Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

5 de abr de 2016

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 39

WILL
Diana salta do helicóptero pousado na pista fechada do departamento.
Ela está acompanhada de Habsburg e outros três agentes, incluindo o piloto. Seu cabelo curto tem um corte que parece provocar os fios a ficarem sempre bagunçados. Ela os organiza atrás das orelhas enquanto me lança um sorriso torto.
Ela soa cansada. Física e psicologicamente.
Observar seu rosto me obriga a analisar minha própria situação.



“Richmond.” – Hector murmura, me lançando um aceno de cabeça.

“Habsburg.”

Ele se afasta, embrenhando-se no redemoinho de agentes agitados, andando de um lado para o outro em suas funções.

“É bom estar de volta.”
  – Diana diz quando está suficientemente próxima para que eu possa ouvi-la.

“É bom vê-la de volta.” – Respondo. Nós trocamos olhares cúmplices.

Viro o rosto displicentemente para trás, e enxergo a cabeleira loira de Saxe se sobressair no meio da aglomeração.
Ela tem a expressão preocupada, os músculos do rosto contraídos, e seu olhar se mantém fixo em mim enquanto ela caminha na minha direção. Volto a olhar para Diana e ela tem uma sobrancelha arqueada.

“Algumas coisas mudaram enquanto você estava fora.”
    – Digo.

“Percebi.” – Ela murmura.

“Richmond.” – Saxe diz assim que se aproxima. Seu olhar se volta para Diana e ela solta: – “Essa deve ser a detetive Milazzo, suponho.”
“Prazer.” – Diana murmura.

“Madalina Saxe.” – Ela murmura de volta. As duas trocam sorrisos profissionais e apertos de mão.

“Ela é da Interpol.” – Informo para Diana. – “Eles andam intervindo aqui bastante, ultimamente. O departamento está quase virando uma base da Interpol.”

Eu nem sequer me incomodo em observar a reação de Madalina.
A irritação geral quanto às cada vez mais invasivas intervenções é mais do que conhecida para ela.
Diana, por sua vez, decide que é melhor não dizer nada.

“Enfim, vim dizer que Mogherini acabou de receber uma ligação de Safroncik.”
  – Saxe prossegue, ignorando a farpa.

“E?”

“E parece que o caso César Vaccari está prestes a acabar.”
  – Ela completa.
“Craven acabou de expedir um mandato de prisão preventiva contra ele.”

JAMES
Subo correndo a escadaria da mansão de Beth, em Catanzaro.
Lá dentro, as únicas pessoas presentes são Liza e Sidney, na sala principal; Liza caminha de um lado para o outro, ansiosa, enquanto Sidney fita as próprias unhas roídas, sentada num dos sofás.
Ambas estão caladas, tensas, envoltas em seus próprios pensamentos. Mau sinal.
Finjo uma tosse que sai alta demais.

As duas fixam o olhar em mim, mas continuam sem falar nada. Péssimo sinal.
Deixo escapar um suspiro exasperado.

“Então, digam logo o que aconteceu.” – Ordeno.

“Não sei por onde começar.” – Liza confessa.

“Pode começar me dizendo o quão grave é isso.”

“Muito grave.” – Diz. – “Você nem imagina.”

 “Ótimo.”
– Solto, irritado.
“É melhor que me diga logo de uma vez, então.”

“Lembra do enigma?” – Ela começa. – “O cofre, a carta...”

“Sim.” – Digo. – “Você o destruiu a sei lá quantos anos atrás.”

“Não, eu não destruí.”
– Responde.
“Eu achei que tinha destruído, mas o que eu destruí foi só a forma mais rápida de chegar até ele.”

Ela dá uma pausa, como se precisasse observar minha reação.

“Bom...”
– Murmuro.
“Eu tinha minhas desconfianças quanto a isso, de qualquer forma.”

“Havia outra pista.”
– Continua.
“No diário da minha mãe.”

“Previsível.” – Comento.

“Quer calar a boca e deixar a Liza terminar?!” – Sidney explode. Arqueio uma sobrancelha para ela.

“Está nervosa hoje.” – Murmuro, com uma nota bem remota de escárnio na voz.

“Se ficar quieto vai saber o porquê.” – Ralha.

“Certo.” – Liza assegura, com o tom de voz mais alto, como quem quer por fim a uma conversa paralela. Somente quando se certifica de que tem toda a atenção da sala para ela, continua: – “A pista eram palavras aleatórias que estavam em idiomas diferentes e a Sidney traduziu. De alguma forma, eu consegui descobrir o enigma através delas.”

“E então?”

“E então que por mais que isso seja estranho, existem cinco bombas de hidrogênio escondidas nas fundações de cinco mansões pertencentes aos Vaccari. Eu não sei exatamente em quais mansões, mas sei que uma delas está no Brasil. E o pingente é a chave para detoná-las.”
Faz-se um silêncio sepulcral, repleto de apreensão.
Bombas de hidrogênio. Cinco, por sinal.
Soa louco e fora de lugar, mas parece que minha mente se nega a refletir muito sobre isso, porque não consigo esboçar desespero ou surpresa ou preocupação, ou qualquer coisa que se assemelhe a emoções aceitáveis nesse momento.
É como uma folha em branco.
Eu provavelmente não me dei conta do desastre.

“Ok.” – Digo. – “Isso significa que entregar o pingente é algo fora de cogitação, certo?”

“Certo.” – Liza responde, mas ela não parece muito segura do que diz.

“Só uma pergunta” – Começo. – “Como isso aconteceu?”

“Algo como o sequestro de cientistas nucleares russos no meio da guerra pra algum tipo de projeto megalomaníaco dos Vaccari.”

“Os Vaccari fizeram uma espécie de encenação na época.”
– Sidney se pronuncia.
“Algo para fazer parecer que os cientistas tinham aceitado alguma proposta do governo norte-americano e desertado por conta própria. Como isso seria uma péssima propaganda, o governo soviético decidiu esconder o que aconteceu.”

“Seria preciso muito tempo e dinheiro para fazer isso...”

“Pelo visto eles tinham.”
– Liza interrompe.
“O que importa agora é que o resgate da Jennifer vai ser amanhã e eu não posso correr o risco de entregar o controle de possíveis cinco bombas de hidrogênio nas mãos do César.”

“Não precisamos.” – Afirmo, encolhendo os ombros.

“Como não?!”

Então, neste momento eu percebo que já estou envolvido demais para parar.
Minha mente fervilha com planos e rotas traçadas, e algo como uma satisfação e entusiasmo primitivos pela perspectiva de enganar o tão temido César Vaccari tomam conta de mim. Com bombas existentes ou não, vai surtir o efeito desejado. César está tão obcecado quanto à esse enigma quanto a Liza e é isso o que importa. A explosão da mansão na Sicília frustrou seus planos, com certeza, mas roubar um simples pingente debaixo de seu nariz ultrapassará qualquer desconforto causado pela manobra anterior. Vai enfurecê-lo, revoltá-lo.

“Simples.”
  – Murmuro, me sentindo muito mais confortável que antes, mas não o suficiente para estar bem. A lembrança de Jennifer e de que se trata de seu resgate é a única coisa que me mantém no chão. Por maior que seja a adrenalina e o desejo em tirá-lo de seu habitual auto-controle, não posso me dar ao luxo de por a vida da Jennifer em risco. É a filha da Liza, depois de tudo.
“Podemos entregar o pingente, e depois tomá-lo de volta.”