Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

25 de mar de 2016

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 38

DIANA
Faz cerca de duas horas desde que Arjean saiu.
Ele apareceu com uma mochila nas costas, com a expressão séria e concentrada, como se estivesse decidido a fazer alguma coisa. Quando eu perguntei, só me disse que iria viajar e não sabia quando voltava. Por alguma razão, como uma conspiração do destino, ele se afastou para algum outro cômodo da casa, deixando a mochila numa das cadeiras da sala.
No meio de seus documentos, uma única passagem de avião. Estocolmo, Suécia.
Desde então, não consegui retirar a sensação de que seja lá o que ele tenha que fazer, é a mando do César.



Giro o celular por várias e várias vezes numa aflita ansiosidade pela ligação de Will. Arjean me deixou com uma glock 25 num caso de emergência, mas não acho que ela seja de muita valia caso os capangas invadam a casa.
Sussurro um palavrão.
Nem com um fuzil eu estaria segura.

Sentada na escada, com o telefone numa mão e a pistola na outra, ouço o som estridente ecoar por toda a casa vazia. Atendo no primeiro toque.

“Will?” – Grasno.

“Diana, ouça.” – Ele diz. – “Uma equipe de resgate foi mandada para a Grécia faz algum tempo, mas eu preciso que você continue exatamente onde está. Não importa o que aconteça, só abra a porta para Hector Habsburg, entendeu?”

“Quando vão chegar?”

“Não sei.” – Afirma. – “Pode ser a qualquer momento, mas...”

As palavras de Will se perdem, desvanecidas pelo barulho de uma batida na porta.
Meu primeiro impulso é sacar a arma.

“Diana?” – Ele chama. Sua voz soa muito longe agora, com o celular pousado na mesa.

Caminho a passos lentos, silenciosamente, em direção a porta, destravando a pistola.
Minha mão esquerda se fecha firmemente na maçaneta.
Solto o ar, retido inconscientemente.
Num puxão, abro a porta, com o dedo no gatilho.

“Espero não parecer com nenhum dos homens de César Vaccari.”
     – A voz conhecida de Hector me deixa tonta de alívio. Ele mantém as mãos suspensas, e eu Zabaixo a arma imediatamente.

“Achei que demorariam um pouco.” – Murmuro.

“Mogherini me mandou procurá-la faz pelo menos uma hora.” – Ele diz.

“E como conseguiu me achar?”

“Primeiro, imaginei que não iria muito longe.” – Começa, orgulhoso. – “Segundo, eu tenho o conhecimento da passagem subterrânea da casa do César e deduzi que você saiu de lá. Terceiro, tenho espiões espalhados nas ruas adjacentes por onde o túnel escoa.”

Arqueio uma sobrancelha em ceticismo.

“Bom, são todos amadores, é claro.” – Explica. – “Nenhum deles possuem ligação com a polícia e não fazem a mínima ideia da dimensão de seus ‘serviços’. Eu só pago moradores locais para ficarem de olho. Como a inteligência não conseguiu rastrear sua ligação, tive que me valer desse recurso.”

“Meus parabéns.”
– Solto.

Ele move a cabeça em aprovação.

“Então, detetive Milazzo” – Ele diz, com falso formalismo. – “Vamos nos apressar. Há um helicóptero a sua espera.”

LIZA
Olho para a parede a minha frente, na “sede” Vaccari.
Há um quadro pousado em seu centro, estampando um emaranhado de cores de tom opaco numa pintura abstrata. Atrás do quadro, um cofre ativado pela voz, onde a caixa de jóias da minha mãe ficou escondido, por anos.
Imaginei que este seria o local mais seguro para manter intacta a única lembrança palpável da minha mãe, quando movi as jóias do cofre da mansão Vaccari até esse prédio, quase em ruínas.
Esse é o ninho Vaccari, para início de conversa.
Sempre vai haver homens armados transitando pela área, o que dificulta uma possível invasão. Quanto a possíveis ladrões aqui dentro, o cofre só abre ao som da minha voz.
Amanhã vou ter que abri-lo e entregar a memória mais antiga da minha mãe para César Vaccari.
Isso porque ainda nem sei qual é a real dimensão desse ato.

“Liza.” – A voz de Sidney puxa minha atenção para a porta do cômodo. Seu rosto é a única coisa visível na porta entreaberta. – “Posso entrar?”

Sorrio internamente. Fiz essa mesma pergunta faz horas. É um sorriso sem vida, entretanto.

“Claro.” – Respondo, me movendo na cadeira. Ela entra e fecha a porta.

“Tenho novidades.” – Diz.

Quando se trata de Sidney, esse tipo de frase vem acompanhado de alguma nota de euforia. Porém, dessa vez, há uma preocupação sepulcral em sua voz e expressão.
Suspiro.

“É sobre a pista.”
   – Ela completa.
“Consegui traduzir as palavras.”

Mantenho o olhar fixo nela, sem mover um músculo.
Espero que ela continue, mas ela aguarda por um incentivo meu.

“Sim?” – Murmuro.

“Eu tenho alguns livros sobre civilização e linguagem persa, o que me ajudou bastante e...”

“A tradução, Sidney.”
   – Interrompo.

“Certo.” – Solta. Suspira. – “Não me parece uma coisa boa, seja lá o que isso tudo signifique.”

“Que seja.”

“Ok.” – Diz. – “As palavras na sequência são: H, titânio, chave, detonador. Acredito que você é a única que pode encontrar uma verdadeira conexão nessas palavras.”

Se passa um instante em que minha mente fica em branco.
Então, logo depois, as memórias começam a jorrar.
Minha mãe.
Encaixando algo na parede do quarto dos meus pais, no Brasil.
Uma placa.
Algo como uma promessa de viagem ao deserto de La Paz, no México.
São imagens tão distantes e ao mesmo tempo tão nítidas, como se fossem mantidas trancadas e frescas no fundo da minha memória.
Tempestades de areia.
Uma porta de ferro.
Minhas têmporas latejam pelo esforço.
Pessoas de jaleco. Macacões. Laboratório. Tudo em preto e branco. Uma data. Agosto de 1959.

Então tudo se encaixa, como num quebra-cabeça.

“Meu Deus.” – Sussurro, atônita.

“Liza?” – Sidney chama. – “Você tá bem?”

Eu tenho o impulso de dizer que não, mas minha voz falha.
Foi uma ingenuidade sem limites achar que a destruição daquela carta seria a solução.
O enigma vai muito além disso.
E o pior, o César sabe. Não sei desde quando, mas ele sabe.

“Liza?”
– Sidney chama novamente. Volto a olhá-la.

“Descobri o enigma.” – Declaro. – “Eu ainda não sei como, mas eu descobri.”

“E então?”

“Ouça, Sidney.” – Murmuro, me aproximando dela. – “Não diga a ninguém. Não é o momento. Não importa o quão surreal isso possa parecer, não o diga a ninguém sem minha autorização.”

“Você está me assustando.”

“Prometa.”

“Tá.” – Diz, como se quisesse gritar. – “Eu prometo. Diga logo o que é esse enigma.”

“A chave é o pingente.” – Começo. – “Ele é um pedaço que falta de uma placa de cobre escondida num compartimento acoplado à parede na casa Vaccari, no Brasil. Essa placa de cobre, estando completa, é o que aciona o detonador.”

Ela nem se mexe.
Continuo.

“O detonador está escondido no bunker da Beth em La Paz, no México, entre os dois mísseis guardados lá, por isso o titânio.” – Continuo.

“O detonador aciona uma bomba.” – Murmura.

“Uma não, várias.” – Respondo. – “São cerca de 5 bombas em formato de cápsula, escondidas entre as fundações de 5 mansões pertencentes aos Vaccari, espalhadas por diferentes países. Não sei em quais mansões estão, mas sei que uma delas é a casa no Brasil.”

“Não me diga que o H é o que eu estou pensando...”

“Sim, é.” – Afirmo. – “Um dos antigos líderes Vaccari sequestraram um grupo de cientistas russos em agosto de 1959, em plena Guerra Fria. De alguma forma, os Vaccari descobriram que eles eram os mentores da fabricação de uma bomba de hidrogênio para o governo soviético e exigiram que esses cientistas fabricassem as bombas que estão nas mansões até hoje. Foi um processo caro e arriscado que durou anos, e quando foi concluído, todos os cientistas envolvidos no projeto foram assassinados.”

“E por que tudo isso?”

“Eu não sei!” – Solto. – “Eu nem sequer consigo entender como eu descobri tudo isso! O que importa é que o César sabe sobre a existência dessas bombas e por isso ele quer o pingente.”

“Se ele tiver controle sobre essas bombas, ele vai poder fazer o que bem quiser.” – Sidney diz. – “Existem mil situações diferentes em que ter isso em mãos seria vantajoso e vai saber o que aquele louco quer! Liza, você não pode entregar esse pingente.”

“Se eu não fizer isso, ele vai matar a Jennifer...”

“Ele pode fazer algo muito pior que matar sua filha!” – Exclama. Então ela vê a indignação nos meus olhos e relaxa a expressão. – “Desculpa. Eu sei que a Jennifer é importante, eu sinto muito por tudo isso, mas Liza, você não pode entregar cinco bombas de hidrogênio nas mãos dele!”

“Eu sei.”
– Sussurro. Minha voz, porém, sai tão baixa que duvido que ela tenha ouvido.

Passo as mãos pelos cabelos nervosamente, tentando por os pensamentos em ordem.
Ele teria acesso a governos com isso em mãos. Poderia ameaçar revelar para o mundo a existência dessas bombas e espalhar o caos. Sabe-se lá quantas teorias conspiratórias de uma terceira guerra mundial surgiriam, as pessoas teriam medo de que a humanidade fosse extinta, de uma perspectiva apocalíptica para o futuro, enfim...
Como se tentar salvar a vida da minha família não fosse o suficiente, tenho a impressão de que tenho que salvar o mundo agora.
Salvar o mundo.
A expressão soa tão ridícula.

“O que vai fazer?” – Sidney pergunta, assim que me vê alcançar o celular.

Eu disco os números com rapidez, como se acabasse de entrar numa corrida.
É uma corrida, de certa forma.
A troca vai ser daqui a algumas horas, e eu preciso ter um plano organizado antes disso.

Olho para a Sidney, já com o telefone na orelha.
Ela mantém uma sobrancelha arqueada, aguardando pela resposta; eu digo, então, como se fosse a coisa mais óbvia...

“Para o James, é claro.”