Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

7 de mar de 2016

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 34

JAMES
“Há quanto tempo estão seguindo Will Richmond?”
    – Pergunto a Dario Zorn, um dos mais antigos membros Hansson. Nós temos praticamente a mesma idade, eu vi algumas vezes durante a infância, mas nunca nos tratamos com maior familiaridade.

Eu fazia parte da elite Hansson, enquanto ele era só mais um dos vários homens que meu tio tinha, apesar de ser muito bom em mil situações diferentes.
Ele é de confiança, entretanto. Por isso mesmo que eu o escolhi para isso.

“Cerca de duas semanas, senhor.” – Responde. Ser chamado de senhor é um pouco incômodo para mim, mesmo depois de todo esse tempo. – “Ele não desconfia de nada, claro. Acha que os Hansson são um problema superado há muito tempo.”

“Bom.” – Afirmo, fazendo um sinal aprovador com a cabeça. Apoio os braços sobre a mesa.– “Então, veio aqui para me dizer algo?”

Empurro Liza e suas instruções quanto ao encontro com César para um canto da minha memória. O endereço do encontro foi revelado para alguns de nós, um grupo escolhido e pré-estabelecido por ela para intervir caso as coisas não saiam como o esperado.
Há todo um esforço para que ela não saiba sobre o Will e sobre o fato de que estou monitorando cada passo dele. Por enquanto, é melhor que ela fique fora disso. Há problemas mais urgentes com o que ela se preocupar.

“Sim.” – Diz Zorn. – “Um dos agentes que fazem parte da operação que Richmond comanda foi assassinado por César Vaccari hoje pela manhã. Os homens me enviaram fotos do interior da casa e uma coisa me chamou atenção...”

Ele me passa um tablet branco, que estampa uma foto em tela cheia.
Os dedos de Zorn dão zoom num ponto em especial da fotografia e eu começo a entender.
Uma mulher com colete azul conversa com Richmond e uma outra agente da operação próxima à porta da casa. Ela é alta, esguia, com um cabelo preto escorrido, de tamanho médio, e olhos castanhos.
A imagem de Sidney naquele pub, meses atrás, volta a minha mente, soando como uma memória ainda mais antiga do que realmente é.
Há uma semelhança assombrosa entre as fotos me mostradas por ela, e a foto que vejo agora.
Substituo certas características por outras, como o cabelo e a cor dos olhos.
Olho para Zorn, alarmado.

“Quem é essa mulher?” – Pergunto, apesar da resposta ser previsível.

Se passar por legista para conseguir informações.
Difícil dizer se essa ideia faz mais o feitio dela ou de César.

“Acredito que essa mulher é Vera Kvitova, senhor.”

Começo a me perguntar quantas informações ela extraiu disso.
E qual o nível de estrago que elas podem causar.

LIZA
Desligo o carro no estacionamento privado do restaurante.
O Le Cordon tem uma aparência que se assemelha muito mais a um hotel cinco estrelas, com vários andares compondo um prédio imponente.
Deixo escapar um lento suspiro.
O grupo que montei para fazer minha segurança tem seus membros espalhados dentro e fora do restaurante, na cobertura de prédios adjacentes a esse. Independente do que César quiser e pedir pelo resgate da Jennifer, com certeza não é nada fácil ou barato de se conseguir.
Minha mente viaja com imagens de quando vi César pela primeira e única vez, naquela cafeteria com a Nora Lefebvre, anos atrás. Ele tem um estilo de liderança completamente diferente da Beth, agindo às escuras, evitando a exposição.
Essa constatação, é claro, só confirma o fato de que esse jantar não será nada convencional, para nenhum dos dois.
Beth e César mantinham uma ‘’relação’’ torta, confusa, e era notável que Beth o conhecia profundamente. É estranho supor que alguém tenha conseguido enxergar a pessoa atrás de toda essa capa de sujeira e sadismo, mas Beth soava como se houvesse conseguido tal feito. Ela o odiava, mas de uma forma diferente. Era um ódio racional, pensado e dosado, de alguém que sabe a raiz de todas as suas motivações.
Era como se ela não o perdoasse, mas o entendesse.

Há uma adaga escondida e oculta em meu vestido, presa num suporte que envolve a parte superior da minha coxa direita. O vestido, cinza- claro, de comprimento até os joelhos, tem uma longa fenda que apesar de manter o suporte oculto, facilita minha chegada até ele, caso seja necessário.
Em teoria, nós estamos sozinhos e desarmados, num acordo temporário de paz. Na prática, há homens meus e de César espalhados por todos os arredores do local, prontos para agir e fazer um belo estrago num único movimento suspeito.
Sinto como se eu estivesse num campo minado.

Um homem me espera na entrada do saguão, me escoltando por andares e andares acima. O visual exterior do prédio é futurístico, transparente, como se ele inteiro fosse feito de vidro.
Eu fico a sós com ele no elevador, prestando atenção a cada movimento seu. Quando as portas se abrem pela última vez, estamos no lindo telhado do prédio, com uma única mesa no canto, onde César – vestido impecavelmente, me aguarda com um sorriso torto.

“Obrigado.”
 – César murmura para o homem que me escoltou, e ele vai embora.

“Achei que não haveriam homens seus dentro do saguão.” – Solto.

“E não há.”
– Diz.
“Esse homem é apenas um simples funcionário do restaurante.”

Fico em silêncio.
Ele me fita por alguns segundos, estende a mão para mim e diz...

“Permita-me que eu a acompanhe até a mesa.”

Passo um olhar pouco amigável entre sua mão e seu rosto.
Então, ao invés de entrar na encenação e ceder minha mão a ele, eu passo direto, sozinha, até a mesa, tentando manter o máximo de distância dele, mas podendo ouvir sua risada abafada.

“O orgulho é definitivamente uma marca desse clã.”
    – É o que ele diz, sentando-se à minha frente.

“Fala como se não fosse um Vaccari.”

“E não sou.” – Responde. Então um garçom se aproxima e ele murmura:  – “Vinho, por favor.”

O garçom se afasta e ele volta seu olhar para mim.

“Geneticamente eu sou um Vaccari, é claro.” – Continua. – “Entretanto, já me habituei ao posto de ovelha negra da família por não partilhar das mesmas características psicológicas do resto de vocês.”

“Estava analisando a psicologia de nossa família enquanto sequestrava a Jennifer?”

“Ah, sim, claro.” – Afirma. – “E permita-me substituir a palavra ‘’sequestro’’ por ‘’rapto’’; soa mais bonita. E quanto a sua filha, sim, ela é uma legítima Vaccari. Orgulhosa, egoísta e hipócrita, como todos vocês.”

“Quanta gratidão em ter nascido Vaccari...” – Comento, ácida.

“Você se sente grata por ser Vaccari?”

“Meu caso é outro.” – Digo. – “Você não perdeu os pais na adolescência por terem sido assassinados por membros de sua própria família.”

Ele ri.
Uma risada gélida e sussurrante, depreciativa, como se acabasse de ouvir uma falácia.

“Não me conhece tão bem quanto pensa, Liza.”

“Além do mais” – Digo, sem me importar com a presença do garçom enchendo as taças. – “Você parece aproveitar bastante as vantagens de seu sobrenome.”

Ele se cala.
Um silêncio profundo e incômodo se instala enquanto ele me fita, bebericando o líquido escuro de sua taça. O vento faz um ruído suave, porém estridente, enquanto circula pelo telhado.

“Disse que me daria seu preço pela Jennifer.” – Digo. – “Então, sou toda ouvidos.”

“Ainda nem jantei.” – Murmura. – “Prefiro apreciar um pouco a vista.”

“Não vim aqui para fingir um encontro casual com você, César.”
   – Solto.

Ele pousa suavemente a taça na mesa.

“Pois bem.”
   – Solta. Sua expressão assume o tom de ‘’negócios’’.
“Sei que sua mãe lhe deu uma caixa de jóias de presente em seu aniversário de 13 anos, certo?”

“Certo.” – Afirmo, cética.

“Há um pingente de cobre nessa caixa, um pouco maior que um pingente comum, em formato de quebra-cabeça.” – Continua.

“Sim, mas o que...”

“Eu quero esse pingente.”
  – Interrompe.
“Esse é meu preço pela Jennifer.”

“Por que?”

“Meus clientes nunca questionaram meus valores.” – Comenta, ácido.

“Não sou sua cliente.” – Rebato.

“Neste momento, é sim.” – Retruca. – “A troca vai acontecer depois de amanhã, às 5h, nesse endereço.”

Ele me passa um cartão pela mesa. Eu o agarro e observo a descrição escrita com tinta preta.
Fico imóvel, boquiaberta, tentando entender o que ele acabou de me dizer.

“Não queria seu preço, Liza? Aí está.”
   – Diz.
“Não quero mais tomar o seu tempo.”

Seu olhar se volta para a vista de praticamente toda Veneza, no telhado. Eu continuo o observando, incapaz de me mover, até me dar conta de que seja lá o que isso significa, não vou conseguir descobrir permanecendo sentada aqui.
Eu me levanto e começo a caminhar a passos largos até o elevador, sem olhar para trás. Dessa vez, não há funcionários ou capangas para me escoltar até meu carro.
Acendo o visor do celular, discando o primeiro número da minha lista.

“James.” – Digo, assim que ele atende. – “Preciso falar com você. Pessoalmente.”