Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

19 de abr de 2016

Sentença (3ª temp de fúria) - Capítulo 41

JAMES
“Todo mundo em posição.”
   – Ordeno pelo comunicador.

Observo, de soslaio, Sidney abertar o botão que abre o teto retrátil.
Uma saída quadrada se abre no teto aos poucos, conforme o metal preto da carroceria se recolhe.
É uma abertura de tamanho médio, com espaço suficiente para que uma mulher magra e pequena como Sidney consiga mergulhar por ele, com arma em punho.
Ela carrega uma MP5, assim como os outros fazem com suas respectivas armas, em uníssono.
Meus olhos então voltam-se novamente para a rua.



A essa altura, Liza deve estar levando a filha para o avião.
Apesar de ter quase certeza de que essa parte do plano deu certo, como esperado, não consigo deixar de pensar que pode acontecer algo que atrapalhe a viagem. César pode não ter se convencido da falta de resistência em entregar o pingente. Pressupõe-se que ele não sabe sobre a pista ou sobre a ciência da Liza quanto ao que é, de fato, o enigma, mas sempre existe a possibilidade de que estejamos errados...

“Ele está na sua rota, James.” – A voz de Yuval me põe em alerta. Sua voz é distorcida pelo vento forte que sopra no prédio onde ela está, provocando um intenso barulho no comunicador.

Todos os presentes no carro ouvem o aviso.
Nós nos colocamos ainda mais em alerta e eu ligo o carro.
As últimas balas são encaixadas no pente de pelo menos duas submetralhadoras. Yuval tem um rifle mirado para a rua onde estou, na janela de um dos andares de um prédio à pelo menos uns 100 metros daqui.
Aguardo.
Tenciono o pé que paira no ar, numa distância de centímetros até o acelerador.
Se passa um, dois, três minutos ou talvez mais até que aconteça.
O carro preto de César entra no meu campo de visão, e eu troco a marcha.
Olho para Sidney.
Ela move a cabeça num sinal quase imperceptível, em afirmação.
Ponho o pé no acelerador e avanço.
Giro o carro para a direita e ela emerge pelo teto, arma em punho.
Seus disparos na direção do parabrisa atraem os outros; um dos tiros atravessa o vidro e atinge o rosto do motorista, que estampa uma buraco do tamanho da palma de uma mão enquanto pende no banco ensanguentado, morto. Outros dois homens se agacham, saindo por portas diferentes e usando a carroceria do carro para se proteger. Não é possível saber de quem vem o tiro que atinge a perna de um dos homens, que deixa a arma cair e é atingido outras duas vezes nas costas. Dois outros carros pertencentes a César se aproximam. Um deles inicia uma troca de tiros, o outro, prefere seguir por outra rota.

“Tem um carro saindo daqui! Não deixa ele passar!” – Carlo ordena em seu comunicador.

Homens de César saem dos carros, com metralhadoras na mão.
Tiros atingem a carroceria do nosso carro, e de repente, estamos quase todos na rua.
Sidney grita comandos e mergulha de volta ao interior do carro, recarregando a metralhadora enquanto vai para fora.
Proteger-se. Atirar. Recarregar. Pegar o pingente.
Minha mente se concentra em absorver ordens diversas.

Então, um vulto corre em direção ao beco que escoa em travessas pouco movimentadas.
César.
Saio do carro, me desviando do local dos tiros.
Corro pelo passeio, na extrema lateral do lado oeste da rua. Entro no beco. Estreito. Curto. Relativamente escuro.
Apesar de não vê-lo, consigo ouvir seus passos metros a minha frente.
Sigo o barulho surdo de pés contra o chão e viro à direita, caindo num outro beco, mais comprido que o último. Esquerda. Beco mais largo. Me sinto num labirinto.
Então há uma única saída iluminada, que dá acesso a uma ampla avenida.

O sol clareia a rua em tons de laranja, e não há pessoas ou carros aqui. Apenas estradas bem pavimentadas e lojas fechadas.
O som dos passos de César também cessam por aqui.
Olho para todos os cantos possíveis, ainda com arma em punho. Nada.

“Ele não pode ter ido muito longe.” – Sussurro baixinho.

Meus pés se movem lentamente pelos arredores, tentando encontrar saídas, outros becos ou esconderijos.
A avenida é muito extensa, larga e aberta para que ele possa ter se escondido tão rápido.
Puxo o comunicador.
Talvez houvesse um carro esperando por ele aqui.

“Yuval” – Murmuro.

Mas não consigo terminar o resto.
Um impacto me atinge e de repente, meu comunicador está no chão.
Eu também estou no chão, e a dor começa a surgir agora, segundos depois.
O que se segue é o barulho de tiros e passos correndo na minha direção.
Meus sentidos estão confusos e minha mão, anteriormente pousada sobre minha barriga, está suja de sangue.
Os passos se aproximam. César vai terminar o serviço.
Mas então, quando um corpo magro e feminino se agacha ao meu lado, descubro que não é o César.
É a Sidney.

WILL
Estou em frente ao prédio que abriga os Vaccari, e meus pés se movem com determinação.
Num desses andares funciona secretamente a sede da máfia; é um ótimo esconderijo, um patrimônio em decadência, com andares menores ocupados por prostitutas ou pessoas desabrigadas para despistar, ninguém pensaria que havia aqui mais do que centros baratos de prostituição e pessoas sem teto.
Bato fortemente na porta.
Não demora muito tempo até que uma moça, uma adolescente de cerca de 15 ou 16 anos abra uma fresta. Seu olhar é assustado, apreensivo, e eu sinto pena dela pelo que estou prestes a fazer.

Num chute, abro a porta por completo. Ela pula para trás e eu aponto a pistola para seu rosto, fazendo sinal para que ela se mantenha em silêncio.
Seus olhos estão arregalados, e seu corpo, imóvel.
A consciência de que essa menina tem quase a mesma idade de Jennifer, e que provavelmente está aqui por que não tem lugar melhor, me enche de culpa e tristeza por 2 segundos.
Mas então, empurro o pensamento para fora e volto a realidade.

“Qual é o andar da máfia?” – Exigo. Ela mostra três dedos trêmulos.

Avanço para as escadas, tentando fazer o menor barulho possível.
Esse é o melhor momento para atacar a sede; boa parte dos homens Vaccari estão em Catanzaro com Liza, e a segurança aqui está mais fraca. Por sorte, não vou encontrar mais de duas pessoas aqui.

A escada do terceiro andar dá para um longo corredor, com uma única porta entreaberta.
A fresta fornece uma mínima iluminação natural ao corredor escuro e abafado.
Meu corpo está a centímetros da porta, e eu movo o rosto lentamente para frente, tendo uma visão parcial do interior do cômodo.
É uma bonita sala, incrivelmente bem mobiliada, e há apenas um homem lá dentro. E ele está de costas.
Quase sorrio de satisfação.
Num movimento, me ponho dentro da sala e atiro na parte superior de sua coxa. Ele grita e cai no canto esquerdo da mesa.

Ele olha para os lados, tentando recuperar a arma caída durante a queda.
Chuto-a para fora de seu alcance. Seu olhar se fixa em mim, com raiva. Sorrio.

“Bom dia, rapaz.”
– Murmuro, com a voz arrastada. O homem não aparenta ter mais de 25 anos.

“Quem é você?!”

“Ninguém.” – Respondo. – “Só quero uma informação.”

Ele ainda mantém a hostilidade, mas fica calado.
Balanço a cabeça em aprovação.

“Fiquei sabendo que sua chefe está em Catanzaro.” – Começo. – “Fiquei curioso pra saber também o que ela está fazendo lá.”

Ele ri, em deboche.

“Você é da polícia?” – Solta. – “Tá maluco se acha que vou dizer alguma coisa.”

Disparo em seu joelho esquerdo.
Ele grita de dor.

“Geralmente tiros são bem dolorosos em qualquer parte do joelho.” – Começo, encostando o ombro na parede, de frente para ele. – “Mas justo nessa parte, estourando uma articulação... Dificilmente vai conseguir correr depois disso.”

Seu rosto permanece contraído, e ele tenta se controlar em meio a uma dor lancinante.
Encosto o cano da arma no centro de seu joelho direito.

“Sua chefe foi resgatar a filha, não foi?” – Lanço.

“Quem é você?!” – Ele grita.

“Ela foi se encontrar com César Vaccari para o resgate da filha, por isso foi todo mundo para Catanzaro e você ficou aqui, a própria sorte.”

“Como sabe disso?!” – Solta. Sua voz sai desesperada.

“Então é verdade.”
– Afirmo.

Ele volta a me encarar. Seus olhos estão anuviados numa mistura de dor e raiva.

“Você, meu rapaz, vai me dizer agora para onde ela vai levar a filha.” – Sibilo.

“Não posso.” – Solta.

Outro tiro.
Ele volta a gritar de dor, e seus olhos se enchem de lágrimas.

“Agora você não vai poder andar normalmente, também.”
  – Murmuro. A sola do meu sapato se choca com seu peito e eu empurro seu tronco contra o chão, enquanto minha arma aponta para o vão logo abaixo do osso do seu quadril.
“Um tiro aqui e você se torna um inválido por um bom tempo. Como se manter parado numa cama? Não é inteligente o suficiente para montar estratégia, não tem influência ou ligações para ser útil, nem uma família pra te pagar uma cirurgia. Eu conheço homens do seu tipo. É insignificante demais para que façam questão de você.”

“Joanesburgo.”
– Ele solta.
“Ela vai levar a filha pra lá.”

África do Sul.
Há um bunker lá.
Tiro o pé de seu peito e ele me olha com expectativa. Observo seus dois joelhos ensanguentados e seu rosto vermelho, enquanto ele tenta suportar a dor.
A máfia não vai pagar uma cirurgia para ele. E ele não vai conseguir andar com a cartilagem dos dois joelhos destruída.
Será descartado como se fosse lixo, como se não tivesse valor algum.
Talvez matá-lo seja um favor.
Movo a pistola de seu quadril para sua cabeça.
Apertar o gatilho é a última coisa que faço antes de sair.