Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

6 de mar de 2016

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 33

WILL
O celular está tão próximo a mim que consigo sentir sua vibração quando ele toca.
Eu não sei em qual momento da noite entre meus cigarros e uma garrafa de vodca aberta que vim parar na minha cama, mas eu me encontro deitado nela, com minhas roupas de ontem, me sentindo sujo e dolorido quando atendo a ligação.

“Richmond.” – A voz de Saxe chega aos meus ouvidos.

Francamente...
Esse é o momento mais inoportuno para ter uma conversa com ela.

“O que foi?” – Minha voz sai absurdamente rouca e contrariada.

Sinto minha cabeça pesar.
Devo ter bebido muito e dormido pouco.

“Zorzoli.” – Diz. – “Precisa vir na casa dele. Agora.”

“Por que?”

Afundo meu tronco erguido nos travesseiros, minha cabeça pendendo no colchão.
Por mais que meu corpo implore por um banho, me parece uma tarefa impossível levantar da cama.



A imagem da Liza volta à minha mente.
Ela parecia triste, e eu enxergava a culpa em seus olhos. Ela acha que o motivo do meu afastamento é ela e o que ela fez com a máfia, quando na verdade o motivo sou eu.
Vou ter que caçá-la, e Deus sabe que é bem melhor fazer isso mantendo-a distante do que com ela por perto.

“Porque ele foi assassinado.”
    – Madalina diz e eu volto a erguer o corpo numa rapidez tão grande que fico tonto. Ela completa:
“Esteja aqui em 20 minutos.”

Antes que eu proteste, ela desliga.
Sussurro um palavrão e levanto, largando o celular na cama e entrando no banheiro.
Como se já não fosse ruim o suficiente ter a filha sequestrada, o filho morto e o casamento desfeito, meu colega de trabalho também acaba de entrar para a lista de finados.
Esse é mesmo um dia maravilhoso.
___

Quando estaciono o carro no canto de uma rua repleta de casas, a primeira coisa que noto é a porta escancarada da casa de Gian.
Lá dentro, Madalina passeia entre o caos.
Vasos e taças quebradas, uma garrafa de vinho despedaçada com líquido escorrendo por todos os lados; e sangue.
O sangue talvez seja a coisa mais abundante aqui.
   O corpo de Gian está no chão, com uma poça de sangue sobre sua cabeça e pelo menos três marcas de bala entre sua nuca e a parte inferior de seu crânio; mas o pior é sua mulher. Seu corpo está sentado no sofá ensanguentado, com tantos tiros num lugar só que sua barriga foi aberta, com boa parte de seus orgãos internos expostos.
César.
Ele deve saber que estamos envolvidos na morte de Cavendish.

“Já chamei as viaturas, mas até agora nada.”
   – Saxe diz enquanto inspeciona o outro lado da sala, quase dando para a cozinha.
“Acredito que esteja pensando a mesma coisa que eu quanto a isso.”

“César Vaccari.”
  – Solto. Ela concorda com a cabeça.

“Ele sabe que estamos no pé dele.” – Diz. – “Resta saber o quanto ele descobriu sobre nós.”

“O suficiente para que Diana esteja em perigo.” – Murmuro. – “Vou tirá-la de lá. Essa missão acaba aqui.”

Saxe fixa o olhar em mim de repente, sua sobrancelha arqueada.
Por sorte, o som de várias sirenes juntas denuncia a chegada das viaturas e impede que ela retruque meu comentário.
    Em poucos minutos, a casa inteira é tomada por uma série de policiais de olhos e movimentos rápidos, inspecionando toda a extensão dos cômodos. Todos aqui estão com coletes à prova de balas, mas alguns coletes de tom azul escuro se sobressaem, indicando os profissionais da perícia técnica. Um dos policiais vem a nós, me lança um cumprimento de cabeça e pergunta, com a atenção dividida entre mim e Saxe:

“Qual o caso?”

“Assassinato.”
 – Madalina responde.
“Em média de três a quatro homens.Várias capsulas de AK-47 foram achadas na casa.”

“Levaram alguma coisa?”

“Não.” – Afirma. – “Pelo visto só quebraram tudo.”

“Pode ter ligação com os investigados?”
    – O policial pergunta, seu olhar direto em mim agora. Com “investigados”, ele quer dizer César Vaccari.

“Bem provável.” – Digo. Ele faz um movimento afirmativo com a cabeça e vai embora.

Franzo o cenho ao observar a bagunça.
A imagem de Zorzoli comunicando a recém-descoberta gestação de dois meses de sua esposa, Caroline, há pouco mais de uma semana, repassa em minha mente toda vez que olho para seu corpo.
Não é preciso provas. É só observar a forma como sua mulher foi morta e como seu corpo foi posto para saber que isso foi feito pelo César. Tem a assinatura dele aqui.

“Como ficou sabendo?”
   – Pergunto para Saxe. Ela me encara com certa surpresa, como se fosse um milagre que eu tivesse notado sua presença.
Passo um olhar pelo cômodo e ela leva um segundo para entender.

“Minha casa é a duas quadras daqui.” – Diz. – “Tenho que passar por essa rua para ir ao departamento. Eu vi a porta arrombada e achei que algo estava errado.”

Desloco meu olhar novamente para o sofá.
Uma mulher morena, de cabelo escorrido e postura esguia inspeciona o corpo de Caroline, identificada pelo colete azul. Ela se volta para a nossa direção e então caminha até nós.
Há algo de distante e familiar nela ao mesmo tempo.

“Jane Baricelli, da perícia.”
  – Ela estende a mão para mim e eu a aperto. Madalina faz o mesmo.
“A moça, Caroline Zorzoli, não é?” – Pergunta. Confirmamos com a cabeça. – “Então, ela tinha alguma ligação com a operação?”

“Não.” – Digo. – “Mas não é muito difícil supor que se alguém quer se vingar de outra pessoa, vai atingir todos os que lhe forem próximos.”

“Quem queria se vingar de Gian Zorzoli?”

Solto uma risada ácida.

“Não sei se percebeu, mas ele era membro de uma operação de captura dos chefes de uma das mais antigas máfias da Europa.” – Digo. – “Sendo assim, é realmente necessário que eu responda essa pergunta?”

Ela faz uma pausa, olhando fixamente para mim.
Então seu olhar vai para Saxe, mas não permanece lá por muito tempo.

“Quem fez a denúncia?” – Pergunta.

“Eu.” – Madalina responde.

“É policial também?”

“Sou da Interpol.”

“Então, moça...”
– Ela começa, frizando a palavra ‘’moça’’. Arqueio uma sobrancelha.

“Agente Saxe, por favor.” – Madalina interrompe.

“Então, Agente Saxe...” – Ela se corrige. – “Pode descrever a cena quando entrou aqui?”

“A porta estava aberta.” – Começa. – “Gian estava no chão, na posição em que se encontra, a mulher dele também. A casa estava vazia. É só isso.”

“Podem me acompanhar um instante?”

Ela faz sinal e nós a seguimos.
Saxe faz uma careta de irritação.

“Essa porta está com defeito.” – Ela diz, de frente para a entrada da casa. – “Ela arranha o chão quando está sendo puxada para dentro, mas nem sequer toca nele quando é empurrada para fora.”

A perita faz uma pausa.
Não faço ideia de onde ela quer chegar.

“A poça de sangue na entrada foi formada minutos depois do assassinato, quando os suspeitos já deveriam ter ido embora.” – Continua. – “Entretanto, a poça marca o movimento de abertura da porta, para dentro, o que significa que havia uma terceira pessoa na casa.”

Olho para o chão.
É uma marca feia, falhada, porém nítida. A perita olha para Saxe.

“Coletei digitais na fechadura e mandei imediatamente para um leitor eletrônico.” – Diz. – “Acabei de receber o resultado, e as digitais pertencem à agente Saxe. Então, vou perguntar mais uma vez, pode descrever a cena quando entrou aqui?”

Olho para Saxe.
Ela mantém o maxilar travado, com o olhar cravado na perita.

“Vim até a casa de Zorzoli sob ordens da Interpol.” – Afirma.

“Então por que escondeu isso?”

“Porque meus superiores exigiram discrição.” – Solta. – “Se quiser, pode esclarecer isso com eles.”

“O número de telefone.” – Baricelli sibila. – “É só isso o que eu quero.”

Saxe entrega um cartão nas mãos da perita, que passa um último olhar sobre nós e se afasta.
Ótimo, mais coisas sendo escondidas de mim.

“Então quer dizer que estava aqui para ver tudo isso...”
    – Murmuro, tentando controlar minha irritação.

“Eu não vi nada.” – Diz. – “Quando soube que estavam aqui, me escondi num dos quartos. Se me vissem, eu estaria morta também.”

“Quem te mandou vir aqui?” – Lanço. – “Mogherini?!”

“Sim.”

“Por que?!”

“Não posso falar.” – Afirma. – “Olha, Will, não me envolva em mais problemas. Se quiser saber, pergunte diretamente a ele.”

Ela estava dando meia volta, pronta para se afastar também.
Sussurrei, pondo toda a acidez em minha voz....

“Depois não quer ser chamada de fantoche.”

Ela volta a me encarar, tão irritada que seu rosto começa a tingir-se de um leve tom de vermelho...

“Se obedecer ordens de seu superior é ser fantoche, você não pode falar de mim, pois também é.”
   – Solta.
“Todos nós somos.”

DIANA
Hector mantém os braços pousados sobre a mesa da cafeteria, observando meu falatório com o cenho franzido.
Não sei há quanto tempo estou falando, e eu tento não me remexer na cadeira, inquieta, e manter minha voz calma e controlada.

“Diana.” – Ele se inclina para mim, escolhendo as palavras. – “Eu sei que o momento é delicado, mas não pode comprometer a operação dessa forma.”

Ele fala como um legítimo membro da Interpol.
Tranquilo, equilibrado e racional, tentando impor sua argumentação como se aquela fosse a única alternativa sensata.

“Você não está entendendo, a operação já está comprometida.”
    – Digo, tentando não me irritar com seu tom de voz.
“É uma questão de tempo até que me descubram.”

“Abandonar a missão é quebra de protocolo.” – Ele diz. – “Se fizer isso, vão entrar com um processo contra você e você pode perder o distintivo e até ser presa.”

“Por isso estou aqui com você.” – Afirmo. – “Você não é o cara que passa os meus recados para o comando? Então, diga a eles que quero a ordem de resgate.”

Ele solta um longo suspiro.

“Vou fazer o possível.” – Diz. Ainda mantenho o ceticismo no meu rosto. – “É sério. Farei tudo o que estiver ao meu alcance.”

Faço um sinal com a cabeça em aprovação.
Hector encosta as costas na cadeira, quase aliviado.
Quase.

“É verdade que Will matou Cavendish?”
   – Pergunto. A resposta é obvia, mas mesmo assim, ainda preciso de uma confirmação.

Ele volta a se inclinar na minha direção.

“É.”
– Responde, com a voz mais baixa.
“Esse é outro assunto delicado. Ouvi dizer que Miranda Safroncik ordenou que a Interpol e a própria polícia italiana ficassem fora disso, o que significa que não vai haver nenhuma punição para ele. Mesmo assim, não é algo para se ficar comentando.”

“Entendo.” – Murmuro. Meu olhar voa para a janela.

Will quebrou o protocolo torturando e assassinando um suspeito.
A atitude de Safroncik não tem nada a ver com qualquer instinto de proteção ou afeição por ele, mas tem a ver com prudência. Uma sansão disciplinar já chamaria atenção da imprensa, mas a prisão de um membro importante da investigação seria um escândalo. A notícia do corpo de Cavendish iria vazar e todos os jornais pipocariam de rumores sobre casos obscuros de torturas e assassinatos dentro da polícia.
Quando me dou conta, percebo que o olhar de Hector permanecem em mim por minutos.

“Você não está satisfeita, não é?” – Ele pergunta, notando minha preocupação.

“Não.” – Digo. – “César já sabe que tem alguém fornecendo informações confidenciais para a Interpol e Kvitova já sabe que sou eu.”

“O quê?!” – Ele exclama, alarmado.

“Ela não tem provas.” – Solto. – “E César não acredita nela. Por mais que ele desconfie mais dela do que de mim, não significa que ele está de olhos fechados. Seus capangas me seguem o tempo todo, nem sei se estar conversando com você é prudente.”

“Ainda assim, ele está subestimando você.”

“É, mas isso não vai durar por muito tempo.”

Ele se cala.
Respiro lentamente, pondo os pensamentos em ordem. Tive o infortúnio de cruzar com Kvitova mais cedo, quando eu estava saindo. Ela não me disse nada, mas em seus olhos enxerguei uma perigosa determinação. Ela não vai descansar até provar para o César que a ameaça sou eu.

“Vou ao banheiro.”

Solto rapidamente antes de me levantar.
Caminho a passos rápidos em direção ao banheiro, tentando encontrar uma forma alternativa de acelerar meu resgate. Não sei se vou sobreviver a mais uma semana lá.
Minha mente viaja novamente para Will.
Não vai demorar nada até que a ordem de prisão contra o César seja expedida.
E se a prisão do César está próxima, a da Liza também está.

“Diana.”
  – A voz de Arjean me faz levantar os olhos num sobressalto. Sem perceber, eu estava com as costas encostadas na porta de um dos reservados, quase agachada, envolta demais em meus problemas para notar sua chegada.

Meu olhar voa para a porta do banheiro. Trancada.

“Tem capangas do César me seguindo e você decide que é uma boa hora para vir atrás de mim?” – Lanço. – “Arjean, você não tem um pingo de bom senso?!”

“Não vão expedir uma ordem de resgate.” – Ele afirma.

“Estava ouvindo minha conversa?”

“Estava.” – Diz. – “Sei que aquele cara é da Interpol e que você está quase implorando para que te tirem da casa do César. Me sinto no dever de informar que isso não vai acontecer. A Interpol está ocupada demais para fazer isso.”

Solto uma risada debochada. Tento, porque ela sai tão fraca e sem graça que não tem efeito algum.

“E quem vai fazer isso? Você?”
“Sim.”

“Arjean, por favor...”

“Você sabe que vai morrer se não sair de lá.” – Murmura.

“E desde quando você se importa?!” – Vocifero.

“Desde sempre.” – Responde, avançando na minha direção. – “Eu não estaria aqui se não me importasse. Não invadiria sua casa para te avisar do risco que estava correndo aceitando essa operação se não me importasse. Sabe disso. Você sabe quando eu estou mentindo, mas também sabe quando estou falando a verdade.”

“Isso não interessa agora.” – Desvio. – “Se eu abandonar a operação vai ser quebra de protocolo e...”

Minha voz morre lenta e gradativamente, até desaparecer por completo.
Ele se aproxima demais, a ponto de que eu possa ouvir sua respiração e sentir o calor que erradia de seu corpo.
Eu sei o que ele vai fazer, e por mais que uma parte escondida e trancada de mim queira isso, não posso permitir que aconteça.

“Saia.”
– Sibilo, ríspida o suficiente para pará-lo.

Faço um movimento para me afastar dele, mas ele agarra meu braço com a mão esquerda. Com a direita, deposita um papel amassado na minha mão.

“Se mudar de ideia” – Começa, com os olhos muito fixos e expressivos em mim. – “Sabe onde me encontrar.”