Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

18 de fev de 2016

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 31

WILL
Madalina caminha mantendo uma distância de dois passos de mim enquanto nós entramos no departamento.
As pessoas andam de um lado para o outro nesse setor, tão focadas em seus afazeres que nem notam nossa presença. Olho de soslaio e vejo suas mãos apertarem o relatório que encontramos na casa de Cavendish, a prova mais concreta até o momento das atividades do César.
Não vai demorar muito para que a Diana seja resgatada agora.

O relatório é rico em detalhes e somado às evidências já colhidas por ela própria, é suficiente para abrir um inquérito suficientemente sólido para o por na cadeira e levá-lo à condenação.
Por essa razão, não fico tão incomodado quando Craven caminha na nossa direção, obviamente para nos dar algum comunicado.

“Richmond.”
– Ele diz quando está suficientemente próximo. Seu tom é duro, entretanto.
“Mogherini te quer na reunião, agora. Safroncik também está aqui.”

Olho diretamente para Saxe.
Ela sustenta o olhar em mim por segundos, passa para Craven e depois diz...

“Tenho que entregar esses documentos.”

Então ela dá meia volta e vai embora.

“Aconteceu alguma coisa?” – Pergunto, com o olhar de volta para ele.

“Você vai saber.”

O fato de Miranda estar aqui é no mínimo alarmante.
Não há motivo para ela estar aqui, a menos que tenha acontecido algo importante. Realmente importante.
A desconfiança de que algo grave aconteceu se transforma em certeza quando atravesso a sala.
Minha atenção vai para Bragatti, sentado numa das cadeiras da enorme mesa em u, passando as mãos na barba com o rosto carregado de preocupação. Ele olha para mim, apreensivo, e então eu enxergo os olhos.
Mogherini, que caminhava de um lado para o outro, para ao me ver, transpirando irritação.
Miranda é a única que parece estar em algum nível de calma.
Como sempre.

“Pensei que estariam felizes, a operação foi um sucesso.” – Digo.

Mogherini solta uma risada depreciativa.
Safroncik e Bragatti permanecem imóveis.

“Posso saber o que aconteceu?” – Solto.

“Por que não nos diz você, Richmond?!” – Mogherini explode.

“Perdão?”

“Você quebrou o acordo!” – Vocifera. – “Tem noção do que isso significa?!”

Miranda nota minha expressão confusa.

“Mogherini.” – Ralha. – “Controle-se.”

Ele respira fundo.

“Quando foi a última vez que viu sua esposa?”
   – Pergunta.

Paro para refletir a pergunta, me dando conta do quanto nos mantemos afastados.
Me afastei porque não conseguiria guardar segredos dela por muito tempo, e não podia contar o acordo que tinha tratado com a Interpol.
Mas e depois?
Já não faço mais a mínima ideia de onde ela está agora.

Mogherini percebe meu silêncio e estala a língua em desgosto.

“Viu? Eu disse, ele permitiu isso.” – Solta.

“Permiti o quê?!”
    – Lanço, irritado.

“Sua mulher voltar para a máfia.”

Por alguma razão, meu olhar vai para Bragatti.
Por maior que seja o impacto da informação, não me sinto surpreendido.
Há uma raiva fria, escondida e trancada dentro de mim que ameaça escapar. Isso não é uma descoberta, é uma confirmação.

“Eu pensei em te avisar, mas estávamos no meio da operação.”
 – Bragatti solta, como se pudesse ler meus pensamentos.
“Me ligaram para dizer, pediram para te mandar voltar, mas eu disse que você não podia.”

Meu olhar vai para Safroncik.

“Você sabe que o acordo de proteção à sua família foi quebrado, não sabe?”
– Diz.
“Não podemos mais protegê-los agora. Liza passou a ser procurada pela polícia, assim como o César.”

“A proteção de vocês.” – Lanço, minha voz carregada de escárnio. – “Tenho certeza que vamos sentir muita falta dela.”

Ela parece contrariada. Ótimo. Ao inferno isso de fazê-la sentir-se no controle.

Meu comentário cria um silêncio incômodo no local.
Me sinto enojado.

“Se não há mais objeções, eu vou embora.” – Solto.

Minha mão já está na maçaneta.

“Sabe que vai ter que caçá-la agora, não sabe?”
   – Mogherini lança.

Faço um imenso esforço para manter a voz calma quando rebato...

“Tudo isso era uma questão de tempo, não é?”

___
Qualquer um diria que eu não deveria dirigir.
Minha própria consciência grita a recomendação enquanto guio o carro pelo centro de Nápoles, trêmulo, numa velocidade um pouco acima do permitido. Eu posso ser multado a qualquer momento, mas essa é a última coisa que importa agora.
Meu primeiro impulso ao descobrir o sequestro da Jennifer foi tentar resolver a situação. Há uma pessoa morta – que com certeza não vai ser a última – por conta disso. É claro que a Liza reagiria da mesma forma.
Nós somos muito parecidos quanto a isso.
Por mais que eu esteja contrariado, com uma raiva irracional, não posso culpá-la por isso. Em seu lugar, teria feito a mesma coisa.
O que faz meu ódio parecer ainda mais fora de lugar.
Só a noção disso, do quanto estou sendo hipócrita em julgá-la, do quanto todos nós estamos sendo hipócritas, faz minha raiva crescer ainda mais.
Raiva dela, por ter sido imprudente.
Raiva de Mogherini, de Miranda, de Saxe e Craven, por se importarem apenas com seus próprios interesses.
Raiva de mim, por ter sido imprudente e hipócrita ao mesmo tempo.
Por Mogherini estar certo.
Por eu ter permitido que as coisas saíssem de controle.

   Abro a porta de casa num empurrão, sabendo que a Liza não está aqui, mas mantendo uma fagulha de esperança de que ela esteja.
A casa está em silêncio, e tudo está devidamente no seu lugar.
Desabo no sofá, pousando a arma na mesa de centro e pensando que é melhor que ela não esteja em casa. Tudo acabaria em discussão, no final das contas. Só iria piorar as coisas.
Ergo os olhos para o teto, observando a luminária oval presa no centro, branca, com sua luz acesa. Estico os pés e meus sapatos encontram algo como um pacote, pousado no canto do sofá.
Olho para o chão.
É um pacote de tamanho médio, de papel, e não há nada escrito nele.
Rasgo a borda do envelope e enfio a mão no interior do envelope, encontrando uma superfície rígida em meus dedos.
Puxo para a fora.
Observo com surpresa a luz sendo refletida pelo disco que agora gira em meu indicador.

JAMES
Quando Liza atravessa as portas, mal consigo encará-la.
Ela parece satisfeita com o êxito de seu plano, mas há uma ponta de preocupação em sua expressão. Ela me ouviu chamá-la no telefone. Sentiu o alarme na minha voz.

“Fiz todo o possível para vim pra cá mais rápido.” – Disse. – “Tinha acabado de chegar em Catanzaro quando você ligou. Tive que pegar o helicóptero pra chegar em Londres. O que aconteceu?”

“É melhor você ver por si mesma.”
   – Digo, apontando para o notebook.

“James.” – Murmura, tensa de repente. – “Você está me assustando.”

“Desculpe, mas não posso agir de outra forma.”

Ela fixa seu olhar em mim por um instante, como se estivesse tentando ler a resposta em meu rosto.
Então, ela finalmente toma coragem e avança para mesa, ainda de pé mesmo quando põe o vídeo em reprodução.
Viro o rosto para não ver sua satisfação transformar-se em tristeza e culpa.