Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

31 de mai de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 45

LIZA
Eu só preciso colocar os pés na sala de estar da mansão de Beth para compreender a magnitude do dano.
Há homens Hansson e Vaccari espalhados pela sala, todos vestidos de preto e alguns portando óculos escuros. Apesar da quantidade de pessoas, o ambiente está mergulhado num silêncio sepulcral.
Demora dois segundos para que eles notem minha presença.



   Alguns rostos são bastante familiares para mim. Nico. Carlo. Yuval. Mas não Sidney. Todos agora estão me encarando, apreensivos, imóveis, incertos quanto a minha reação.

“O que aconteceu?!” – Solto para toda a sala. Minha voz ecoa por todo o cômodo.

Ninguém diz nada.

“Respondam!” – Vocifero.

O som dos sapatos de Yuval é o único barulho que se segue.
Ela emerge do emaranhado de pessoas e caminha na minha direção a passos lentos. Sua expressão é tão apreensiva quanto a de todos os outros e ela soa extremamente desconfortável.

“Yuval.”
  – Murmuro em tom de advertência. Começo a pensar que minha irritação repentina é na verdade a não aceitação quanto ao que eu estou prestes a ouvir. No fundo, eu já sei a resposta.

“Liza, tente ficar calma, eu...”

“Responda!”

Ela dá mais um passo na minha direção. Há um misto de tristeza e pena em seu olhos.

“James está morto.”
   – Solta finalmente. Sua voz sai baixa, como se fosse um sacrilégio dizê-lo em voz alta.

Eu pisco várias vezes.
Há muitos sentimentos próprios para o momento, mas a única coisa que sinto é irritação. O silêncio me irrita. O ar de expectativa e apreensão me irrita; ela cresce como algo quente e abstrato dentro de mim.

“Onde está o corpo?” – É a única coisa que digo.

“No quarto maior.”

Então eu começo a caminhar a passos largos em direção à escada.
Ninguém ousa me seguir.
No fim da escada, atrás da porta dupla, o quarto está perfeitamente limpo, arrumado e quieto.
No lugar da habitual cama king size, há uma imensa mesa de mármore. Nela, envolto em lençóis brancos, o corpo de James se estende, pálido e inerte.
Dou um único passo em sua direção.

“Ele tinha um aneurisma da aorta abdominal.”
   – A voz de Sidney soa atrás de mim. Me volto num sobressalto em sua direção.
“Basicamente, uma parte da árteria começou a inchar e ficou do tamanho de uma bola pequena.”

Ela soa anestesiada, como alguém que chorou até esvaziar-se.
Sidney está sentada numa cadeira, com a aparência de alguém que não dorme há dias, vestida numa camisa social branca, abarrotada, pouco ajustada ao seu corpo.

“Ele morreria de qualquer forma. Já estava num estágio avançado.” – Continua. – “O tiro de César só fez acelerar o processo.”

Não me disseram que foi o César que atirou nele, quando me trouxeram a notícia.
Não é uma grande surpresa.

“Quando o cirurgião chegou, não havia mais tempo pra fazer nada.” – Diz. – “Mesmo que conseguissemos uma mesa cheia de equipamentos e profissionais muito bons, não adiantaria. A hemorragia era incontrolável. Minhas roupas ficaram ensanguentadas. Ele sangrou até morrer.”

Volto a olhar para seu corpo.
Limpo.
Bem cuidado. Pronto para o crematório.

“Eu não sabia sobre o aneurisma quando fiz o corte.”
  – Murmura. Ela já não olha mais para mim. Seu olhar se fixa num ponto ao longe e eu penso que não é mais para mim que ela fala.
“Quando percebi que havia algo errado, entrei em pânico. É claro que eu não tinha licença pra fazer nenhuma cirurgia, mas eu já tinha feito isso outras vezes e não me importava com que os órgãos de saúde acham ou deixam de achar. A gente está tão acostumado em burlar regras e orientações que se torna automático, um mecanismo ocioso. Em nenhum momento eu pensei que algo além de um tiro poderia estar acontecendo no seu corpo.”

Então, quando eu penso que ela mergulhou por inteira num estado de semi-inércia, e que a minha presença foi completa e absolutamente ignorada por ela, seus olhos voltam a se focar em mim. Firmes, lúcidos, resolutos.

“Tem uma coisa que você precisa saber.” – Murmura.

“Sim?”

“James me fez prometer que eu lhe diria, caso ele não estivesse mais aqui para dizer.”

“Pois então...”

“Seu marido.”
 – Ela começa; prendo a respiração inconscientemente.
“Acho que já está na hora de saber que ele é um dos líderes de uma operação de caça aos Vaccari. A Interpol está envolvida nisso. Você e o César são os principais alvos.”

Eu permaneço olhando para ela, estática.
Ela se cala, como se já houvesse dito tudo o que precisava, e volta seu olhar novamente para o nada.
Eu permaneço olhando para ela por minutos. Talvez poucos minutos, mas eles soam como horas.
Will.
Seu jeito estranho quando ele voltou pra casa, no dia do velório da Beth. Há quanto tempo foi isso? Meses, provavelmente, mas a memória me soa tão antiga...
Eu desconfiei de seu comportamento, perguntei se havia algo errado, mas ele negou. E depois veio o distanciamento. Ele afastou-se de mim aos poucos, até desaparecer. Meio desaparecer. Ele sempre fez parte disso, mesmo não estando aqui.
Agora tudo faz sentido.

“Vou sair.” – Murmuro, arrastadamente. Não há resposta.

Me dirijo até a área externa da casa através dos fundos.
Tenho a impressão de não ter ouvido direito. Minha mente se confunde num vai e vem sobre a morte do James e o que acabei de saber sobre Will. É uma oscilação inquietante, quase insuportável, e eu tenho a impressão de que quero correr. Ou gritar. Ou dormir. Ou nenhuma dessas coisas, ou qualquer outra coisa que me faça deixar de pensar até que minhas emoções estejam em ordem.
A máfia não vai aceitar uma postura condescendente para com Will.
Eu sou a chefe, a líder. Se eu demonstrar fraqueza, posso perder toda a autoridade.
Para a máfia, ele é um traidor. Um inimigo. Merece a morte. E eu, especialmente, devo me certificar de sua punição.

“Liza!”
– A voz remota de Nicolas é trazida até mim pelo vento. Ele corre na minha direção. Me pergunto quantos deles já sabem.
“Tenho novidades.”

“Olha só, Nico, eu não estou muito bem e...”

“César foi preso.”
 – Ele murmura. Seu rosto transborda entusiasmo.
“A notícia saiu essa manhã. É a sua chance de tomar o enigma de volta.”

DIANA
Eu paro de frente para uma antiga casa, bonita pela simplicidade, com o capuz ainda sobre minha cabeça.
Minha mão esquerda se mantém aquecida entre o tecido do bolso da jaqueta cinza, de moletom, enquanto minha mão oposta aperta firmemente a alça da mochila.

Descobrir determinadas coisas sobre seu ex-cônjuge pode gerar uma série de mudanças.
Uma delas é a que estou prestes a fazer.

Eu era bem ciente do envolvimento de Arjean com negócios ilícitos, mas também sabia que ele não é o tipo de cara que tem homicídio na ficha. Ele está ligado a estelionatos, lavagem de dinheiro, falsificação de notas e crimes relacionados, mas ele nunca matou ninguém. Ele simplesmente não sabe fazer isso. Não é o ramo dele.
   Foi justamente sua falta de experiência que me permitiu encontrar digitais dele na manga da jaqueta de couro de Kvitova. Eu fiz todo o papel de adulterar essas provas antes que a perícia as colhesse, mas isso não me impediu de colhê-las sozinha e checar num banco de dados.
A evidência, assim como vários outros documentos que incriminam Arjean Jacquard não somente da morte de Kvitova, mas como de diversos crimes cometidos estão perfeitamente organizados em duas pastas que carrego na mochila.

    Eu decidi quebrar meu código de conduta e não denunciá-lo quando descobri de tudo, de imediato. Eu pensei na minha carreira, na época. Eu era recém-chegada de volta à Itália, tinha rompido um relacionamento de anos havia pouco tempo e tinha mãe, irmão e sobrinhos para proteger. Eu queria trabalhar na inteligência da polícia italiana e minhas credenciais seriam arruinadas quando descobrissem com quem eu era casada. E havia o risco de represálias. Se não viessem do próprio Arjean, poderia vir de seus aliados.
Entretanto, quase como num instinto, passei anos da minha vida juntando provas contra ele secretamente. Elas permaneceram guardadas na minha casa em Nápoles, até agora. Em nenhum momento, eu tinha pensado em usá-las. Eu nem sequer sabia porque as colhia. Agora, a necessidade de uma carta na manga contra ele, algo que poderia ser usado e inserido a qualquer momento, algo que o colocasse contra a parede, se torna cada vez mais urgente.
E então o medo de perdê-las, de que todos esses documentos cuidadosamente coletados sejam de repente descobertos e destruídos, me assalta a mente num estorvo incessante.

Depois de segundos de hesitação, meu dedo pressiona o botão da campainha.
Minutos depois, a porta é aberta.

“Diana?”


Sua voz está mais grave do que eu me lembro.
Enzo é o meu irmão quase 5 anos mais novo do que eu, e essa é a primeira vez que estamos nos vendo desde meu casamento com Arjean. Eu havia me mudado para a França no dia seguinte à cerimônia, onde morei num luxuoso apartamento durante 3 anos até o rompimento, e quando voltei, passei a fazer apenas visitas esporádicas à minha mãe. Em todas elas, Enzo não estava.

“Olá, Enzo.” – Respondo. – “Estou surpresa em vê-lo aqui.”

“O sentimento é recíproco.” – Comenta.

Nós não temos uma boa relação fraternal desde muito tempo. Ele não gosta da minha profissão e eu não gosto do fato d’ele não ter uma; ele fez um casamento ruim com uma mulher ainda mais nova que o sustenta agora. É interesseiro, preguiçoso e uma série de outras características das quais eu desprezo, e ele não gosta de mim justamente porque desaprovo sua conduta.
Ele geralmente sabe a época de minhas visitas, e faz um favor a nós dois evitando o encontro.
Entretanto, dessa vez, as coisas não saíram como no script.

“Veio ver a mãe, não é?” – Murmura. – “Ela está no quintal.”

Ele abre espaço para mim na porta e eu caminho, resoluta, até a parte mais distante da casa.
Lá fora, minha mãe se move lentamente entre o canteiro de flores.
Essa se tornou facilmente a parte mais bonita da casa pelo perfume e colorido fornecido pelas diversas espécies de flores cuidadosamente cultivadas no terreno fértil. Minha mãe sempre foi ligada à botânica desde muito nova, e agora que já não pode trabalhar na área, dedica boa parte do seu tempo neste canto da casa.
Seu cabelo escuro está enrolado num coque baixo, e eu observo as finas mechas que escapam dele, movendo-se suavemente com a brisa que sopra no espaço aberto. Meus passos, apesar de silenciosos, chamam a sua atenção, e ela volta seu rosto na minha direção. Seus olhos esboçam surpresa quando ela me vê.

“Diana.” – Murmura.

Seu comportamento mudou completamente depois que meu pai morreu.
Ela entrou numa espécie de voto de silêncio contínuo, passou a falar apenas o básico e tornou-se caseira como nunca em toda sua vida. Concentrou-se nas suas flores e se desligou do mundo a sua volta.
Mas sua percepção e instinto aguçados permaneceram inalterados.

Ela observa minha expressão por dois segundos e solta:

“O que aconteceu?”

“Preciso de sua ajuda.”

Ela retira as luvas de borracha e pousa a tesoura de poda no balcão. Seus braços são cruzados à frente de seu corpo e ela aguarda minha explicação.

“Enzo não pode saber disso.” – Aviso. Ela acena afirmativamente com a cabeça. – “Preciso ir ao κουτί.”

Não é preciso dizer mais nada.
Ela faz um sinal e eu a sigo até a porta. Nós passamos pela cozinha, subimos as escadas e entramos no maior quarto da casa. Lá dentro, dois imensos armários embutidos. Um deles pertenceu ao meu pai.

“Feche a porta.” – Ela ordena.

Suas mãos se movem com rapidez entre as antigas roupas mofadas do meu pai. No fundo do ármario, ela força algo e uma fresta se abre. Ela empurra a superfície para o lado e um compartimento secreto se abre. Ela então deixa escapar um suspiro cansado e para.

“Seu pai que construiu isso.” – Diz. – “Ele sempre foi fissurado por obras de mistério. Ter um compartimento secreto na casa era quase como uma fantasia para ele.”

Essa é a primeira vez que ela comenta sobre o κουτί.
Eu sabia, faz alguns anos, da existência desse cômodo, mas nunca soube como ou porque ele estava ali. Eu havia descoberto por acaso, durante a minha adolescência, e aquilo virou um segredo nosso. Se Enzo descobrisse, teria que ser por si só. Nós combinamos de manter a situação em sigilo como uma espécie de jogo. Nunca teve muita importância, até porque nunca tivemos nada de realmente valioso para guardar lá. Até agora.

Minha mãe observa enquanto abro a mochila e puxo as grossas pastas para fora. Ela não faz perguntas nem esboça a mínima reação de estranheza, apenas abre espaço para que eu entre no compartimento.
Não há nada além da escuridão e do piso de barro lá dentro. Eu pouso as pastas no canto mais escuro do compartimento, com cuidado.
Chega a ser engraçado estar fazendo isso. Passei metade da minha adolescência tentando conseguir algo suficientemente bom para ser guardado aqui. Nunca achei que conseguiria, ou pelo menos, não a essas proporções.

Minutos mais tarde, tudo está no seu devido lugar, como se nada houvesse acontecido aqui.
Minha mãe está me escoltando de volta a sala. Enzo não está mais na casa.
Ela abre a porta para mim, em silêncio, mas consigo ler em seus olhos a única coisa que se passa por sua mente...

“Tome cuidado.”

Essa é a primeira vez que sinto o peso total dessa frase.