Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

18 de fev de 2016

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 32

JAMES
Franzo o cenho ao ver o corpo de Liza despencar-se na cadeira.
Ela mantém a mão na boca e as lágrimas escorrem de seus olhos, enquanto seus olhos permanecem vidrados na tela. No vídeo, Jennifer, vários quilos mais magra, caminha sobre uma trilha de cacos de vidro. Ela está fraca – como alguém que não come há dias –, exausta, caminhando com dificuldade, e a câmera fecha em seu rosto toda vez que ela esboça uma reação de dor.  
No final da trilha, seus pés estão ensanguentados, cheios de feridas abertas e ela mal se aguenta em pé. O tom de voz de César, de um escárnio sádico, é o plano de fundo da imagem em que o corpo de Alex, filho de Rachael, jaz pendurado pelo pescoço, a faixa de corda suja de sangue pressionada sobre o mesmo corte exato em que o marido de Raina Atias foi assassinado.



Por pior que possa soar, Liza implorou por isso.
O incêndio na mansão de César foi um ato de precipitava revolta, tolerável, no qual todos, inclusive ele, estavam dispostos a deixar passar batido. Porém, assassinar Atias tão abertamente no Cairo para logo em seguida passar por cima e firmar acordo com os fornecedores de armas de César foi declarar guerra. Lavou a alma de todos nós, é claro, mas foi loucura.
E ainda há Will, a Interpol e todo o resto atrás de nós.

Ela olha para mim, desolada, quando o vídeo acaba.

“É tudo minha culpa.”
 – Ela sussurra. Então ela desvia de mim e se levanta, como se necessitasse processar a informação.
“O que foi que eu fiz, fo…”

Meus braços envolvem seu corpo magro e trêmulo e ela retribui o abraço, afundando seu rosto na curvatura do meu pescoço. Por mais graves que tenham sido as coisas que Liza fez durante toda a sua vida, seus motivos foram puros. Yuval viu a compaixão em seus olhos quando Raina pediu para que ela não matasse sua filha de 5 anos, Dalya. Ela prometeu secretamente que não a mataria, nem deixaria que a matassem e cumpriu. Ela não é como César.
Sua única desgraça foi ter nascido na família errada.

“Ele usa a Jennifer pra me punir, James...” – Ela diz, entre soluços. – “Não vai parar. Enquanto ela estiver lá, ele vai continuar descontando nela tudo o que eu fizer...”

Minha mente viaja até o corpo pendurado de Alex.
Foi um choque para todos nós descobrir no que ele se transformou, mas vê-lo daquela forma, como se sua vida não valesse absolutamente nada, é francamente desagradável. Para não dizer horrível.
A imagem de Rachael morrendo dentro daquele carro não para de se repetir na minha cabeça.

“Eu tenho que fazer alguma coisa.”
 – Liza diz, afastando-se de mim. Ela caminha em direção à saída e eu penso em segui-la, só para impedir que faça mais uma besteira, quando o celular toca.

Ela o põe no viva-voz, segundos depois de atendê-lo.
A voz de César Vaccari preenche o silêncio da sala.

“Imagino que já deve ter visto o vídeo.” – Ele diz, calmo, estável, relaxadamente. – “Uma boa tarde para você também, James.”

Nós nos entreolhamos.
Ele sabe que Liza está na sede Hansson. E se está aqui, obviamente está comigo.

“O que você quer?” – Ela diz, tentando parecer sob controle, e sua voz sai rouca pelo choro.

“Imagino que queira sua filha de volta.” – Ele diz. – “O que pode ser o princípio de uma negociação.”

Nós permanecemos em silêncio.

“Eu vou estar em Veneza amanhã à noite.”
  – Solta.
“Naquele restaurante, Le Cordon, sei que você conhece. Não vou estar armado, nem vou levar os meus colegas, ou como costuma chamar, 'capangas'. Não vai haver confronto. Estarei lá para conversar civilizadamente. Se quiser saber meu preço, é às 20hrs, em ponto. Sabe que não gosto de atrasos.”

Olho para Liza, apreensivo.
A linha é desligada no instante seguinte.

LIZA
A luz fraca da chama é a única coisa nitidamente visível em toda a casa.
Numa das cadeiras da cozinha, Will usa o esqueiro para acender um dos vários cigarros que ele já fumou até agora. Sobre a mesa de mogno, cinzas e tocos de cigarro se espalham, próximos a um pequeno recipiente de metal.
Ele não olha para mim quando fecho a porta.
Seu rosto está firmemente voltado para a janela aberta, observando algum ponto insignificante no horizonte enquanto eu puxo um dos bancos, me pondo bem de frente para ele.
Sua expressão é dura, e eu sei que ele está chateado comigo. Faço uma anotação mental de não retrucar a qualquer queixa dele, já que eu sou a parte errada nessa discussão.
Nossa filha foi sequestrada há dias e eu nem sequer perguntei por ele.
Deveria ser o momento em que nós dois nos uniríamos, mas a sensação que tenho é que estamos seguindo por caminhos completamente opostos, nos afastando a cada passo.
James estava certo quando disse que eu deveria, pelo menos, ligar para ele. A questão é que eu estava tão focada no César que não pude lhe dar ouvidos.

“O que você sabe até agora?”
  – É o que eu pergunto. Minha voz soa muito grave, forçada e fora de lugar em meio a todo esse silêncio.

“Meu filho foi responsável pelo sequestro da minha filha.”
   – Ele diz, e sua voz sai rouca.
 “Engraçado, não é?”

Permaneço calada.
Ele dá uma longa tragada antes de falar…

“Quando Alex nasceu, prometi para mim mesmo que o manteria fora disso.”
   – Continua.
“Fiz a mesma coisa quando você ficou grávida da Jennifer. Essa era a minha obrigação, fazer com que os dois tivessem uma vida normal e segura, que deixassem para trás todos os lados negativos de seus sobrenomes e vivessem em paz, só que depois, quando eu deveria por tudo em prática, eu permiti que o Alex fosse pego e...”

“Will.”
  – Interrompo. Minha mão agarra seu braço com força.
“Você não tem culpa pelo que aconteceu.”

“Eu tenho e você sabe.” – Ele rebate. – “Posso não levar toda a culpa, mas eu tenho uma parte nisso. Ele tinha oito anos e eu sabia qual a situação em que nós estávamos. Foi uma irresponsabilidade minha deixar uma criança sozinha num corredor de hospital quando havia um César solto por aí!”

De repente eu fico muito quieta, estática, observando a explosão de emoções na qual ele se transforma, pensando que qualquer coisa que eu diga para tentar confortá-lo agora vai soar muito estúpido. Ou artificial.

“A Jennifer tinha contato com ele há dois meses, foi o que eu descobri.”
  – Ele continua.
“Dois meses e eu nem sequer desconfiei. Seria tão fácil ver que algo tinha mudado, ela é tão transparente, mas eu não prestei atenção para enxergar isso. Minha filha cresceu debaixo dos meus olhos e eu não lhe dei atenção. Tanta coisa poderia ter sido evitada...”

Sua voz morre, então.
Pisco várias vezes para dispersar as lágrimas que surgem nos meus olhos, mas elas teimam em surgir, ofuscando minha visão.
A constatação de que Will está certo só demonstra o quanto eu estive cega durante todos esses anos. Eu, que acreditava ser uma mãe tão presente, passei tanto tempo com a Jennifer sem enxergá-la direito. Não foi só ele que não lhe deu atenção. Eu também falhei nesse ponto.

“Nós falhamos.”
   – Digo.

Então penso que não posso mais esconder.
Seria injusto com ele fazer isso.

“Eu voltei.” – Solto, num tom de voz quase inaudível. Suspiro, tomando coragem para dizer mais alto... – “Voltei para a máfia.”

Segue-se um longo silêncio.
Então, quando penso que ele não dirá mais nada, ouço sua voz, mais calma do que jamais teria imaginado...

“Eu já sabia.”
   – Então seu olhar se fixa em mim quando acrescenta:
“Mas é reconfortante ouvir você confessar.”

“Não está chateado?”

“Estou.”
  – Declara.
“Mas quem sou eu para julgá-la, não é?”

Então ele acende outro cigarro e volta seu olhar para a janela.
Uma horrível sensação de impotência toma conta de mim. Eu pensei que esse seria o momento em que traríamos nossos problemas à tona e resolveríamos nossas pendências juntos. Faríamos as pazes. Voltaríamos a ser um casal.
Entretanto, ao ver a forma como ele apaga suas emoções do rosto percebo que essa é última vez em que ele vai se abrir comigo. Will se foi. O que está na minha frente é uma versão trancada de si mesmo.
E eu não posso viver com alguém que se mantenha fechado para mim.

“Eu vou embora.”
   – Sussurro, mas ele não esboça nenhuma reação.

Mesmo quando abro a porta e lanço meu último olhar em sua direção, ele não diz nada. Nem sequer olha para mim.
Suspiro e avanço, deixando uma casa e uma década de casamento para trás. Disposta a não pensar nisso, a não lamentar essas perdas.
Preciso estar dura e implacável para César amanhã.