Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

22 de abr de 2016

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 43

JAMES
Fraqueza.
É a única sensação nítida que tenho quando sou colocado sobre a comprida mesa da mansão de Beth.
Não sei quando exatamente as coisas começaram a piorar, mas agora sinto como se meu sangue estivesse se tornando água.
Minha visão não está embassada, como imaginei que estaria numa situação como essa, mas meus sentidos estão tão bagunçados que minha percepção é como pedaços desconexos de algo fragmentado.
Sidney.
Mesmo quando não consigo vê-la, sinto seu cheiro desde a viagem até aqui.
Ela não demora a entrar no meu campo de visão, entretanto.



“Ele está perdendo muito sangue.” – Ela comenta para alguém na sala, enquanto examina o tecido molhado em volta do meu abdômen, com o cenho franzido.

Viro a cabeça para o lado.
Nicolas, um dos homens Vaccari, anda de um lado para o outro, dizendo algo no celular.
Eu deveria me desesperar ou ficar, no mínimo alarmado com suas expressões tensas, mas a inércia me embriaga, me impedindo de sentir qualquer outra coisa.

“Ele ainda está consciente?” – Nicolas pergunta.

Sua voz se mantém séria, mais sóbria que a de Sidney.
Ela faz um sinal de afirmação, e ele volta a dizer coisas no telefone.
Nicolas foi chamado para cá por ser uma espécie de articulador da máfia. Ele não é o cara que age. Ele é o cara que negocia, e no momento ele deve estar negociando o preço da minha vida com algum cirurgião.
Sua postura e seus contatos lembram o César, às vezes.

Ele se afasta do cômodo por alguns minutos, mas volta, com o celular já desligado.

“Ele estará aqui em meia hora.” – Murmura.

“É muito tempo.” – Sidney diz. Ela sai do meu campo de visão e se desloca para algum outro ponto. – “Eu tenho que dar um jeito de estancar esse sangue.”

“O que está pensando em fazer?” – Nicolas lança, cético.

Há o barulho de gavetas se abrindo, em seguida.
Superfícies de texturas diferentes se arranhando.
Poucos metros a minha frente, ela abre a porta de um pequeno ármario, tirando uma garrafa de vodca de dentro.

“Sidney.” – Ele chama, novamente. – “Tem certeza de que isso é seguro?”

“Tive uma vida tão agitada quanto essa antes de trabalhar para os Vaccari.” – Diz. – “Colegas minhas eram feridas com frequência e a gente teve que aprender a se virar.”

Nicolas acompanha seus movimentos, em silêncio, assim como o resto da sala.
Ela traz certa de dois ou três tecidos brancos e limpos, e uma faca afiada.

“Vou precisar de ajuda.” – Diz. Os homens Hansson espalhados pelo cômodo se levantam, de prontidão.

Vejo de relance suas mãos cobertas por luvas cirúrgicas.

“Nicolas vai ficar com os panos limpos na mão, e vai pressioná-los no corte em torno do meu pulso assim que eu mandar.” – Afirma. – “Os outros vão segurar o James e impedir que ele se mova.”

Observo a cena, com apreensão.
Ela olha para mim e se aproxima do meu rosto, como se estivesse prestes a me confidenciar algo...

“Não vou mentir.” – Murmura. – “Isso vai doer.”

Sinto mãos pressionando meus braços e ombros para baixo.
Respiro fundo, fechando os olhos.
Então, numa fração de segundo, sinto a lâmina fria pressionar-se, urgente, contra minha pele, a dor pungente se espalhar pelo meu corpo, minha boca se abrir num grito aflitivo e tudo sair de foco.
Como se nada mais existisse a minha volta.

DIANA
Nós fomos descartados, isso é claro.
Mogherini montou uma equipe de captura ao César e apenas um dos policiais que fizeram parte da investigação desde o início está na equipe. Will. Nem mesmo a tal protegida de Miranda Safroncik foi poupada do esquecimento.
Por mais que isso seja, de certa forma, humilhante, me sinto aliviada em não fazer parte da equipe. Eles acreditam que Will tem maiores informações sobre as razões dos dois lados da guerra terem se reunido em Catanzaro, mas apesar de tudo, foi decisão da inteligência de que César Vaccari seria capturado dentro de sua própria casa.
De surpresa.
Logo após sua volta à Grécia. No mesmo dia, até.
Posso passar os próximos dias muito bem sem ter que voltar para aquele lugar novamente.

“Sei que a folga é bem interessante, mas decidiram te dar um novo trabalho.”
  – A voz de Saxe soa atrás de mim. Ela caminha na minha direção por um dos corredores do departamento, com uma expressão de alguém bastante satisfeito.
“Vamos viajar. Estocolmo.”

“Pra quê?” – Pergunto, cética.

Saxe me estende um documento.
Nele, a Interpol exige oficialmente que membros da investigação envolvendo a máfia Vaccari acompanhem pessoalmente o caso, atualmente sob supervisão da polícia local.

“Parece que Vera Kvitova tornou-se uma vítima.”
– Murmura.
“O corpo dela foi encontrado hoje, morto, em seu apartamento.”

_

Cerca de 5 horas depois, no ínicio da tarde, estamos em frente ao caro e luxuoso prédio de Kvitova.
Há cercas de isolamento em todo o perímetro do prédio, legistas, policais e viaturas paradas no local. Funcionários são interrogados no saguão do prédio enquanto passamos direto em direção ao elevador, apertando o botão 62, correspondente ao último andar.
Apesar da agitação existente, não há tanto tumulto quanto imaginei.

Durante a viagem, Saxe me contou sobre os únicos membros vivos de sua família, a irmã mais velha e dois sobrinhos gêmeos. A irmã deixou de trabalhar desde que o acidente que a deixou paraplégica lhe fez mergulhar numa profunda depressão, e a partir de então, boa parte do salário de Saxe é usado para sustentá-la e aos filhos.
É uma história triste, mas ela não fala de si ou de sua família de uma forma melancólica. Seu trabalho a fez enxergar vivências piores do que a sua, e isso a impede de reclamar.
Pela primeira vez, Madalina se mostrou além da superfície, e eu percebi que grande parte do que ouvi sobre ela não era exatamente verdade.

“Temos uma boa bagunça aqui.” – É o que ela diz, assim que chegamos ao quarto.

É um quarto enorme e bem iluminado.
Suas roupas estão jogadas no chão e os lençóis estão desgrenhados embaixo de seu corpo inerte e seminu. O cadáver de Kvitova se estende no centro da cama king size e seus olhos estão abertos, parados, numa constante expressão de assombro.
Me aproximo.
Há marcas roxas de dedos em seu pescoço.

“Estrangulada no meio de uma preliminar.” – Saxe murmura, do outro lado da cama. – “Que trágico.”

“Quando exatamente o corpo foi encontrado?”
– Pergunto, ignorando seu comentário.

“Na madrugada de hoje.”
– Ela responde.
“Por volta de umas 4 ou 5 da manhã. Parece que uma faxineira previamente contratada vem aqui com frequência.”

“A essa hora?” – Solto. Ela encolhe os ombros.

“A faxineira provavelmente vai ser investigada também.”

Mas eu já não presto atenção a isso.
Meus olhos percorrem todo o decorrer do quarto.
Não há coisas quebradas, rasgadas ou fora de lugar. Não há sinais de luta.
Estupro é uma hipótese descartada.
E Kvitova é cuidadosa demais para trazer um estranho para sua própria casa.

“Ela conhecia o assassino.” – Murmuro, arrastadamente, num sussurro.

“O que?”

Arjean veio para Estocolmo pouco tempo antes do meu resgate.
Ele estava na cidade quando Kvitova foi morta.
E se alguém poderia ter visto ela acompanhada, só poderia ser a portaria do prédio.

Sem dar explicações a Saxe, volto para o elevador e aperto o botão equivalente ao térreo.
Lá embaixo, o recepcionista é cercado por três policiais locais, respondendo perguntas aleatórias.
Caminho resoluta em sua direção.

“Detetive Milazzo, departamento de polícia de Nápoles.”
– Murmuro, mostrando o distintivo.

“Você é do inquérito sobre os Vaccari, não é?” – Um dos policiais pergunta. – “Achei que só viria gente da Interpol.”

“Posso falar com o recepcionista separadamente?” – Pergunto. Eles se entreolham. – “Não vai demorar.”

“Claro.”
 – Um deles murmura. Ambos se afastam.

Olho para ele.
Ele veste um smoking barato, provavelmente de segunda mão, mas que cai bem em seu corpo.
Jovem. E um pouco assustado também.

“Eu estou encrencado?” – Ele pergunta, receoso.

Sorrio fracamente.

“Não.” – Respondo. – “Só quero te fazer umas perguntas.”

“Pois bem.”

“Quando foi a última vez que viu a vítima?”

“Ontem, à noite, era quase meia-noite, eu acho.”

“Ela estava acompanhada?”

“Sim.” – Responde. – “Por um homem. Ele não era daqui do prédio, eu nunca tinha visto ele antes.”

“Pode descrevê-lo pra mim?”

“Alto. Loiro. Grisalho. Tinha uma barba rala. Olhos claros, eu não lembro a cor exata.”

Puxo o celular do bolso.
Passei anos me torturando por não ter apagado todas as coisas de Arjean do meu celular, mas pela primeira vez isso me traz uma real serventia.
Abro a única foto que tenho dele e mostro para o rapaz.

“O acompanhante dela era esse homem?” – Pergunto. O reconhecimento aparece em sua expressão.

“Sim.”
– Ele afirma, confirmando minhas suspeitas.
“É ele.”