Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

7 de mai de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 44

LIZA
Pela primeira vez em meses, eu e Jennifer somos deixadas a sós.
Durante todo o período da viagem fomos escoltadas por homens fortemente armados, e por mais que ela não esboçasse nenhuma reclamação, eu podia ver em seus olhos que ela se sentia desconfortável.
Nós estamos no bunker, sentadas na beira da cama, de frente uma para a outra, prontas para colocar em dia todas as explicações e pedidos de perdão.
Entretanto, eu não sei o que dizer.
Há muitas coisas para serem ditas, é claro, mas as mudanças foram tão grandes e destrutivas que não sei por onde começar. Ou se quero começar.

Ela está traumatizada com tudo isso, e o que eu mais quero é fechar suas feridas, mas ela nem sequer pode ter o pai aqui, ou uma família unida. Jennifer ficou retida num lugar horrível para sair e ver tudo desmoronando.
Olho para seus pés, enfaixados com ataduras limpas.

“Como se sente?” – Pergunto. Eu me sinto tão diminuída e impotente que sou incapaz de me portar com algo parecido com firmeza ou autoridade materna. É como se eu deixasse de ser mãe, por ter falhado numa das coisas mais fundamentais.

“Melhor.”
– Ela responde. Seu olhar segue o meu até seus cortes.
“Ele chamou uma enfermeira pra cuidar de mim. Na verdade nem sei porque fez isso.”

“Porque ele precisava de você viva.” – Sussurro.

Um instante de silêncio se segue.
Preencho todo o momento juntando coragem para olhar em seus olhos.

“Me desculpa, filha.” – Solto, finalmente. – “Desculpa por ter feito você passar por esse tipo de coisa.”
Agora ela desvia o olhar de mim.

“Não foi culpa sua.” – Murmura. – “Ninguém poderia saber que eu seria sequestrada.”

“Talvez eu pudesse.”
 – Confesso.
“Isso já aconteceu uma vez.”

E é claro que com isso estamos falando de Alex.
Nós finalmente conseguimos fitar os olhos uma da outra, firmemente, sem vacilação.
Seus olhos se inundam de lágrimas, e eu me pergunto quantas outras coisas podem ter sido feitas com ela sem que eu soubesse. Quantas vezes ela foi humilhada e maltratada pelo César ou pelo Alex.

Toda sua confiança foi abalada. Talvez de forma irreversível.

“Ele...” – Minha voz falha. – “Ele machucou você?”

“Não.” – Ela nega com rapidez, limpando as lágrimas com as costas da mão. – “Depois que eu fui levada, eu nunca mais o vi.”

Até a gravação do vídeo.
Abaixo a cabeça enquanto meus olhos se enchem d’água, deixando minha visão embaçada. Reprimo um soluço que sobe até minha garganta. Rachael. Alex. A lista de pessoas nas quais eu falhei só aumenta.
Eu tentei ignorar a morte do Alex durante semanas, em nome de outras coisas que julgava mais urgentes no momento, e estava fazendo isso muito bem até aqui. Agora, tudo vem a tona numa onda de culpa e dor tão violenta que me derruba.
As lágrimas escorrem pelo meu rosto num fluxo incessante.

“Eu deveria ter te contado sobre ele.” – Jennifer diz. Sua mão toca levemente meu ombro. – “Eu te escondi isso. Eu errei também.”

Ela está tentando me consolar, é claro.
Sua voz soa ainda mais preocupada quando ela sussurra...

“Mãe.”

Mas eu sou incapaz de dizer alguma coisa.
Um soluço esganiçado consegue escapar e meu corpo se contrai em leves espasmos.
Então, na hora menos apropriada, ouço um som de batida na porta.

“Mãe.” – Jennifer chama. Seu tom já é outro.

Seco as lágrimas com as costas da mão apressadamente.
Mais uma vez eu volto a ser uma Vaccari. Nunca há como se desligar disso.

“Entre.” – Digo. Minha voz sai rouca, e eu limpo a garganta.

Um dos homens da escolta entram no bunker, com a expressão tensa.
Ele ignora meus olhos e nariz vermelhos pelo choro, entretanto.

“Tenho notícias de Catanzaro.”
   – Ele diz. Seu olhar vagueia, hesitante, sobre Jennifer, e eu entendo que ele não sabe se deve dizer isso na frente dela.

“Pode falar.” – Murmuro.

“O plano deu errado.”
   – Ele afirma.
“César conseguiu fugir e James levou um tiro nas costas.”

WILL
Safroncik fez questão de se reunir com toda a equipe antes da operação.
Hoje é o dia em que finalmente a Interpol vai colocar as mãos em César Vaccari, e apesar de toda a minha discrição quanto ao assunto, o olhar de Miranda para mim revela que ela sabe que o encontro dos Vaccari em Catanzaro tem a ver com o sequestro da minha filha.
Saxe e Diana, responsáveis pelo caso da morte de Vera Kvitova, só voltarão da Suécia amanhã.
E eu, vestido num colete a prova de balas e colocando munições na minha arma, estou a caminho de Patras.

O sinal mais nítido de que o comando da operação está em minhas mãos é o tablet que me foi entregue por Mogherini, com o mapa da rua onde a casa de César está localizada e todas as saídas para avenidas adjacentes. Dois dos membros da equipe possuem rastreadores acoplados em seus uniformes, por serem os primeiros a entrarem, sozinhos, através do túnel.
O aplicativo rastreia todos os gatilhos do sistema de segurança da casa, que inclui câmeras, alarmes e sensores, além de fazer um raio-x dos cômodos dela. Boa parte das informações adicionadas aqui vieram de toda a coleta de informações por parte da Diana, que inclui até mesmo o desenho detalhado de uma planta do imóvel.
A planta 3D é rabiscada em azul na tela, e eu só preciso tocar seu centro para que as “security arrows” demonstradas em pontos piscantes de vermelho, amarelo e laranja se espalhem irregularmente no mapa.
Vermelho para sensores.
Amarelo para câmeras.
Laranja para alarmes.
Há apenas dois pontos em amarelo no mapa, situados em áreas exteriores aos principais cômodos da casa. Uma delas, na cabine de acesso ao túnel. A outra, na cozinha.

“Uma vez dentro, vão precisar agir rápido.” – Explico para os dois membros em especial. – “Nós não temos como desativar o sistema de segurança, o que significa que vocês serão pegos pelas câmeras assim que entrarem na cabine.”

Dois homens. Eles ouvem atentamente as instruções, com suas expressões concentradas.

“Não podem dar tempo para que eles se preparem.” – Digo. – “Houve um tiroteio que matou vários homens de César, eles estão cansados, nervosos e de guarda baixa, não é o momento para lhes dar fôlego. Se houver algum de seus homens em seu caminho, atirem.”

Eu não completo a frase, mas nem é necessário.
É claro que eles entenderam que com isso não estou me referindo a tiros em áreas menos graves. São tiros na cabeça ou no peito. Pra matar.
Nós geralmente seguimos as regras em ações de rotina. Mas essa não é uma operação corriqueira, e portanto, merece um tratamento especial.

“Quanto aos outros”
– Retomo, me referindo agora ao resto da equipe.
“Quero que cerquem todo o perímetro da casa e estejam de arma em punho o tempo todo. Posso dar o comando para invadir a casa a qualquer momento.”

Os homens que foram mandados para o túnel ficaram com a parte mais delicada.
Eles terão que passar pela cabine e cozinha, se desviar de alarmes e homens no caminho e descer a alavanca num dos corredores que derruba o conjunto de trancas da porta e dos portões.
Por mais que César esteja vulnerável nesse momento, ainda há a possibilidade de que eles sejam mortos no caminho.

Nós somos levados à Patras através de duas lanchas pertencentes à força tática da polícia italiana, e outros três carros pertencentes à policia grega nos esperam enfileirados no extenso porto. Fora dos barcos, uma larga pista de concreto, de frente para o mar Jônico, dá acesso às outras instalações do porto; policiais membros da força tarefa nos esperam, devidamente armados e com coletes a prova de balas.

“Detetive Richmond.”
 – Um deles extende a mão para mim, nos cumprimentando. Ele aparenta ser mais velho que eu, mas está em ótima forma.
“Major Bouras. Bem vindos à Grécia.”

Os carros começam a circular pela via de acesso à saída, e eu escuto atentamente as informações do major quanto à localização da casa de César Vaccari, enquanto um dos policiais da equipe guia o veículo numa velocidade média.

“Nós tínhamos boas informações sobre César Vaccari.” – Ele afirma, satisfeito. – “Estava tudo guardado, escondido. Fico feliz em poder usá-las agora.”

“E por que não podiam antes?” – Pergunto.

“Porque César tem ligações influentes.” – Responde. – “Ele meio que modernizou a forma como a máfia agia depois que assumiu o comando. A maioria das antigas máfias italianas agiam como agem os narcotraficantes latino-americanos; seu apoio provinha dos civis. Eram os civis que os protegia e acobertava, eram deles que vinha seu exército e seu dinheiro, mas isso começou a ficar obsoleto na Europa. A máfia estaria falida se não se adaptasse aos novos tempos, e foi isso que César fez.”

Sua voz cessa por instantes enquanto ele troca a marcha e vira uma curva.

“Ele queria expandir o poder e os negócios, então voltou seu olhar para contrabandistas do Oriente Médio.” – Continua. – “Foi daí que ele conheceu o casal politicamente-correto da LA que se interessou pela coisa e o guiou até seus futuros fornecedores. Depois veio às ligações com organizações terroristas do norte da África. Depois a crise começou por aqui e ele se aproveitou do momento para se embrenhar no governo. Hoje a Grécia está infestada de políticos financiados por ele.”

“Quais políticos especificamente estão envolvidos nisso?”
  – Pergunto.

“Ah, bastante.” – Murmura. – “Ministros, governadores, até juízes e militares tem envolvimento. Não podíamos dar um piu quanto as informações que tínhamos. Citar o nome dele chegou a ser proibido em algumas unidades policiais.”

“Se era algo tão proibido, por que uma força tarefa contra ele foi criada?”

“Porque ficou grande demais.” – Responde. – “Já havia um inquérito aberto na Itália, a Interpol e a União Europeia começaram a intervir. César Vaccari era um problema da Grécia, e agora tornou-se um problema mundial. O que eles podiam fazer? Barrar a entrada da Interpol no país e gerar desconfiança da imprensa quanto a cumplicidade de membros do governo?”

“César com certeza deve ter conhecimento disso.”
  – Um dos agentes da Interpol diz, no banco traseiro do carro.
“O que me leva a uma pergunta: por que ele ainda está na Grécia?”

“Talvez ele queira ser pego.”
 – É o que o major diz. Um silêncio permanente se segue pelo resto da viagem.

Minutos depois, eu estou de prontidão próximo aos carros, de frente para a casa de César Vaccari.
Olho para o tablet.
Os policiais já estão na metade do túnel, nós cercamos a casa enquanto fazemos esforço para que nossos carros estejam fora de vista. Há uma tensão pairando o local, como se fosse difícil até mesmo respirar, e a última frase do major não me sai da cabeça.
Por que César iria querer ser pego?
A perspectiva de que talvez ele esteja tranquilo em seu quarto, apenas aguardando o momento em que nós iremos invadir me deixa horrível. É como se eu fizesse parte do teatro o tempo todo, como se minha mente fosse manipulada e enganada por ele e minhas ações fossem sempre influenciadas pelos seus interesses.
Como um peão num tabuleiro de xadrez.

“Encontramos a escada.” – A voz abafada de um dos policiais soa no fone. – “Estaremos dentro em um minuto.”

Se passa muito mais que um minuto.
O ponto azul correspondente ao aos dois policiais continuam movendo-se; do túnel à cabine, da cabina à cozinha, e da cozinha até o ínicio do corredor.
Então para.
Eles permanecem imóveis por um longo tempo e eu começo a cogitar a execução de uma ação alternativa, que com certeza seria mais arriscada, instável e sangrenta.
Aguardo.
O comunicador permanece num completo silêncio.

“Agente Utri?” – Chamo. – “Agente Utri, responda.”
Segundos se passam e nada.
Puxo o rádio, pronto para dar a ordem...

“Richmond.”
– A voz dele finalmente ressurge.
“A alavanca foi aberta.”

Repasso o comando ao resto da equipe, e a operação de fato começa.
Nós entramos em fileiras pelo portão, com arma em punho, caminhando em direção ao hall de entrada. Um imenso batalhão de preto toma todo o espaço após o portão e eu giro a maçaneta com a mão esquerda, enquanto um dos policiais me dá cobertura.
A porta dupla é escancarada, causando alarme nos dois capangas que circulam pela sala de estar que fica de frente para o hall. A casa é invadida por vários policiais armados tão rapidamente que não há tempo ou espaço para reagir.

“Deita, deita, arma no chão e mão pra trás, vai!” – Ordeno.

Ambos obedecem o comando, mas disparos surgem num dos cômodos atrás da sala. Me protego pressionando meu corpo contra a parede, enquanto uma breve troca de tiros acontece. Em pouco tempo, os dois corpos se estendem na entrada oposta da sala, inertes.
Giro o indicador esquerdo para a equipe, sinalizando para que se dividam.

“Quero todos os sobreviventes aqui, em fila, na minha frente.”
    – Digo para a parte da equipe que permaneceu no hall.

Enquanto policiais invadem quartos e os demais cômodos da casa, os que permanecem aqui levantam três capangas algemados do chão, com movimentos bruscos. Um deles foi baleado de raspão no braço.
Eles permanecem de cabeça baixa quando são colocados em fila.
Minutos depois, observo César surgir escoltado por outros policiais, também algemado.
Ele mantém a cabeça erguida e o olhar altivo, e sua expressão estampa todo o desprezo e escárnio quando ele é posto diante de mim.

“Devo parabenizá-lo, detetive, pelo excelente trabalho.”
   – Ele murmura, formal e sereno.
“O mundo irá aplaudi-lo por ser o homem que capturou o líder de uma das maiores máfias da Europa.”

Eu não digo nada.
Eu deveria mandar que o tirassem da minha frente, mas simplesmente não consigo fazer isso.
Não até que ele solte o que tem a me dizer.

“Mas seu nome com certeza será perpetuado na história quando for reconhecido como o homem que prendeu os dois líderes do tão infeccioso clã Vaccari.”
– Ele continua. É óbvio que está se referindo a Liza agora.

Seu tom então fica mais baixo e condescendente, como se a conversa houvesse se tornado íntima...

“Sabe, por mais estranho que soe, eu não odeio você.” – Murmura. – “Sei o quanto seria difícil pra você investigar a própria esposa, então decidi lhe poupar todo esse tempo que perderia com a investigação facilitando as coisas.”

“Como assim?” – Pergunto, receoso.

“Não eu, exatamente.” – Corrige. – “Tem um filho brilhante, sabia? Tinha, quero dizer. Alex se prontificou a juntar todas as provas que a Interpol jamais conseguiria sozinha, contra a Liza.”

Seu sorriso se alarga em seguida, como se estivesse orgulhoso de suas próprias palavras.
Eu sustento uma expressão impassível enquanto César é levado para fora, e faço o mesmo esforço durante todo o resto da viagem.
Meu rosto é quase como uma estátua de cera, rígida, inabalável, enquanto minha mente é uma tempestade completa.