Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

1 de fev de 2016

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 28

WILL
A decoração do V&R se sobressai em meio aos restaurantes vizinhos, em seus tons frios de azul marinho, tão opostos aos quentes tons de vermelho, salmão e amarelo que toma conta da maioria dos estabelecimentos da esquina.
Madalina franze o cenho, ao meu lado, com os olhos fixos nos documentos que coletamos da casa de Cavendish.



“É muito pior do que eu imaginava.”
   – Ela sussurra, muito mais para si mesma do que para mim. Então, ela percebe meu olhar sobre ela e diz, cansada...

“Já ouviu falar em Raina Atias?” – Pergunta.

“O nome não me é estranho.”

“Ela é membro da comissão de Direitos Humanos da Liga Árabe.” – Diz. – “Seu nome consta aqui como uma espécie de negociadora no comércio de armas. Safroncik precisa saber disso.”

“Safroncik sempre precisa saber de tudo, não é?” – Comento, ácido.

Saxe abaixa ruidosamente os papéis.

“Não saio correndo contar todos os seus passos a ela, se é isso que você pensa.”
   – Rebate.
“Não que ela não quisesse isso. É só que... bom, eu ficaria feliz se você e seus amigos parassem de me enxergar como um mero fantoche dela.”

“Não tenho culpa do seu mau relacionamento com seus colegas de trabalho.”

“Não fale como se não soubesse o que está acontecendo.” – Ralha. – “Os outros agem dessa forma por causa de você. Não estou pedindo para que goste de mim, mas se vamos trabalhar juntos, podemos manter pelo menos um mínimo de respeito.”

Volto a encará-la.

“Em algum momento eu te desrespeitei, agente Saxe?”
“Alguns desrespeitos são implícitos.”

Puxo o comunicador encaixado próximo ao rádio.

“Bragatti” – Chamo, ignorando a presença dela e de seu último comentário. Minha voz sai rígida. – “Onde ele está?”

“Sétima mesa, próxima ao balcão do caixa.”

“Não faça nada, nem deixe ele perceber que está aí.”
  – Ordeno.
“Me chame quando ele sair.”

Afasto o comunicador do rosto, pronto para desligá-lo.
Saxe é a única no carro, o que significa que estamos sozinhos e vai ser difícil ignorá-la nos próximos minutos. Entretanto, decido que o melhor a fazer é manter a boca fechada não importa quanto tempo passe.
Porém, quando estou com o dedo em cima do botão que desliga, ouço novamente sua voz...

“Não vai precisar.” – Bragatti diz. – “Ele está saindo pela porta dos fundos agora.”

Ela também ouve o som do comunicador, o que significa que a frase também a põe em movimento.
Saxe guarda a pasta com os documentos num compartimento fechado do carro e puxa a pistola, abrindo a porta em seguida.
Eu a sigo e nós corremos pelo decorrer da esquina, nos embrenhando no beco que dá acesso aos fundos. Na entrada, a mão esquerda de Saxe me empurra para o lado e ela para, pressionando-se contra a parede.

“O que vo...” – Começo, mas paro ao ver ela tirar algo do bolso.

Se parece com uma seringa, uma agulha de quase cinco centímetros presa a um pequeno e fino tubo de plástico. A base é de uma espécie de rolha de borracha, vermelha.
Madalina gira o dispositivo entre seus dedos, se afasta da parede e arremessa para dentro do beco.
Sua boca se curva num sorriso fraco e eu avanço para dentro da passagem.
Próximo a porta, Cavendish está caído, no chão, com a agulha encravada em seu pescoço.
Bragatti, Adriani e Zorzoli aparecem juntos, logo em seguida.

“Pelo visto, minha pontaria continua boa.” – Ela diz, com uma espécie de humor na voz.

Os outros observam a cena, confusos.
Me agacho próximo ao corpo de Cavendish, imóvel. Olho para ela com descrença.

“Calma, ele não está morto.”
  – Madalina se apressa em dizer, ao ver meu olhar.
“Só foi sonífero. Acredito que levá-lo daqui intacto e dormindo seja mais limpo e menos ruidoso.”

LIZA
Eu atravesso as portas da casa Atias, no Cairo, com Nicolas do outro lado do telefone.    

“Ela acabou de chegar com o marido, de terno preto e burca.”
– Sua voz, abafada pelo barulho externo, soa na linha.

Não foi difícil driblar os seguranças.
É surpreendente o fato de que a casa de uma pessoa como Raina Atias possa ser tão facilmente invadida. Os únicos métodos de proteção são os fornecidos pelo próprio condomínio, que são claramente falhos. Os distraídos guardas foram todos amarrados e postos para dormir em cinco minutos, as chaves e controles que abrem a garagem e outras portas automáticas da casa roubados e meus homens foram parar dentro da casa sem nenhuma resistência, barulho ou sangue derramado.
Ela provavelmente estava muito segura de que não seria pega, tomando todos os cuidados possíveis para não ter seus negócios ilícitos rastreados e confiando na proteção de César Vaccari, que pelo visto, está preocupado demais com seus próprios assuntos para impedir que a casa de sua querida Raina seja invadida.
A casa de Atias tem uma quantidade considerável de esculturas e utensílios pertencentes ao antigo Egito e seus antigos deuses. Recipientes para incenso, bacias de ouro, máscaras mortuárias, perucas e colares, o pedaço de pedra esculpida achada entre as ruínas do templo de Abu Simbel e estátuas de tamanhos variados.

“O congresso deve começar daqui a alguns minutos.”
– A voz de Nico continua soando em meus ouvidos.
“Estou no saguão. Aqui está muito cheio, o que significa que é difícil não perdê-la de vista. Se não se importa Liza, diga o que quer por hora, vou precisar desligar.”

“A única coisa que quero é que me mantenha informada sobre os dois.” – Respondo.

“É melhor manter o celular ligado, então.”
   – Ele solta. O som proveniente da linha vazia é o que vem em seguida.

Em um canto separado da sala de estar, uma grande cadeira de pedra, banhada em ouro e com o assento forrado com peles se revela, majestosa, com desenhos esculpidos em seu contorno e presa numa espécie de base rochosa.

“É uma réplica.” – A voz de Yuval surge ao meu lado. – “Ouvi falar que essa é uma reprodução quase perfeita do trono de um dos antigos faraós, acho que Tutnés I. O verdadeiro está num museu, patrimônio do governo egípcio.”

“E por que é quase perfeita?”

“Porque é uma réplica.” – Diz. – “Construída com a nossa tecnologia e nossos modernos materiais. A pedra usada não é a mesma, e as peles são sintéticas, por exemplo. E de qualquer forma, acho que é impossível fazer algo exatamente igual a uma coisa construída há milhares de anos atrás.”

Começo a refletir sobre a fascinação de Raina Atias pelo passado.
Não é apenas porque o Egito foi um grandioso e ‘’místico’’ império, mas porque ele foi da Antiguidade. Algo que aconteceu há milênios atrás.
Tocar em algo assim, como o que eu faço agora com a réplica do trono de Tutnés, mesmo não sendo o original, dá a impressão de estar sendo transportada para outra era. Me entorpece ao ponto de esquecer a minha verdadeira razão de estar aqui por alguns segundos.
Mas Yuval, é claro, se encarrega de me puxar de volta a realidade.

“É estranho o fato de que num museu, essas peças estariam protegidas sob um forte sistema de segurança.” – Ela diz. – “Mas aqui, não há nem sequer alarmes ou câmeras.”

“César era seu sistema de segurança.” – Murmuro.

“Então por que ele não está atrás de nós agora?”

É uma boa pergunta.
Infelizmente, não tenho muito tempo para refleti-la quando meu telefone toca novamente.

“Saleh Atias está voltando para casa.”
   – Nico diz assim que atendo.
“Raina continua aqui. Acho que ela é a única palestrante. Ele pegou o carro e saiu.”

“Mantenha o olho nela.” – Digo, antes de desligar.

Yuval não demora muito para compreender meu olhar.
Ela lê minha expressão e faz sinal para que os outros tomem as suas posições.

“Nada de tiros.” – É o que eu digo. Ela me mostra uma adaga escondida na cintura em resposta.

Yuval não comentou nada sobre o meu ataque com a água sanitária em seu rosto, no dia do sequestro da Jennifer.
Ela na verdade foi uma das primeiras pessoas a terem apoiado minha ocupação no status de chefe da ‘’família’’.
De alguma forma, os próprios membros da máfia não se referem como uma máfia, mas sim como uma família.
Uma família dividida e dispersa, minha consciência soa, como uma voz dura e cortante.
Esse foi o estado dos Vaccari mesmo antes da morte do velho Jon.

   Quando as luzes são apagadas, penso que esse sempre foi o plano de Beth. Ela passou os últimos momentos de sua vida me preparando para assumir seu lugar, me mantendo a par de todos os movimentos da máfia, de todos os negócios, transações de dinheiro, aliados e inimigos.
Por mais que eu relutasse, não havia como fugir disso.
Vinte minutos depois, o som do carro de Saleh entrando na garagem me faz prender a respiração. Estamos todos escondidos, com as luzes apagadas e Yuval está ao meu lado, com a mão envolvendo o cabo da faca.
Seus passos se tornam cada vez mais audíveis e a porta é aberta, revelando parte da luz proveniente da lua cheia.
Talvez as supertições relacionadas a coisas ruins acontecendo em noites de lua cheia possam começar a fazer sentido agora.
Porém, infelizmente ou felizmente, dependendo do ponto de vista, ele não terá muito tempo para notar isso.

As luzes são acesas.
A porta é fechada e ele pousa as chaves na mesa posta no canto da parede, ao lado da porta.
O estilo monocromático e minimalista da casa dá um destaque ainda maior às relíquias espalhadas por pontos diferentes da sala de estar.
Conto seus passos.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Yuval surge como uma figura alta atrás dele, e antes que perceba sua presença, a lâmina de sua faca atravessa seu pescoço, liberando sangue em grande quantidade a cada artéria rompida.
Ele cai como um peso morto no imenso tapete.
Meus olhos voam para a imponente cadeira de ouro no canto oposto, entre os sofás.
De repente, eu sei onde depositar seu corpo.