Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

8 de abr de 2016

Sentença (fúria 3 temp) - Capítulo 40

LIZA
“Vocês serão divididos em grupos e subgrupos.”
   – James afirma, ao meu lado, as instruções para o batalhão de homens Hansson e Vaccari.
“São dois grupos, o meu e o de Liza. Estarão sob nosso comando e vão nos manter informados sobre qualquer coisa importante pelos rádios comunicadores.”



O metal gelado do pingente em contato com a pele sensível da minha virilha funciona como um constante lembrete sobre o que está em jogo aqui. Essa é uma manobra arriscada, talvez a mais arriscada de todas, já que haverá, pela primeira vez em décadas, um confronto direto entre os Vaccari. Um confronto grande, que provavelmente chamará a atenção.
Essa é uma situação historicamente interessante; uma líder Vaccari, unida a um líder Hansson, lutando contra outros Vaccari. O velho Jon deve estar se revirando em seu túmulo.

“Os que forem comigo, vão se dividir em quatro grupos, que vão se deslocar para as quatro rotas de saída possíveis ao lugar do encontro. O carro de César Vaccari vai passar por uma delas. Enquanto Liza e seu grupo estiver fazendo a troca, nós estaremos encurralando-o, numa armadilha.”
   – James continua.
“A ordem é tomar o pingente de volta, não importa quantas pessoas saiam mortas nisso. Assim que o carro dele entrar no campo de visão, atirem. Sem hesitação.”

Eu observo os rostos, alguns deles estampando a satisfação, outros, a precaução.
Entre prudentes, céticos, eufóricos e sádicos, todos eles vão cumprir as instruções e apertar o gatilho quando for necessário, mesmo que internamente não estejam concordando com isso. Há a possibilidade de que o próprio César saia morto. Há a possibilidade de que qualquer um aqui saia morto, e essa consciência cai como um peso sobre mim.
César morto.
Seria um alívio se acontecesse, mas a ideia soa tão irreal na minha mente.

Olho para James.
Ele está calado há sei lá quanto tempo, e então eu percebo que é minha vez de falar.

“O grupo que for comigo será menor que o de James.”
   – As palavras fluem nos meus lábios. É tão simples falar agora, tão fácil dissertar sobre nossos próximos passos; cada palavra sai limpa e nítida, com tom e peso impecáveis, conectadas umas nas outras nessa espécie de discurso.
“Eles vão sair primeiro e nós vamos seguir depois para o local da troca. Assim que ela for feita, o trabalho de vocês será nos escoltar até o avião, e do avião, para o bunker.”

Um dos bunkers pertencentes a nós está em Joanesburgo, na África do Sul, e ele é muito mais destinado à esconder pessoas do que armazenar cargas. É um bunker grande, subterrâneo, com cerca de dois cômodos, um bom sistema de ventilação e uma cama confortável. Como sempre anda guarnecido, é secreto e trancado com senha, é o lugar mais seguro para manter a Jennifer enquanto essa bagunça ainda não for resolvida.
Caso o plano não der certo, não posso correr o risco de deixar minha filha a mercê de outra retaliação.

“Lembre-se que o foco é proteger Jennifer Vaccari, acima de tudo.” – Continuo. – “Ela deve ser transferida em segurança de Catanzaro para Joanesburgo o mais rápido possível.”

Chega a ser cômica minha atual exigência de expor o Vaccari em seu sobrenome.
Ele sempre esteve lá, é claro, mas nos últimos anos não era algo do qual eu me orgulhasse. Eu era Elisa Richmond e minha filha era Jennifer Richmond. Entretanto, o sobrenome anteriormente rechaçado, tem peso e força suficientes para manter a mim e a Jennifer numa posição privilegiada.
Nós, eu, César e Jennifer, somos os únicos Vaccari vivos.
Uma voz amarga e acusadora sussurra cruelmente no fundo da minha mente: esse número costumava ser maior.
Alex.
Éramos quatro, agora somos três, e depois disso, só Deus sabe quantos vão restar.

James reúne seu grupo e os quatro carros avançam em direção à saída do estacionamento.
Ele tem 16 homens, todos Hansson, com a exceção de Sidney, que preferiu ir com ele.
Meu grupo tem apenas 8 homens, armados, mas não tanto quanto os de James.
Há dois carros e eles estão aguardando o sinal.
Reprimo um suspiro e digo:

“Vamos.”

Ao passo em que os carros se aproximam do local, uma espécie de tenda em cúpula entra, aos poucos, no meu campo de visão. Ela tem seus lados e teto revestidos por vidro transparente, com figuras geométricas talhadas nele. Em seu interior, uma única mesa com duas cadeiras. César está sentado numa delas.
Olho para o relógio. 6h02.
Tento calcular o tempo que levarei para tirar a Jennifer da Itália.

Avanço em direção a tenda, ouvindo o som de passos logo atrás de mim.
Enquanto alguns me acompanharão na tenda, outros decidiram permanecer próximos aos carros, com o olhar atento a qualquer imprevisto.
A essa hora, o grupo de James já deve estar em posição.
Abro a porta de vidro.

“Liza, querida.” – César diz, de pé, assim que entro na tenda.

Ele caminha a passos largos na minha direção, com um sorriso cínico no rosto.

“Não sabe o quanto esperei por esse momento.” – Murmura.

“Onde está minha filha?” – Lanço, áspera.

Ele fita meu rosto por uns segundos e então faz um sinal para trás.
No fundo da tenda, dois homens agarram os braços de uma Jennifer magra, confusa e encapuzada.
Olho para seus pés. Enfaixados.
Fixo o olhar de volta para César. Observá-la nessas condições, sabendo que eu tive uma culpa nisso é demais para mim.
Pisco várias vezes, tentando desfazer a ardência nos meus olhos.

“Tire o capuz dela.”
 – Ordeno. Ele repassa a ordem para os homens que arrancam, bruscamente, o saco preto de sua cabeça.

Os fios ruivos se rebelam com a ação e seus olhos assustados se cravam em mim, como se um pedido de socorro estivesse escrito neles.
Ela se mantém calada, imóvel, e sua boca se move num “mãe” inaudível.

“Tragam a menina.”
– César ordena, sem retirar os olhos de mim. É como se ele se divertisse com a minha dor.

Os homens a puxam para frente, e ela caminha tropeçando devido às feridas ainda frescas.
Que ele morra, é o que eu penso, enquanto olho para o César, que ele morra da pior forma possível.
Quando estão na metade do caminho, César faz outro sinal; os homens empurram-na para frente e ela corre na minha direção.

Tudo em mim grita para abraça-la, mas não posso fazer isso. Não aqui. Não com César.

“Entre no carro.” – Sussurro para ela. Nós encaramos uma a outra. O meu olhar tenta passar a urgência da situação, e ela parece entender. Em poucos segundos, sua figura desaparece da tenda.

“Pois bem.” – César murmura. – “Sua filha está entregue, sã e salva, como o prometido.”

Observo o ambiente.
Há homens de César por todos os lados. Um indício de quebra de acordo e balas zuniriam pela minha cabeça.
Puxo o pingente para fora da calça.
Ele observa o pequeno objeto de cobre, pousado na mesa, com fascinação.
Então ele o segura, delicadamente, como algo muito vulnerável e valioso.

“Tem noção do que isso significa?” – Ele murmura num quase-sussurro. Seu olhar permanece fixo no pingente, hipnotizado.

Percebo então que ele não está esperando uma resposta.
Ele se levanta e parte, sorridente, junto com seus homens, em direção aos seus carros.
Então sou eu, sozinha, dentro de uma cúpula enorme.
Puxo o comunicador na parte de trás da minha calça.

“James.” – Murmuro, com a boca no fone. – “Estão indo até você.”

WILL
Craven convocou uma incomum reunião com todo o centro de inteligência.
Diana e Saxe estão ao meu lado, impacientes, e eu prefiro me abster de uma auto-análise sobre como eu estou me sentindo.
O mandato de prisão do César muda algumas coisas por aqui. Uma delas é o fato de que meu trabalho agora é com a Liza.

“Antes de tudo, devo parabenizar toda a inteligência pelo trabalho e esforço exemplar na construção desse inquérito.” – Ele diz, e seu tom parece bastante satisfeito. – “Estamos chegando a uma nova etapa da operação, onde um grupo previamente escolhido ficará na incubência de capturar César Vaccari.”

“Espero que esse grupo seja realmente bom.” – Diana sussurra.

“Não quer fazer parte dele?” – Saxe murmura de volta. Diana faz uma careta de desgosto.

“Deus me livre de cruzar de novo com César Vaccari.” – Diz. – “A experiência que tive na Grécia foi mais que suficiente.”

“Porém, antes de revelar os nomes dos agentes encarregados para essa fase, devo compartilhar a informação que nos chegou quanto a movimentação de César e Liza Vaccari.”
     – Craven continua. Ouvir o nome dela provoca uma descarga de adrenalina em mim.
“Ambos se encontram atualmente em Catanzaro, com uma quantidade significativa de homens. Nossas suspeitas é que vai haver algum tipo de negociação entre eles. O comando decidiu agir com prudência e discrição, aguardando César Vaccari voltar à Grécia para ser capturado.”

Negociação.
As vozes baixas de Madalina e Diana se tornam ruídos incompreensíveis e remotos.
A lembrança de Cavendish me dizendo sobre uma possível negociação, sobre o enigma e sua ligação com o sequestro da Jennifer vem à tona com toda a força.
Essa negociação é o resgate da Jennifer.

“Will?” – Diana chama, confusa, ao me ver caminhando para fora do departamento.

Posso sentir os passos dela atrás de mim, mas eu só paro quando sua mão agarra meu braço.

“O que aconteceu?” – Ela pergunta, examinando meu rosto.

Ela geralmente anda preocupada comigo desde o sequestro.
É como se ela me enxergasse como uma bomba-relógio, pronta para explodir a qualquer momento.
Tento forçar uma expressão e voz tranquilas, enquanto afirmo...

“Preciso resolver umas coisas.”