Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

18 de fev de 2016

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 30

DIANA
Fecho o último botão do blazer preto enquanto sigo em direção à sala de estar do César.
Faz quase dois meses desde que fui mandada para cá, e as vezes me pego questionando quanto tempo terei que ficar aqui. A tensão cresce a cada dia, palpável, e eu tenho a sensação de que todo esse ar pesado pode me engolir, sufocar-me.
Na escada, Vera desce com os cabelos presos num coque e óculos escuros, com uma expressão e comportamento que dava a entender que ela queria sair sem ser notada. Sua blusa branca de tecido leve e macio, folgada, tinha as mangas compridas arregaçadas até os cotovelos, e apesar do salto, visível mesmo através da calça jeans de boca larga, ela soava extremamente informal.
Pressiono minhas costas contra a parede, tentando me ocultar o máximo possível no canto escuro abaixo da escadaria.

Então, os planos de Kvitova – e quase os meus – são estragados pela presença de Giovanni, uma espécie de ‘’capanga-chefe’’ da casa.

“Vera” – Ele chama, aos pés da escada. – “O chefe marcou reunião. Exige a presença de todos no escritório.”

“Agora?” – Sua voz soa contrariada.

“Sim.”
– Diz. Ele parece compartilhar da mesma falta de entusiasmo.
“Me mandou te chamar.”

Kvitova solta um suspiro alto e gradativo enquanto desce os últimos degraus.
Por sorte, nenhum dos dois nota minha presença e seguem juntos até o escritório do César, uma porta larga, branca, que fica no canto direito da sala de estar. Eu espero pacientemente até que o ruído de seus passos se apaguem antes de me mexer.
César nunca marca reuniões de última hora.
Se ele fez isso hoje, algo importante aconteceu.
Me movo em direção a porta recém fechada, tomando todo o cuidado possível para não fazer barulho. Ouço o som da chave girando sobre a fechadura, trancando o cômodo, o que significa que não falta mais ninguém.
Solto o ar lentamente.
Encosto os ouvidos na parede junto a porta, tentando apurar minha audição até o máximo.
O resto da casa está mergulhado num silêncio sepulcral, o que aumenta significativamente minhas chances de ouvir alguma coisa.
Me concentro.
Ruídos confusos chegam aos meus ouvidos minutos antes de captar uma coisa nítida.

“Senhores.”
– Reconheço imediatamente a voz de César, clara, limpa, segura.

Eles também fazem silêncio, o que ajuda muito.

“Sei que interrompi seus deveres de praxe, mas o assunto é urgente.”
 – Ele faz uma pausa.
“Essa manhã, bem cedo, recebi a notícia de que Raina Atias foi encontrada morta em sua casa no Cairo.”

Nenhuma reação audível.
A menção de Raina Atias, a congressista de Direitos Humanos da LA faz minha mente explodir com um turbilhão de perguntas. Will sabia de seu envolvimento com César? Ele está envolvido nesse assassinato?

“Da mesma forma,” – César continua. – “Cavendish também foi encontrado morto em Roma, com o corpo jogado numa piscina de um parque aquático, com três marcas de bala.”

Controlo o impulso de me afastar da parede.
Com Cavendish há poucos questionamentos.
No caso dele, tenho certeza de que Will está envolvido.

“Quanto à Raina, tenho quase certeza que foi obra de Liza Vaccari.”
   – A forma como ele pronuncia o nome da Liza, formal, sem nenhuma emoção na voz é, por alguma razão, ao mesmo tempo previsível e surpreendente.
“A grande questão e motivo dessa reunião é quanto ao Cavendish.”

Outra pausa.
Um leve murmúrio se espalha pela sala.

“Acredito que pelo menos uma dessas três pessoas são familiares aos senhores, mesmo assim, vou apresentá-las separadamente.”
   – O tom de César muda discretamente para um timbre muito parecido com o usado comigo no fatídico dia do assassinato da empregada.
“Este, à frente, é William Richmond, vice-diretor do centro de inteligência da polícia italiana. Curiosamente, ele é casado com Liza Vaccari.”

Sinto espasmos se espalharem pelo meu corpo.
A situação não é nada boa.

“Os outros três homens acompanhados dele são Henrico Bragatti, Ettore Adriani e Gian Zorzoli, também policiais.
– Continua.
“Porém, mais interessante que isso é a mulher que está ao lado deles.”

Prendo a respiração.
Nada é tão ruim que não possa piorar.

“O nome dela é Madalina Saxe, 23 anos, da Romênia. Ela é uma agente da Interpol.”

Touché.
Estou a um passo de ser descoberta.
Não seria uma surpresa se meu nome fosse citado também.

“Isso tudo me faz pensar, como a Interpol sabe sobre nós?”
 – César questiona.
“Nossa família está de pé há gerações, os Vaccari já existiam antes mesmo da Interpol ser fundada e nunca tivemos problemas com a polícia. Então, de repente, documentos confidenciais são confiscados e meu braço direito é pego e assassinado por cinco policiais... Convenhamos, é no mínimo estranho.”

“É aquela menina.” – A voz de Vera soa muito próximo à parede, carregada de irritação.

Prendo a respiração.
Ela continua....

“Aquela menina que você colocou como governanta na sua casa!”

“Kvitova, não começa...”
   – Giovanni murmura.

“Vocês estão todos cegos.” – Solta. – “Eu disse que ela não é de confiança, que seria imprudente colocá-la aqui dentro....”

“Maria Belagamba está sendo monitorada pelos meus homens e você sabe disso.” – César ralha. – “E além do mais, ela não tem acesso às informações sobre Cavendish ou qualquer um de nós.”

“Mas César...”

“Diferentemente de você, Vera.”
– Ele interrompe.
“Você sabe onde mora a família de Cavendish, sabia que ele iria para Roma, sabia quando sairia de lá, sabia muito mais sobre ele do que uma simples menina, como você mesmo diz.”

“Não está insinuando que eu o entreguei pra polícia, está?”

“E se eu estivesse?”

Me afasto da parede no instante seguinte.
Retrocedo, varrendo os olhos por toda a extensão da sala. O silêncio exterior é tão profundo que posso ouvir o ruído surdo dos meus batimentos. Caminho em direção ao jardim lateral, quando o primeiro pensamento nítido se forma em minha mente, ameaçando escapar por meus lábios....
Kvitova vai vingar em mim sua discussão com César.
Então o segundo pensamento surge;
Tenho que dar um jeito de sair daqui.

JAMES
Sempre admirei o design da sede Hansson, em especial, a sala da ‘’presidência’’.
Ao chamá-la assim, Thomas Hansson deixou claro seu espírito corporativista. Ele fazia os Hansson parecerem uma empresa e não uma máfia. Tudo era milimetricamente organizado e burocrático, e sua família não era sua família, era seu ‘’conselho’’.
Eu estou em pé, de frente para a imensa parede de vidro reforçado que fornece uma vista não somente da entrada da sede, mas de praticamente toda a cidade. Atrás de mim, há a cadeira de couro, a mesa e todo o resto que compõe o escritório.
O único sobrevivente.
Em meio a Thomas, Morgana e Sharon, é uma grande ironia do destino que eu seja o único que permaneceu vivo.
A porta faz um ruído suave, quase inaudível, quando é aberta.

“James.”
  – A voz de Yuval soa em meus ouvidos. Quase sorrio. Ela soa dura, mesmo quando não está tentando ser dura.

“Yuval.”
– Respondo, condescendente.
“A que devo a visita?”

“Fiquei sabendo que a Liza nem precisou do teu dinheiro com os fornecedores.”

Levanto uma sobrancelha.
Ela nota minha confusão.

“Sidney.”
– Solta.
“Ela está em Dubai há dois dias. De alguma forma, obrigou um dos fornecedores, que por sinal é seu tio, a não somente fechar negócio com a Liza, mas convencer os outros a fazer o mesmo.”

A imagem de Hayat sentada naquele banco volta a minha mente.
Sidney herdou tudo o que era do velho Conan, o que significa que sua influência é suficientemente alta para que ela fizesse algo assim.
De qualquer forma, toda a família não recebeu nada da herança e passou a depender de Sidney, direta ou indiretamente.

“Mas não foi pra isso que eu vim.”
  – Yuval retoma, e há uma nota de preocupação em sua voz enquanto ela pousa um pacote amarelado na minha mesa.
 
Não há endereço, nomes ou selos nele, apenas o papel áspero, grosso, de tom amarelo escuro e lacrado, com uma protuberância plana, circunférica, que toma metade da extensão da embalagem.
Toco em seu centro e ao invés de encontrar uma superfície sólida, meu dedo afunda no outro lado do envelope.
É um disco.

“O que é isso?” – Pergunto, de repente compartilhando da mesma preocupação.

“Eu não sei.”
– Diz.
“Foi deixado na porta da sede Vaccari. Acredito que é para a Liza.”

“Então...” – Começo, arrastando cada palavra. – “Por que não entregou a ela?”

“Porque não sei o que é.” – Responde. – “E não sei como ela vai reagir quando souber.”

Enxergo toda a mensagem pelas entrelinhas.
Esse pacote foi mandado pelo César.
E seja lá o que houver nesse disco, não é nada bom.

“Pode ir, Yuval.” – Digo. O ar sai das minhas narinas com força. – “Obrigado.”

Ela faz um breve aceno com a cabeça e se afasta.
Eu a observo atravessar a porta, com o disco na bandeja do notebook e o dedo indicador no botão ao lado.
Então, quando as portas finalmente se fecham, eu posso por em reprodução e assistir o que César quer que a Liza assista.