Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

18 de mar de 2016

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 36

DIANA
“Deixa eu adivinhar…” – Ele começa, com sarcasmo na voz, assim que fecha a porta. – “César descobriu você e por um milagre você conseguiu escapar dele, mas não teve o mínimo amparo da Interpol, certo?”

Mantenho um olhar contrariado sobre ele por um segundo.
A casa é larga e espaçosa, mas há pouquíssimos cômodos aqui. Nada além de uma mesa e várias cadeiras. É como se ele estivesse preparado para sumir daqui sem deixar rastro o tempo todo.



“Não foi bem o César.”
  – Começo. Ele arqueia uma sobrancelha.
“Quero dizer, a essa altura ele já sabe, mas quem descobriu minha identidade foi a Kvitova.”

Arjean faz um movimento afirmativo com a cabeça, algo como “sim, agora faz sentido”.

“Kvitova.”
– Ele murmura.
“Não sei o que mais foi estúpido, ter aceitado ir para a casa do César ou ter incitado sua amante.”

“Não tenho culpa por ela não ter ido com a minha cara.” – Ralho. – “Mas isso não importa agora, preciso de sua ajuda.”

“Já disse isso antes.” – Afirma, com a voz arrastada.

Respiro fundo, quase rangendo os dentes em irritação.
Meu corpo inteiro fervilha com silenciosa energia, meus batimentos cardíacos continuam tão rápidos que posso ouvi-los e Arjean permanece encostado na parede, calmo e relaxado, como se nada estivesse acontecendo.

“Preciso de um celular.” – Solto, por fim.

“Um celular que não possa ser rastreado, suponho.”

“Sim, é claro.” – Murmuro com a voz mais baixa, tentando disfarçar meu estresse.

Ele move a cabeça em afirmação e desaparece pelo corredor.
Um minuto depois, ele volta com um aparelho miúdo, aparentando ser um pouco mais antigo que a maioria.
Sem perder mais tempo, começo a discar um número conhecido para mim.
Há duas chamadas antes do barulho exterior preceder uma voz igualmente conhecida…

“Alô?”

“Will?”

“Diana?” – Ele solta com surpresa. Pelo barulho e tom de sua voz, ele está no departamento. – “De onde está ligando? Onde arrumou esse celular?”

“Pergunta demais.” – Murmuro.

“Faz parte da profissão.” – Responde. – “Agora me responda.”

Olho para Arjean.
Ele mantém o olhar fixo em mim. Não posso dizer ao Will que consegui o celular com ele, tampouco que estou em sua casa.

“Eu fui descoberta.”
– Solto. Isso com certeza vai desviar sua atenção quanto a procedência do celular.

“O quê?!”

“Precisa me tirar da Grécia. César está atrás de mim agora.”

“Onde você está?”

“Escondida, a pelos menos umas cinco quadras da casa dele. Mande uma equipe logo. Não sei quanto tempo vou conseguir ficar aqui.”

Ouço ele sussurrar uma série de palavrões.

“Certo.” – Diz. – “Escute, mantenha o telefone com você e aguarde minha ligação. Não saia de onde está.”

A linha é desligada no instante seguinte.
Arjean permanece olhando para mim, com os braços cruzados sobre o peito e a expressão presumida.

“Então, detetive Milazzo” – Ele diz. – “Qual seu próximo passo agora?”

LIZA
Aberto o botão 4 no elevador.
Esse é o modesto prédio que a Sidney alugou faz poucos meses, depois que decidiu que continuar morando com James não era mais conveniente.
Ele precisava de uma privacidade maior em seu apartamento agora que se tornou líder Hansson, apesar de passar muito mais tempo na sede em Londres do que aqui, na Itália. A influência Hansson é muito maior no Reino Unido e países nórdicos do que na Europa Mediterrânea. Isso acaba por transformar a aliança Vaccari-Hansson em algo muito mais poderoso. Temos praticamente a Europa inteira em nossas mãos.
Essa talvez seja uma das razões pelas quais César quer o pingente.
Se minhas suspeitas quanto a correlação entre o pingente e o enigma se confirmarem, é bastante compreensível que ele queira isso. Sabe-se lá o que é esse enigma e o quão importante ele é. Com ele em mãos, é bem capaz que César tire o controle de nossas mãos num piscar de olhos.

Minhas mãos estão suadas quando a porta do elevador se abre.
Aperto a campainha da porta 320, pensando no quanto a Sidney deve se sentir desconfortável com o luxo. Ela é herdeira de uma das maiores fortunas do Oriente Médio, sua parentela tem ligações políticas e econômicas poderosíssimas por lá e mesmo assim ela prefere se esconder num pequeno prédio de classe média baixa numa rua feia do subúrbio de Nápoles.

“Liza?”
   – Ela murmura, assim que a porta é aberta. Seu rosto é o perfeito retrato da incompreensão.

Ela está vestida com uma camisa larga, surrada e grande demais para seu corpo. Seu cabelo curto, apesar de bagunçado, continua bonito.

“Posso entrar?”

“Claro.” – Diz, abrindo espaço para que eu entre.

O interior do apartamento é de uma diferença gritante ao que se vê lá fora.
A decoração inteira é em tons de branco e marrom claro, os móveis não são estravangantes, mas suficientemente bons para serem caros. Tudo é muito limpo e organizado, a decoração é elegante e o imóvel é bem iluminado.
Sidney para em frente a mim, apreensiva.

“Senta.” – Ela murmura, e eu me acomodo no sofá. Antes que ela queira me oferecer algo para comer ou beber, eu solto: – “Preciso que faça uma coisa.”

Ela não esboça a mínima reação.

“Imaginei isso.”
   – É a única coisa que diz. Ela puxa uma de suas bonitas cadeiras do tampo de vidro que compõe o balcão que anexa a sala e a cozinha, e se senta.
“Então, o que aconteceu?”

Puxo o papel dobrado do bolso e estendo para ela, em resposta.
Ela abre a folha com cuidado, examinando seu conteúdo com o cenho franzido.

“Estava no diário da minha mãe.” – Digo. – “Na última página.”

“Está em persa.”
– Ela responde, ignorando meu comentário.
“As duas primeiras palavras, pelo menos; a terceira e a quarta estão em alemão e vietnamita.”

“Quantos idiomas conhece?” – Indago, admirada.

“Alguns.” – Diz, encolhendo os ombros. – “Não sou fluente em todos eles, é claro, mas uma vez tido um certo contato, consigo reconhecer a língua.”

“Teve contato com o persa?”

“Eu gostava de Antiguidade, sim.”

“Me lembra a Raina Atias.” – Murmuro lentamente. Ela encolhe os ombros novamente.

“Eu não desgostava dela, de todo.”

“Então,” – Retomo. – “Consegue traduzir algo?”

“Só o alemão.” – Diz. – “Chave.”

“Isso já sei.”

“É uma letra do alfabeto persa na primeira palavra.” – Diz, e meu corpo tensiona pela expectativa. – “H.”

H.
Pode significar muitas coisas.

“Não entendo as outras palavras.”
– Sidney admite, e há uma nota de decepção em sua voz.

“Consegue encontrar a tradução?” – Pergunto; meu tom sai inquieto demais.

Sidney foca seu olhar em mim e arqueia uma sobrancelha, cética.

“Poderia demorar um tempo.” – Murmura. – “O que é tudo isso?”

Suspiro.
É claro que eu tenho que revelar minhas suspeitas a ela. Ela não me deixaria em paz se eu não o fizesse.

“Acho que o enigma está aí.”
– Solto, e pela primeira vez em toda a conversa, consigo capitar sua plena atenção. Completamente. A confusão, curiosidade e excitação se mesclam em sua expressão; murmuro fracamente, com uma nota de pesar:
“Sim, ele ainda existe.”