Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

5 de fev de 2016

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 29

WILL
Eu contemplo, sob uma velha cadeira enferrujada, um Rob Cavendish acorrentado, zonzo e banhado de suor.
O sonífero começa a perder seu efeito agora e ele recobra, aos poucos, a consciência, com o reflexo cintilante da água iluminando seu rosto.
   Seus sentidos ainda estão confusos, o que significa que ele não se deu conta de onde está e os elementos externos ainda não podem afetá-lo.
O cheiro de cloro se espalha por toda a extensão da quadra fechada.
Esta é uma ala de um imenso parque aquático pertencente ao governo local, em reforma, e os reflexos de seu rosto provém de uma piscina de dimensões olímpicas, com sua base de azulejo azul claríssimo a cerca de um metro dos pés de Cavendish.
Medo.
Essa é uma arma de coação muito mais potente do que qualquer dor física que poderia lhe causar.
César Vaccari, mais do que ninguém, sabe muito bem disso.



    Desde o instante em que Diana me revelou seu nome, me apliquei com exemplar empenho em estudar sua vida, em especial, seus pontos fracos. Poderia concluir que seu ponto fraco poderia ser sua mulher, ou suas filhas, sua fortuna ou posição social, até encontrar a palavra chave; fobia.
Uma fobia em especial. Cloro.
Por alguma razão, Cavendish não suporta o cheiro da substância, a ponto de evitá-la de todas as formas. Ele nunca vai a clubes ou parques aquáticos. Não há piscina em sua casa, os materiais de limpeza são guardados num compartimento fechado e até a água encanada recebe tratamento diferenciado para livrá-la do cloro. Muito provavelmente sua fobia foi provocada por alguma má experiência com piscinas em algum momento de sua vida.
Então, esse é o local perfeito para uma conversa simples e casual.

Ele abre os olhos de repente, com espanto, mesmo sem ver a piscina, e seu corpo estremece dos pés à cabeça, o que significa que seu olfato voltou a seu estado normal.

“Zorzoli”
   – Chamo. Assim como ele, todos os outros policiais decidiram manter-se um pouco a distância, em especial, Saxe, por alguma espécie de autopreservação. Sinto os olhos dela em mim, acompanhado cada passo meu, silenciosamente.
“Certifique-se de que nosso convidado está à exatamente um metro da piscina.”

Apesar da precaução, Gian não contém o olhar maleficente que lança para Cavendish enquanto passa por ele.
Cavendish, por sua vez, mantém seu olhar fixo em mim, fazendo um esforço quase sobrehumano para parecer sob controle.
É assustador.
Ele faz todo o esforço para manter os olhos longe da piscina e eu enxergo todo o medo estampado neles. É estranho que uma pessoa como Cavendish possa sentir essa espécie de medo associativo e irracional.
Só me faz pensar o quanto estamos sujeitos a isso. Ninguém é imune.
Nem mesmo o próprio César.

“Pode ser bem rápido.” – Secreto para ele. – “Se me der o que eu preciso.”

“O que você quer?” – Pergunta. Sua voz sai trêmula.

É admirável seu esforço em não deixar-se vencer pelo desespero.

“Jennifer.”
  – Digo, e então nos encontramos em situações muito próximas. Nossos pontos fracos. Nossos medos.
“Diga-me onde ela está.”

“Ela está viva. Não é intenção do César matá-la.”
   – Diz.
“É a única coisa que sei. Somente duas pessoas sabem onde está o cativeiro da menina.”

“E quem são?”

“O próprio César, obviamente.” – Responde. Hesita. Uma gota de suor escorre por sua tempora e ele mantém o maxilar travado, lutando para controlar-se.

É uma guerra interna.
Já está em tortura suficiente. Seria sádico demais apressá-lo.

“E seu filho.” – Solta, num fio de voz. – “Alex.”
Permaneço imóvel, como se um simples mover-se pudesse quebrar o momento.

“E o que César pretende com esse sequestro?”

“Negociar com sua mulher.”
– Diz.
“Ele quer algo que ela tem. Eu não sei o que é, mas tem a ver com o que ele chama de enigma.”

A memória da carta, do cofre, de Beth Vaccari e mil outras coisas surgem como um turbilhão na minha mente.
Então não acabou.
Nada acabou.

Eu me afasto dele, quase cambaleando, tentando organizar as informações.
O enigma não foi destruído com a carta.
E meu próximo alvo é meu filho.

“Acabei com ele.”
   – Lanço para os outros, num tom de voz tão baixo que não tenho certeza se eles ouviram. Não importa. Continuo caminhando em direção a saída enquanto completo:
“Matem-no antes de jogá-lo na piscina.”

LIZA
1h45.
O visor do celular se ilumina, revelando o horário.
A janela do quarto de Atias, no primeiro andar, fornece uma visão não somente da entrada da casa, mas também de toda a rua.
É um quarto bem decorado, espaçoso, com o design monocromático correspondente ao de toda casa, onde tudo é muito branco, com alguns claros tons de cinza.
Não há relíquias do antigo Egito aqui, pelo menos.
Foi ideia minha colocar o corpo ensanguentado de Saleh Atias na réplica do trono de Tutnés e arrastá-lo até a entrada da sala, mas enquanto Yuval e os outros estavam cumprindo as ordens dadas, eu preferi me retirar para o quarto dela, permanecendo sentada na ponta de sua cama, com o olhar fixo no imenso janelão de vidro.
Não tenho noção de quanto tempo passei aqui.
Nico me avisou, minutos atrás, que ela saiu do congresso e pegou um táxi, e o fato dos vidros dessa janela serem escuros por fora me tira a preocupação de ser vista.
Apuro os ouvidos, tentando notar qualquer som proveniente do andar de baixo.
Silêncio.
Não há reflexos ou sombras, o que significa que as luzes permanecem apagadas. Lá fora, o táxi se afasta e Raina caminha pelo passeio, com o tecido negro, que cobria seus longos cabelos escuros, enrolado na mão esquerda.
Há algo de imponente em sua forma de andar ou em sua marcante expressão.
Percebo, com assombro, que ao mesmo tempo em que ambas diferem completamente, eu consigo enxergar o vislumbre de minha irmã Rachael em Atias.
Rachael.
Trato de afastar seu nome da minha mente, antes que a lembrança me distraia.
Os portões se abrem.
Eu aguardo enquanto ela os atravessa e eles se fecham, antes de me mover.

    Eu me ponho em frente à escada, tomando cuidado para tornar meus passos silenciosos. Há a sombra dos homens em suas posições, imóveis, em unissono, e nem sequer o barulho suave de suas respirações é audível no ambiente.
A porta se abre e a cena se repete.
Ela guarda as chaves na mesa. Liga as luzes.
Seu rosto vira-se na direção da sala de estar, e seu olhar encontra o corpo inerte de seu marido, posto sobre um de seus artefatos históricos.
Seu grito ecoa por toda a extensão do cômodo.

Eu desço as escadas.
Ela não ousa mover-se, já que todos os presentes se revelam, com armas apontadas na altura de sua cabeça.
Me ponho no centro de seu campo de visão.

“Raina”
– Murmuro. Seus olhos castanho-escuros, quase tão negros quanto os de César, me fitam com alarme.
“Cadeira majestosa, essa sua. Infelizmente não havia outra para que se sentasse.”

“O que você quer?”

“Permita que eu me apresente primeiro.” – Digo, lentamente. – “Eu sou...”

“Liza Vaccari.”
   – Interrompe. Ela solta um sorriso depreciativo ao ver meu cenho franzido.

“Conhece-me?”

“Seria difícil não conhecê-la.” – Diz. – “Imagino que saiba porquê.”

“Tem uma casa muito bonita, Atias.” – Continuo, caminhando em direção aos sofás. De soslaio, posso ver um dos homens empurrando-a para frente, guiando-a até onde estou. – “E raríssimas relíquias. A única coisa que me surpreende é a segurança precária.”

“Não corriam perigo...”

“Por que César protegia você?” – Interpelo. Ela se cala. – “Ora, Raina, nós sabemos que é por causa dele que estou aqui. É a única coisa que nos liga, não é?”

“O que você quer?”

De repente não há mais medo em seu olhar. Apenas hostilidade.

“Os fornecedores.”
– Solto.
“Sei que tem contato direto com os fornecedores do César. Quero o nome e sobrenome de todos eles.”

“O que te faz pensar que eu diria isso?” – Rebate. – “Vai me matar, eu lhe entregando a informação ou não. Acho que não tenho muito a perder aqui.”

“Como vai sua filha, Raina?”
– Lanço.
“Dalya, não é? Dê meu feliz aniversário atrasado a ela. Talvez eu mesma queira fazer uma visita na casa de sua sogra para fazer isso pessoalmente.”

Seu sorriso debochado morre.

“Você não é o tipo de pessoa que mata crianças inocentes.” – Diz. – “Conheço você suficientemente bem para saber disso.”

“Eu posso abrir uma exceção.”

Ela volta a se calar.
Raina aperta os lábios firmemente, até formarem uma linha.
Me aproximo.

“Apesar de mais extensos que os seus, meus padrões de conduta não são tão firmes para que eu não possa violá-los.”
– Sibilo.
“Está certa quando diz que não sou esse tipo de pessoa. Realmente, não sou; mas posso vir a ser. Já burlei minhas próprias regras antes.”

Puxo o pequeno bloco de notas e uma caneta da mão de um dos homens, pondo-o de frente para ela.

“Fique a vontade para começar.”

A caneta mantém-se suspensa por seus dedos e paira sobre o papel por vários minutos antes que ela se convença.
Ela escreve lenta e arrastadamente, mas a caligrafia sai perfeita no pedaço de papel.
Três nomes.
Nadin Akyure
Kustun Engira
Elif Albandak

“Eles estão em países diferentes, vai ser difícil achá-los.” – Diz. – “Akyure está em Tblissi, na Geórgia, Engira vai ficar por uma semana em Lagos e Albandak está em Dubai. Usam identidades diferentes e não aceitam falar com qualquer pessoa.”

“Não vão falar com qualquer pessoa.” – Yuval deixa escapar.

Há algo em seu olhar, uma espécie de reconhecimento, que me faz pensar que isso é tudo.

“Bom” – Retomo, dirigindo meu olhar de volta a Raina. – “Foi bom ter negociado com você.”

Caminho para a porta.
O som das armas destravando chegam aos meus ouvidos antes que ela solte...

“Dei o que queria. Mantenha minha filha fora disso.”

“Não quebro meu código de conduta, lembra-se?”
 – Solto, por cima do ombro. Então, acrescento...
“A menos que eu seja obrigada.”

O eco do tiro é o que vem em seguida.
De soslaio, vejo o corpo de Raina cair sobre o chão, imóvel.

“Liza”
– Yuval chama. Ela espera até que estejamos afastadas dos outros, já do lado de fora da casa Atias para dizer...
“Eu sei quem é Elif Albandak.”

“E quem é?” – Pergunto.

Ela passa um olhar preocupado para o interior da casa, como se temesse que alguém a ouvisse.
Sua hesitação me faz pensar que esse é um assunto delicado, reservado para uma quantidade limitada de ouvidos.

“Ele é o tio da Sidney.”
   – Ela diz, e eu de repente penso que dinheiro dessa vez não seja necessário. Só dessa vez.