Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

22 de abr de 2016

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 42

JAMES
Ela puxa uma adaga e corta minha camisa ao meio.
Minhas costas queimam, como se fossem marcadas a brasa.



“Consegue tirá-la?”
– Pergunta. O esforço é perceptível, mas ela consegue controlar muito bem sua voz.

“César.” – Digo, com dificuldade. Uma pontada me atinge, como se uma lâmina encostasse no local ferido. Ela não é a única que precisa se esforçar para parecer tranquila. – “Vá atrás dele. O pingente está com ele.”

Ela não responde. Suas mãos se movem com cuidado, removendo minha camisa aos poucos.

“Sidney.”
– Chamo, o mais firme possível. Ela olha para mim.
“O plano é tomar o pingente das mãos dele. Nós estamos aqui pra isso.”

“O plano não incluía você levar um tiro, incluía?” – Rebate.

“Isso não importa.” – Digo. Ela volta a me ignorar.

A adaga rasga ao meio as mangas também. Com movimentos cuidadosos, ela consegue puxar a camisa para fora.

“Sidney!”

“Eu não vou atrás do César.” – Afirma, resoluta.

“Tem noção...” – Minha voz falha. Sinto como se todos os meus sentidos estivessem prestes a entrar em colapso. – “Tem noção do quanto é perigoso deixar ele ir com o pingente?”

“Tenho, mas vou fazer como você e abandonar a prudência por um instante.”

“Como assim?” – Exigo.

Suas mãos apertam a camisa em volta do meu tronco, numa tentativa de estancar o sangue.
Ela puxa o comunicador e murmura:

“O James foi baleado na quinta avenida, tragam um carro pra cá agora.”

“Estou falando com você.” – Solto, já irritado.

“Você veio atrás dele sozinho.” – Murmura. – “Isso por si só já é uma imprudência.”

“Ele fugiu.”

“Você tinha um comunicador e pessoas a sua volta. Podia chamar qualquer um de nós. Não tem desculpa.”

“Eu perderia tempo.”

Ela finalmente para.
Suas mãos pousam com força nas próprias coxas, e ela fixa o olhar em meu rosto, impaciente.

“Você está perdendo sangue.”
– Afirma.
“Calar a boca ajudaria bastante sua situação.”

“Mas...”

“Eu já disse que não vou atrás do César.” – Interrompe. – “Não há nada que você possa dizer pra me fazer mudar de ideia.”

Apesar do meu aborrecimento, eu acato sua ordem e me mantenho calado.
Só então, agora, consigo perceber o que está acontecendo comigo.
O local por onde a bala entrou ainda queima, num incômodo incessante, mas as pontadas de dor só acontecem quando me movo. Sidney pressiona o tecido já ensanguentado enquanto olha para os lados, em alerta. Não faço ideia de quantos ou quais orgãos possam ter sido atingidos, mas sinto como se minha barriga estivesse dormente, apesar dos espasmos que atingem o local, em intervalos.
É ruim, mas suportável.
Não demora muito até que o carro chegue e Carlo, acompanhado de dois homens Hansson saiam de lá, correndo na minha direção.
Ele passa um olhar na direção de Sidney antes de fixar sua atenção em mim.
Antes que todos eles me carreguem até o carro, ele se abaixa e murmura:

“Como se sente?”

E então eu digo a única palavra viável para o momento...

“Vivo.”

WILL
Disco os números que compõem o número da Liza.
Essa é a primeira vez que falo com ela desde muitas semanas, e a certeza de que isso não será nada amigável cresce a cada passo que dou pelo decorrer da rua. Estou em algum ponto a alguns quarteirões da sede Vaccari, pensando e repensando nas informações de Cavendish.
O preço para o resgate da Jennifer é algo que envolve o enigma.
O enigma ainda existe.

A chamada dura pouco tempo até que ela atenda.
Não há muito barulho no fundo, e sua voz sai desconfiada.

“O que você quer?”

“Então ainda mantém meu número.” – Murmuro.

“Não tenho muito tempo sobrando pra atualizar a agenda.” – Rebate.

“Sei que está com a Jennifer.”
– Lanço.
“Espero que consiga alguém para limpar o tapete da sede.”

Ela não responde a isso.
Pelo contrário, ela fica muda na linha até que eu diga...

“O que você deu ao César em troca?”

“Não é assunto seu.”

“Mas é claro que é.” – Rebato. – “É a minha filha. É a vida dela que está em jogo.”

“Não mais.”
– Diz.
“Eu acredito que a essa altura você já saiba, mas não custa dizer que ela está sendo levada para um local seguro, bem longe do César, está sã e salva, será cuidada e alimentada. Não tem do que se preocupar.”
“Eu sempre tenho do que me preocupar quando o enigma está no meio.”

“Como sabe disso?”

“Isso não importa.” – Digo. – “E pelo seu tom, você sabe que o enigma ainda existe. Ouso dizer que sabe o que é, então me diga o que você deu ao César e o quão nocivo pode ser isso.”

“Eu ainda não fui presa, Will.”
   – Debocha.
“Não tenho que me submeter a interrogatórios.”

Há mil respostas instantâneas surgindo na minha mente. Todas elas dão a entender de que eu posso colocá-la na cadeia. Fico me perguntando se ela já não sabe disso.

“Pode atingir a Jennifer?” – Pergunto.

Minha voz agora não é debochada, ou desdenhosa, ou sequer indiferente.
É como se voltássemos a cena anterior, onde estávamos calados, tristes e vulneráveis. Porém, ainda assim, fechados.
Ela também se permite quebrar algumas barreiras de auto-defesa.

“Pode.”
– Responde, num suspiro. Sua voz é, mais do que tudo, cansada. Há uma porção de outras coisas aí, mas é como ela se cansasse de tudo. Do peso carregado, dos problemas, das emoções conflituosas, de si mesma.
“Pode atingir qualquer um de nós.”

Nós nos calamos.
A linha fica em silêncio durante um bom tempo.
De certa forma, é melhor que a Jennifer permaneça no bunker e não tenha que ver a mãe sendo presa. Ou o pai sendo o maior responsável por isso.

“Tenho que desligar.” – Diz.

Eu balanço a cabeça em concordância, o que é idiota, porque ela não vai ver isso.
Ela espera que eu diga algo, mas eu permaneço em silêncio.
O barulho que indica que a linha foi desligada é o que vem em seguida.