Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

15 de mar de 2016

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 35

LIZA
James deixa seu carro nas mãos de um dos homens Hansson, atravessa a rua e entra no meu.
Eu estive parada por cerca de 15 minutos, inquieta, com o carro estacionado numa rua há quase 1 km distante do Le Cordon. Na minha mente, cenas do pingente de cobre passam e repassam, e eu tento fazer uma análise com tudo o que me lembro dele.
13 anos.
Quando recebi aquele presente, jamais imaginaria que minha mãe seria assassinada dias depois; mas ela aparentava saber. Sua expressão era calma, amável como sempre, mas havia algo como contemplação em seus olhos. Como se ela tivesse que captar cada centímetro do meu rosto antes de ir.
De repente eu sinto vontade de chorar por ela, por mim, por Rachael, Will, Alex e Jennifer, mas as lágrimas simplesmente não vem, como se elas se secassem por completo.
Então, a tristeza dá lugar ao cansaço. Eu poderia mergulhar no sono e esquecer de tudo isso por algumas horas.

Mas então, o som da porta se fechando atrás de James me puxa de volta à realidade.



“Então, como foi?” – Ele pergunta. A preocupação é nítida em seu rosto.

“César não quer dinheiro.” – Solto. – “Ele quer um pingente de cobre, sem valor monetário, dado pela minha mãe quando eu era adolescente para libertar a Jennifer.”

Ele fica calado por uns instantes, como se estivesse processando a informação.
Continuo...

“Não há nada de especial nele além do valor emocional, ele é grande demais para ser delicado e pequeno demais para ser considerado como um medalhão...”

“Tem certeza?” – James interrompe. Eu o observo, confusa. – “Quero dizer, será mesmo que ele não tem nada especial? César não faz nada por fazer, e não creio que ele perderia a oportunidade de extorquir qualquer coisa de você.”

Essa então é a minha vez de processar informações.

“Liza, sua mãe não lhe disse nada sobre esse pingente?” – Ele pergunta. – “Por que ela te deu isso? Ela não deu nenhuma pista, nada que pudesse....”

“Ela me disse para guardá-lo muito bem.” – Solto. – “Disse que era mais valioso que todas as jóias que havia me dado.”

Então, antes que James esboçe alguma reação, algo se encaixa na minha mente.
Quando adolescente, acreditava que o valor no qual minha mãe se referia era puramente emocional e abstrato. Eu continuei acreditando nisso por mais de duas decadas, e permaneceria assim por outras duas se César não pedisse isso pela libertação da minha filha.
Minha memória lista uma série de eventos.
A carta do cofre sendo queimada.
A chave na clínica de Rachael.
Nora.
O enigma.
O diário.
Há um valor real e palpável nesse pingente.

“Me leve até a antiga casa da Beth.” – Solto para ele. James me encara, confuso. – “Você vai saber porque.”
__

James faz manobras para acelerar nossa viagem de Veneza a Catanzaro, contatando Hanssons e Vaccaris para conseguir um helicóptero que nos leve até lá. Já é de madrugada, e nós não conhecemos tanto a arquitetura da cidade, o que só demora nossa busca por uma pista de pouso decente. Por fim, nós nos encontramos na cobertura de um outro prédio, com um imenso H pintado no chão, esperando a aeronave pousar.
Depois de quase 20 minutos de espera, o barulho estrondoso das turbinas denuncia sua chegada. Na cabine de comando, Luigi dá uma piscadela para nós.

“Pensei que nunca mais fosse vê-la.” – Ele diz para mim, quando abrimos as portas. – “Ou pelo menos, não nessas condições.”

“As coisas mudam, Daltro.”
   – Respondo. Ele reconhece minha alusão ao seu nome verdadeiro.

“A sorte de vocês é que eu estava na cidade.” – Disse. – “Se não, teriam que esperar por mais uma hora.”

O helicóptero alça voo.
A experiência de viajar durante a madrugada num helicóptero sempre me pareceu muito prazerosa há alguns anos atrás. Essa é minha primeira vez fazendo isso, e minha falta de animação quanto a esse fato nunca fez parte dos meus planos.

Já em Catanzaro, minutos depois de viajar de carro até o recanto escondido que um dia já foi de Beth, eu estou em frente a sua casa, com as mãos na maçaneta da porta.
Lanço um olhar para trás, para James.
Há um clima de tensão no ar.

“Espere aqui.” – Murmuro.

Então minha mão empurra a porta para dentro.
Acendo as luzes da sala, caminhando direto até o escritório anexado a ela. Atrás da mesa de carvalho, na primeira gaveta, puxo algo nos fundos já familiar para mim. Em minha mão direita, o diário de minha mãe se revela, na penumbra.
Abro na última página.

 ﺡ

تیتانیوم

Schlüssel

hột nổ

Puxo a folha para fora da velha caderneta, dobrando-a 3 vezes.
Fecho a gaveta e volto a caminhar em direção a saída, a passos largos, imersa em seus pensamentos e num plano que começa a se formar.
O que antes era uma desconfiança, torna-se real, palpável.
Essas palavras, aparentemente desconexas, agora me soam muito interligadas, apesar de desconhecidas, ainda.
Essas são as pistas que me levarão até o enigma.

DIANA
Quando eu acordo na cama de solteiro, estreita, presente em todos os quartos dos empregados, a primeira coisa que avisto, surpreendentemente, é o rosto de Vera Kvitova.
Ela pintou o cabelo de preto, é o que eu noto.
Noto também sua postura despreocupada, bastante satisfeita, sentada numa cadeira qualquer no pé da minha cama. É como se ela tivesse passado a noite inteira aqui, me observando, mas em nenhum momento de sua vigília se sentisse cansada.
Sinto um calafrio.
Esse é o momento em que uma pistola debaixo do meu travesseiro se faria útil.

“Bom dia, Maria.”
  – Ela murmura, suave, frizando o “Maria”, com um toque de sarcasmo. Mau sinal.
“Ou deveria dizer, Diana Milazzo?”

Cheque-mate.
Passei dias imaginando, tendo pesadelos com esse momento, divagando sobre mil formas diferentes em que isso poderia acontecer. Porém, em nenhuma delas, eu imaginava ser recebida com um “bom dia”.
Passo um olhar pelo quarto, em busca de qualquer objeto capaz de provocar algum ferimento.

“Eu deveria parabenizá-la por ter executado seu trabalho de forma tão exemplar.” – Ela continua, sem mover um dedo. Talvez hajam capangas atrás da porta. – “Sério. Não se culpe pela descoberta, seus colegas que erraram em serem tão barulhentos.”

Mantenho meus olhos fixos nela, alerta a qualquer movimento.
Por mais que eu acredite não ter muita chance de escapar ilesa dela, muito menos nessas condições, não é como se eu fosse me entregar de mão beijada. Que eu morra dignamente, pelo menos.

“Eu não teria feito nada se César não descobrisse a operação.” – Diz. – “Se César não me acusasse.”

Então, esse é seu calo.
Por mais que Kvitova não me suportasse, ter sido maior alvo de desconfiança do que eu foi a gota d’água. É quase como se ele a tivesse trocado.
Esse é mais um daqueles momentos em que me pergunto se ela realmente sente algo sólido pelo César ou se isso é apenas orgulho ferido.

“Talvez todos aqui tenham te visto como algo tão pequeno e insignificante que não tenham te notado.”

“Menos você.”
  – Solto.
“Diga-me, Kvitova, o que te fez notar algo, como você diz, tão pequeno e insignificante como eu?”

Ela se cala e eu descubro a única chance de sair dessa. Desequilibrá-la.

“Ciúmes?” – Continuo, me aproximando dela. – “Sente ciúmes do César?”

Ela permanece calada, e eu enxergo o ódio em seu olhar.

“Você não é tão tola a ponto de se apaixonar por um homem que nunca vai sentir nada por você, é?”

Sua mão voa com a adaga na minha direção, mas ela não é tão rápida.
Agarro seu pulso com a mão esquerda, torcendo-o até que ela solte a faca, que cai com um ruído estridente no chão. Ela se levanta num movimento e seu joelho colide em meu nariz, liberando uma dor que se propaga por toda a extensão do meu rosto, me deixando tonta. Eu caio na cama, tateando meu rosto em busca de sangue. De relance, observo Kvitova descer a mão direita, com a adaga já recuperada, na minha direção; me projeto para fora da cama, agarrando a caneta pousada na cômoda. O líquido escuro e quente escorrendo pelo meu cotovelo denuncia que ela abriu um corte no meu braço.
Kvitova tenta me acertar uma segunda vez, ainda em cima da cama. Chuto a base de madeira leve, abaixo do colchão, e a cama se desloca alguns centímetros, o suficiente para que a faca caia.
Agarro a adaga, me levanto e corro em direção à porta. Com a mão na maçaneta, sinto sua mão em meu cabelo, me puxando para trás. Meu primeiro impulso é me virar e esfaquear às cegas, não sabendo em qual parte do corpo acertei.
Seu grito demonstra que acertei algo, pelo menos.
Quando ela se afasta, consigo enxergar suas mãos em seu rosto, banhadas de sangue.

Ela murmura coisas desconexas em russo, e eu finalmente consigo abrir a porta.
Sem olhar para trás, começo a correr pela escada de acesso à sala de estar, torcendo para não encontrar ninguém.
Me embrenho pela porta da cozinha, agradecendo por estar descalça e portanto, não fazendo tanto barulho. É cedo, talvez ainda de madrugada, e não há nenhum funcionário de pé. Abro a porta da lavanderia, onde máquinas de lavar e secar roupas estão devidamente organizadas. Passo um olhar pelo lugar, tentando encontrar a porta.

Há uma porta no chão desse cômodo que dá acesso a uma saída subterrânea, uma espécie de túnel feito para casos de emergência.
Uma parte do contorno da porta se sobressai, abaixo de uma das máquinas. Eu a arrasto, com dificuldade, e abro a porta num puxão.
Não tenho a mínima ideia de onde esse túnel acaba, mas essa é a única forma de fugir da mansão.
Minha memória ressuscita Arjean, e todos os seus alertas sobre isso.
Talvez eu devesse fugir com ele, afinal.
Li o endereço de seu bilhete inúmeras vezes desde que o recebi, cogitando se devia ou não aceitar sua proposta.
Consigo lembrar parcialmente o que estava escrito, e penso que apesar de tarde, esse é um bom momento para aceitar o convite.
Depois de minutos caminhando às cegas num túnel escuro, descubro que ele termina num cruzamento pouco movimentado, há cerca de duas quadras da mansão de César.
As casas aqui são escassas e muito afastadas umas das outras. Não há becos ou lugares para se esconder.
Exteriormente, o túnel daqui parece apenas um imenso tubo de esgoto.
Quase no seio do cruzamento, um telefone público se revela, com um papel colado em sua lateral. Quando me aproximo, descubro, com alívio, que é um mapa da cidade.
Procuro pela rua sinalizada por Arjean.
Uma outra onda de alívio me toma ao perceber que não é tão longe de onde estou.

“Arjean.”
  – Murmuro, assim que ele abre a porta, depois de ter caminhado por uns 20 minutos, tentando encontrar a casa correta.
“Preciso de sua ajuda.”