meu olhar nela. É bom que ela esteja aqui.

“Quais são as informações coletadas sobre a Liza?” – Exigo.

Ninguém responde.

“Tenho a impressão de que nem sequer vou precisar fazer uma investigação contra ela e quero saber se minha ‘‘intuição’’ está correta.”
   – Murmuro. Há sarcasmo, deboche, acidez e outras mil coisas na minha voz, mas minha hostilidade não é surpresa para ninguém.

“Quem te disse isso?” – Mogherini solta.

“Olha só, então estou certo.” – Murmuro.

“Sim, está.” – Safroncik diz. – “Nós conseguimos informações de uma fonte que infelizmente não pode ser revelada.”

Solto uma risada azeda.

“Nem precisa se dar ao trabalho.” – Solto. – “Eu mais do que ninguém conheço essa ‘’fonte’’.”

“Eu não tenho dúvidas disso.”
 – Ela responde.
“Só salientei a confidencialidade da fonte para lembrá-lo de que essa, assim como várias outras informações devem ficar restritas aos membros desse conselho.”

“Conselho no qual já deixaram bem claro de que eu não faço parte.”

“Isso é uma questão de ponto de vista.”

“Não, não é.” – Afirmo. – “O fato de ter descoberto por terceiros que um conjunto de provas contra um dos meus investigados foi enviado para a Interpol sem que nenhuma satisfação tenha sido dada a mim é prova suficiente disso. Isso sem nem falar das questões pessoais envolvidas.”

César usou Alex como um espião da Liza.
Provas de todos os podres e crimes da Liza foram coletadas por ele, e o golpe final foi ter enviado-as para a Interpol.
A investigação acaba de sair oficialmente do meu controle. Um mandato de prisão contra ela pode ser expedido a qualquer momento. Se é que já não foi.

Todos eles compreenderam a mensagem contida nas entrelinhas.
Sendo eu membro fora do conselho, e sendo a informação vazada por e para terceiros, ela pode muito bem vazar para a imprensa ou qualquer outro órgão. Eles sabem bem que Alex Richmond também estava ligado em atividades ilícitas e não somente aceitar suas informações mas se negar a fazer qualquer tipo de investigação contra ele demonstra uma parcialidade da polícia italiana e da Interpol quanto ao caso. Seria mais um escândalo para a coleção.

“O quanto já foi feito enquanto eu estava fora?” – Pergunto.

“A inteligência rastreou sua ligação para a Liza. O sinal ficou parado durante dias até que ela voltasse ao radar. Sua localização mais recente foi encontrada. Ela está no Brasil, um mandato de prisão foi expedido contra ela e policiais já foram mandados para o local.”
 – Miranda reponde.

“Quem está a frente da operação?”

“Braggati.”

Menos mal, penso.
Braggati conheceu a Liza alguns anos atrás, quando nós nem sequer pensavamos em estar envolvidos em toda essa bagunça.
De certa forma, eu prefiro que alguém conhecido faça a escolta dela até aqui.

“A imprensa já sabe?”

“Ainda não.” – Ela diz. – “Mas não vai demorar nada. Assim que ela colocar os pés aqui, os jornalistas vão atrás dela.”

Solto uma expiração.
Eu estou pronto para sair da maldita sala e do igualmente maldito conselho quando a voz de Miranda surge novamente. Não como a representante da UE. Não como a influente e manipuladora Safroncik. Mas só Miranda.
Um pouco além da superfície.

“Estão pedindo a localização da sua filha.” – Diz. – “Vão fazer essa pergunta no interrogatório.”

Pressão exterior, ela quis dizer.
O sujeito oculto dessa frase pode ser a imprensa, a Interpol, a UE ou qualquer outra organização.
Por maior que a influência de Miranda seja, ela não pode controlar tudo. Ela sabe os riscos que isso implica. Ela sabe que a máfia não está morta, e que retirar a Jennifer de seu esconderijo é colocá-la de volta ao fogo cruzado.
E eu penso que apesar de tudo, há algo de humano nela.