Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

20 de mar de 2016

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 37

WILL
Eu estava estacionando o carro quando Diana ligou.
Meus pés se movem com agilidade através do departamento, e eu intercepto com o braço um dos policiais para perguntar:

“Onde está Mogherini?”

A resposta que recebo é um aceno para o extremo oposto do corredor, onde a porta do escritório de Craven se encontra entreaberta. Abro-a por completo num safanão.

Não é uma surpresa ver a Agente Saxe dentro da sala, envolvida numa conversa entre Mogherini e Craven. Eu lhe lanço um olhar mal-humorado por um segundo e mudo o foco para os outros dois presentes no recinto...

“Diana foi descoberta.” – Solto. Minha voz sai muito mais calma do que pensei que sairia, mas a urgência não some do tom.

“Como?!” – Os três exclamam, em uníssono, alarmados.

“De alguma forma, César descobriu sua real identidade e agora está atrás dela.” – Digo. – “Ela conseguiu fugir, mas ainda corre risco de ser pega. Mogherini, dê a ordem.”

“Onde ela está agora?” – Ele pergunta, apreensivo.
“Em algum lugar não tão longe da casa do César. Dê a ordem. Uma equipe deve resgatá-la ainda hoje.”

“Não posso.” – Ele murmura.

O olhar meu e de Saxe se cravam nele como agulhas.
Craven não esboça a mínima reação.

“Chamaria atenção da mídia.” – Ele diz. – “Não posso expor a investigação dessa forma.”

“A morte dela também chamaria atenção da mídia.” – Murmuro, ácido.

“Mortes acontecem o tempo todo.” – Rebate. – “Se eu mandar uma equipe de agentes da Interpol sobrevoar o céu de Patras, a imprensa vai cair em cima de nós como urubus, loucos por informações...”

“Diana é uma agente federal, não uma civil qualquer, se você ainda não se deu conta.”
     – Interrompo.
“É sua obrigação zelar pela integridade dela, faz parte do protocolo.”

“Ora, não me venha você falar de protocolo, Richmond!”
   – Lança.
“Fiz um imenso esforço para deixar esse caso em total segredo, para evitar chamar atenção da imprensa e dos investigados, não me importa quem a Diana é, não vou deixar que ela estrague o sigilo!”

“Escute uma coisa, Mogherini.” – Sibilo, pondo toda a ameaça na minha voz. – “Se você não enviar uma equipe de resgate à Patras agora, eu mesmo vou me encarregar de quebrar seu maldito sigilo. A imprensa inteira vai ficar sabendo que um membro do alto escalão da Interpol abandonou uma agente numa missão em outro país, para morrer lá, sem qualquer tipo de ajuda. Você me entendeu ou devo ser mais claro?!”

“Você não faria isso...” – Murmura, incrédulo.

“Experimente.”

Um clima tenso se forma no local por longos segundos, até que Madalina não suporta...

“Pelo amor de Deus, Arthur, faça logo o que ele está dizendo!” – Ela estoura. – “Você sabe que se ele fizer o que está dizendo que vai fazer, Safroncik vai ficar furiosa e vai sobrar pra você, não sabe? Então, dane-se a imprensa, dê a ordem!”

“Sua mulher vai ser a primeira a se inteirar de que essa operação está acontecendo, assim que eu der a ordem” – Ele sibila para mim, contrariado. – “Sabe disso, não sabe?”

“Supõe que ela não tenha descoberto até agora, não é?”
    – Respondo, com uma nota de cinismo.

Mogherini me lança um olhar gélido antes de puxar o celular.
Instantes depois, alguém atende sua chamada.

“Habsburg, vá atrás da detetive Milazzo e descubra onde ela se enfiou.”
  – Ele diz.
“Estou mandando uma equipe de resgate para ela.”

JAMES
“Cheque.”
– Murmuro, fitando as peças postas sobre o tabuleiro quadriculado de xadrez. O rei inimigo, neste momento, encontra-se sob ataque diagonal da minha rainha e encurralado pelos dois bispos, ainda não inseridos ativamente no jogo. Ele pode movimentar-se para frente, entretanto.

“Devo confessar, Hansson, eu te subestimei.”
   – Edward Black afirma, do outro lado da mesa, movendo a cabeça num sinal de falso desgosto. É claro que este jogo é apenas um pretexto para negociações e troca de informações confidenciais em público, é claro. Nós estamos em frente a uma lanchonete bonitinha, com sua decoração vermelha de praxe, num bairro mais afastado do centro de Londres. É uma rua pouco movimentada essa, mas mesmo assim, seria mais prudente se houvesse algo para justificar nosso encontro aqui, uma vez que Edward se negou a ir para a sede Hansson.

Inserindo Edward no contexto, penso que ele é como uma rainha, no xadrez.
Ela é uma peça camurflável, flexível, que pode se transformar e agir como bispo, peão ou torre. Ela transita pelos dois lados da guerra, às vezes deixada de lado, guardada para ser usada numa ocasião mais conveniente.
Edward Black nunca foi um Hansson, e sempre deixou isso claro.
Ele trabalha para nós de vez em quando, mas também trabalha para os Vaccari e seja lá quem for que estiver disposto a pagar seu preço. Ele ajudou Rachael a derrubar a elite Hansson e consequentemente, minha família, porque ela pagou por isso. Agora ele me ajuda com informações sobre o César, mas pode fazer exatamente o oposto se ele pagar melhor.
Não é uma peça confiável, mas útil.

“Houve uma movimentação interessante no ninho de César Vaccari, ontem.” – Ele murmura, num tom de voz um pouco mais baixo, movendo a peça branca do rei uma casa a frente. – “Eu soube que ele está um tanto ansioso para que sua bela Vera Kvitova volte para sua toca na Suécia.”

“Sabe dizer por quê?” – Pergunto, no mesmo volume.

“Parece que a polícia está atrás dele, o que é ainda mais estranho.” – Diz. – “Sendo assim, ele está se empenhando em eliminar qualquer prova viva de suas atividades obscuras. E Kvitova sabe demais, então acho que ela está em perigo.”

É bastante compreensível que ele mande Kvitova para a Suécia antes de uma queima de arquivo.
Vera Kvitova é uma assassina de aluguel famosa pela competência, e não seria muito seguro planejar sua morte enquanto ela está tão perto.
A menção da polícia faz com que minha mente dispare novos alertas com relação a Will Richomond. É obvio que eu e Liza também estamos na mira da investigação, e enquanto ele está ocupado com César, tudo vai bem, mas se por acaso ele cair...

“Houve outra coisa também, durante a madrugada.” – Edward retoma. – “Algo como um transporte, eu acho. Estava coberto e havia muita gente dele em volta, o que significa que é importante.”

“Tranporte?”

“Sim.” – Afirma. – “Ouso dizer que não era de algo, mas sim de alguém. Não faço ideia de quem seja, mas ele estava levando alguma pessoa para algum lugar.”

Jennifer.
A constatação me atinge como uma rajada.

“Sabe para onde ele levou?” – Pergunto, tentando não soar tão interessado.

“Não.” – Disse. – “Ele usou vários carros idênticos no transporte, que seguiram rotas diferentes para despistar. Não há como saber em qual dos carros estava a ‘carga’.”

O resgate, penso.
Como a troca vai ser dentre umas 15 ou 20 horas, ele tinha que levar a Jennifer de volta a Itália.
A constatação de que provavelmente a Jennifer permaneceu esse tempo inteiro em algum cômodo oculto dentro da casa de César, em Patras, me traz uma certa decepção. Talvez, se eu invadisse a casa, poderia resolver a situação muito antes que tudo isso acontecesse.

“Mais alguma coisa?” – Solto, sentindo a auto-decepção se tranformar em irritação.

“Não.”
– Diz, sem fazer caso de minha súbita mudança de tom.

Sinto o celular vibrar no bolso da calça.
Liza.

“James”
 – Ela diz, e sua voz soa anestesiada, em choque.
“Precisa vir para a Itália ainda hoje.”