Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

1 de fev de 2016

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 27

JAMES  
Sobre a comprida mesa branca, homens que agora trabalham para a Liza examinam os maços de dinheiro.
A maioria são dólares, mas também há euro e libra; Sidney está sentada numa cadeira ao centro, observando os contadores com seus olhares fixados nas telas dos computadores.
Essa é uma das mansões de Beth, em Catanzaro, e por alguma razão eu achei que Sidney estaria aqui. Trata-se de um lugar quieto e afastado do centro da cidade, e a sacada fornece uma visão do Monte Etna, já na Sicília. Lá fora, a única coisa que se vê é a vegetação tipicamente mediterrânea; rasa, com o chão coberto de ervas, arbustos e árvores baixas afastados uns dos outros.
A casa mais próxima daqui está a quilômetros de distância, e a própria arquitetura da mansão contribui para o clima de paz e contemplação. Há uma sacada comprida na entrada, com o baixo muro esculpido em formas onduladas, duas imensas pilastras que lembram colunas da Grécia Antiga e cortinas esvoaçantes em todas as janelas, tudo pintado num branco meio amarelado.
A coleta, contagem e armazenamento do dinheiro da máfia são questões analisadas e discutidas aqui, e enquanto a Liza está ocupada em conter as ações de César Vaccari, Sidney assume essas responsabilidades, por hora.
Ela, que esteve concentrada em seus afazeres, levanta a cabeça por um segundo e me vê, encostado numa das colunas. Seu rosto esboça um meio sorriso e ela caminha na minha direção, indo para a varanda.



“Não parece tão feliz em me ver quanto eu esperava.” – Provoco.

“Foi bom você ter vindo.” – Ela diz, passando um olhar cuidadoso na direção dos outros. – “Tenho uma coisa para te dizer.”

“Sim?”

Ela de repente para e olha fixamente para mim.
Mantenho uma sobrancelha arqueada.

“O que veio fazer aqui?” – Ela pergunta, desconfiada.

“As coisas estavam chatas em Londres.”

“Sei.” – Murmura.

“Você disse que queria me dizer uma coisa.” – Lembro.

“É, né” – Solta. Começo a estranhar o desconforto de Sidney. Então ela suspira, como se precisasse ganhar fôlego, e diz... – “Quando foi a última vez que você viu o Will Richmond?”

Will?
A menção do marido da Liza me pega de surpresa.

“Não sei, faz umas semanas, eu acho.” – Respondo. – “Por que está me perguntando isso?”

“Por que se eu fosse você, ficava de olho nele.”
     – Afirma.
“Eu recebi umas informações dele, eu não posso provar, mas o que chegou pra mim é que ele está trabalhando pra Interpol.”

“O quê?”

“Ele fez uma espécie de acordo com eles pra entregar os Vaccari pra polícia.” – Diz. – “Eu já desconfiava que havia mais gente atrás de nós além do César, e essa coisa do Will estar sempre na delegacia enquanto a filha está desaparecida e a mulher está fora de casa... Tudo isso não parece muito estranho pra você?”

A lembrança da voz de Will no celular, na última vez que nos falamos, repassa em minha memória.
O desconforto nítido em seu timbre logo quando soube que era eu.
As queixas e desconfianças da Liza quanto ao seu distanciamento, mesmo antes de sua volta à mafia.
Eu nunca prestei atenção no rumo em que o relacionamento dos dois estava seguindo, mas agora tudo faz sentido.

“Isso é muito sério.” – Digo, finalmente.

“Por isso mesmo que eu preferi contar a você antes.” – Ela fala. – “Preciso de provas antes de contar pra ela, e você pode fazer isso muito melhor do que eu. Você tem uma certa proximidade com a família e...”

Sidney se força a fechar a boca, ao ver minha expressão consternada.
Ela fica lá, imóvel como uma escultura, me observando com os olhos cheios de expectativa.

“Se você estiver realmente certa...” – Murmuro, temendo a possibilidade.

“Eu sei.”
  – Interrompe.
“A Liza vai ter que matá-lo.”

WILL
Todos eles estão reunidos no meu escritório do departamento, envolvidos demais em suas próprias ocupações para perceber um ao outro.
Zorzoli, Bragatti, Adriani e Saxe estão espalhados pelo cômodo pequeno, e ela é a única que nota, de imediato, a minha chegada, fixando seu olhar em mim.
Há todo um receio por parte dos outros policiais em conversar algo próximo à Agente Saxe, por ela ser da Interpol e por ter sido mandada por Safroncik. Ela é como um objeto invasor, que não faz parte desse grupo, infeccioso e nocivo.
Por mais que eu saiba que ela não teve muita escolha, e que não está fazendo isso por ser uma pessoa ruim exatamente, eu não consigo sentir pena ou afeição por ela, talvez por não conseguir desassociá-la a imagem manipuladora de Miranda.

“Vamos sair.”
   – É o que eu digo, ainda na porta. O olhar de todos está em mim agora.
“Encontramos Cavendish.”

“Onde?” – Bragatti pergunta.

“Roma.” – Solto. – “O helicóptero tá esperando.”

Eles saem prontamente atrás de mim, ajeitando seus coletes recém colocados e armas em seus respectivos coldres, num silêncio sepulcral.
Por mais que eu concorde que Madalina não seja de confiança, esse clima de tensão é quase insuportável. Faço uma nota mental de conversar com os outros sobre isso.

  Três outros homens suspendem a lona que cobre a pista de voo nos fundos do departamento, e o helicóptero preto, com a insígnia da polícia italiana se revela, com o piloto já na cabine. Ele liga a nave e as turbinas giram.
Nós corremos em direção às portas do helicóptero, nos acomodando nos bancos e conferindo se as portas estão devidamente fechadas.

“Roma, certo?” – O piloto diz. Mostro o polegar num sinal de afirmação.

Enquanto o helicóptero alça voo, repasso uma lista de afazeres urgentes na minha cabeça, que incluem tirar Diana da Grécia o mais rápido possível. Ficou claro que César desconfia dela, Kvitova ainda mais e a permanência dela naquela mansão coloca não somente sua vida mas como toda a operação em risco.
Eu só preciso pegar Cavendish primeiro. Se eu der sorte, até mesmo a própria Kvitova.
     Diana reuniu uma espécie de documentos e arquivos que comprovam os negócios ilícitos de César para a investigação. Contatos através de bilhetes e mensagens codificadas com fotógrafos e outros detetives locais, que conseguiram tirar cópias de arquivos valiosos. Entretanto, por maior que seja o material coletado, há sempre a possibilidade de que ele drible o julgamento e saia sem nenhum arranhão, sem contar com o fato de que a transferência de Atenas para Patras dificultou significativamente as coisas.
O incêndio.
A madrugada em que a mansão de César Vaccari foi encontrada em chamas está repleta de lacunas e informações ocultas. A Interpol não comentou nada com a polícia italiana sobre isso e Craven não moveu uma palha para investigar a ocorrência, o que é muito estranho. O que dizem é que foi uma espécie de retaliação por parte dos Vaccari de Beth. Eu não engoli isso, mas há tantos outros assuntos imediatos que é quase impossível pensar em qualquer coisa que vá além de Diana, Cavendish e operação.
Ainda há a Liza.
A lembrança dela ronda minha mente todas as noites como um fantasma. Eu não coloquei os pés em nossa casa faz semanas e não faço ideia de como ela está. Eu quero voltar e encontrá-la, mas preciso resolver outra questão primeiro: Jennifer. Não posso voltar para casa sem descobrir onde ela está.

“A Interpol não vai esperar a captura de Kvitova para agir.” – Gian murmura. – “O que eu ouvi é que Safroncik está um tanto impaciente com a cobrança da mídia e da própria UE. Só estão nos deixando pegar Cavendish porque eles acham que ele tem informações sobre um bando de gente que trabalha para os Vaccari.”

Outro item, óbvio, imediato, da lista de afazeres:
Pegar Cavendish.
Fazer e entregar a lista de nomes que ele nos der para Interpol.
Buscar informações sobre a Jennifer.
Matá-lo.
Diferente do que os outros acham, não vou entregar Rob Cavendish na mão de Mogherini.

Observo Bragatti me passar um rápido olhar, de soslaio.
Ele é talvez o único que sabe exatamente o que estamos para fazer hoje, e concorda em absoluto comigo.
Dane-se a presença de Saxe, continuo com o plano original.

__

Aventine é um bairro quieto e agradável, quase como um paraíso escondido no meio de Roma. Há hotéis, e pequenos e silenciosos restaurantes em quase cada esquina, mas isso não tira o caráter residencial do local. Apesar dos estabelecimentos comerciais, não é um bairro muito conhecido e visitado, além do fato de que todas as casas aqui possuem valores bastante altos.
A casa de Cavendish, do tamanho de uma mansão modesta, fica numa rua ainda mais escondida que o próprio bairro. Trata-se de uma área exclusivamente residencial e restrita, onde o tráfego de pessoas é severamente controlado. Turistas são proibidos de transitar por esse local e há uma quantidade estabelecida de carros permitidos por metro quadrado. Os moradores das mansões situadas aqui são em sua maioria famosos ou membros – ou parentes de membros – de governos nacionais e exteriores, ávidos por segurança e privacidade.
Um policial se aproxima do carro blindado em que nós estamos, fazendo sinal para que a gente pare, e Saxe abaixa um dos vidros assim que o vê. Sua mão puxa o distintivo em sua carteira.

“Interpol, estamos com um mandado de busca e apreensão.”
       – Madalina diz, segura e firme. O policial não apresenta objeção alguma e nos deixa passar.

“Ele os deixaria passar com qualquer um de vocês, mas um distintivo da Interpol causa mais impacto.” – Ela murmura, agora para nós. Eu lhe lanço um rápido olhar e não falo nada.

Movo o carro pela estrada deserta da rua, observando o aspecto e número das casas.

“Já se aproveitou do distintivo que tem para entrar em qualquer lugar sem pagar taxas ou ser barrada?”
     – A voz de Ettore me pega de surpresa, nem tanto pela quebra de silêncio, mas pelo fato de ele ter dirigido, pela primeira vez até onde eu sei, a palavra a ela.

Madalina abre um lento e preguiçoso sorriso ladino.

“Se eu te respondesse, podia correr o risco de ser demitida.”

“Não confia em nós?” – Ele acusa, com falsa mágoa, lhe retribuindo o sorriso.

“Vocês confiam em mim?” – Ela rebate. O olhar de Ettore expõe toda a resposta não dita.

“Chegamos.”
  – Digo, estacionando o carro. O momento de ‘’quase descontração’’ se quebra e eles abrem as portas, voltando às suas posturas sérias e concentradas. Nós avançamos para o gramado que antecede a entrada da casa e sacamos nossas armas.  

 Ettore Adriani é o primeiro a se prontificar a arrombar a porta.

“Se afastem.” – Ele solta.

O som do tiro na fechadura de ferro se assemelha, de longe, a vidro partido.

Ele chuta a porta e entra, com a arma na altura do rosto das duas mulheres de pé na sala.
Uma delas, a mais velha, Agatha Cavendish, puxa a filha Iva para perto de si, apertando-a. A criança, por sua vez, está assustada demais para chorar ou esboçar qualquer outra reação.

“Senhoras.”
  – Digo, com um tom de voz bastante casual.
“Perdão pela falta de modos, mas o assunto é urgente.”

“Quem é você?!” – Isabela, a filha mais velha de Cavendish solta, hostil.

“William Richmond, polícia.” – Respondo, mostrando meu distintivo. Volto-me para os outros. – “Esses são meus colegas de trabalho e essa é a agente Madalina Saxe, da Interpol.”

“O que a Interpol quer conosco?” – É a vez de Agatha perguntar, cética.

“Onde está seu marido?”
– Pergunto. Ela fica imóvel, como se estivesse petrificada.

“O que querem com Robert?”

“Apenas conversar, senhora, não tem porque ficar nervosa.” – Saxe murmura.

“Meu marido não fez nada!” – Ela solta, quase histérica. – “O que vocês querem com ele?! Ele é um homem honesto, paga seus impostos, nunca fez nada contra ninguém e...”

“Se ele é tão honesto quanto diz, não há com o que se preocupar.”
 – Digo.
“É como a agente disse, só vamos conversar com ele.”

Ela fica calada.
Iva continua quase em seu colo, assustada, e Isabela está do outro lado da sala, com os olhos muito abertos, observando.

“Ele não está aqui.” – Agatha diz, hesitante.

“E sabe onde ele está?”

“Não.”

Arqueio uma sobrancelha.
A sala fica muito quieta, de repente, e o som do papel em atrito com a calça – quando eu puxo o documento – é a única coisa audível.

“Temos um mandato para vistoriar sua casa.” – Digo, mostrando a autorização. – “Se não se importa.”

Não aguardo resposta.
Eu e os outros avançamos em direção aos outros cômodos da casa, Ettore e Bragatti sobem para os quartos e Madalina vistoria gavetas de estantes e escrivaninhas.
Agatha e suas filhas permanecem sentadas, olhando com apreensão.

“Essa gaveta está trancada.”
 – Madalina murmura, apontando para a gaveta imbutida na mesa de centro.
“Preciso da chave.”

“Só Robert tem a chave.”

“Só me resta arrombá-la, então.”

Madalina puxa a arma do coldre. Agatha retrocede.

“Espere!” – Solta. – “Eu... eu posso abrir a gaveta.”

Saxe observa enquanto ela tira uma minúscula chave do bolso da calça jeans e abre espaço para que ela se ajoelhe, de frente para a gaveta em questão.

“Mente muito mal, Agatha.”
  – Saxe sussurra. Ela apenas lhe lança um olhar carregado como resposta.

O conteúdo do compartimento quase secreto é mais do que previsível.
Documentos digitalizados com relação às finanças de César Vaccari e as transações de dinheiro entre bancos de países diferentes. Armas e explosivos comprados e suas respectivas quantias, nomes, documentos que passam diferentes tipos de propriedade para contrabandistas de armas e narcotraficantes.

“Por que seu marido tem documentos que pertencem a César de Ambrosio Vaccari, como aponta aqui?”
– Madalina aperta.
“Quais as relações dele com um homem acusado de crimes como tráfico de pessoas, tráfico de armas, lavagem de dinheiro e associação com o terrorismo?”

Ela permanece calada e fixa seu olhar num ponto distante da sala.

“Está vendo esses nomes aqui?” – Saxe continua, estendendo um dos documentos na direção dela. – “Esses nomes são de contrabandistas de armas no Oriente Médio, e a senhora sabe disso, não sabe?”

Agatha não diz mais uma palavra.
Madalina avança um passo em sua direção, assumindo um tom ameaçador.

“Vou perguntar só essa vez...” – Sibila. – “Onde está Rob Cavendish?”

Ela continua quieta, imóvel, com o olhar parado.
O som semelhante a um bufo vem do outro lado da sala, de onde eu não esperava ouvir nenhuma voz...

“Pelo amor de Deus, mãe!” – Isabela solta, impaciente. – “Até parece que vai conseguir enganar alguém!”

O olhar de todos vão para ela.

“Ele está num restaurante no bairro mesmo, V&R, fica a algumas quadras daqui.” – Diz. – “Não vai ficar muito tempo porque vai ter que voltar para os fins de mundo em que ele se enfia, como sempre.”

“Isabela!”

“O que é hein?!” – Ela rebate. – “Já tô cansada de fingir que somos uma família perfeita.”

Então ela sobe a escada, a passos largos, e se esbarra num dos policiais que descem.
Eles observam o raio de fúria que passa por eles com confusão e até diversão em seus rostos.
Agatha, por sua vez, afunda-se no sofá com as mãos espalmadas na testa.

“Vamos.” – É a única coisa que digo, antes de caminhar para a porta.

Entretanto, já no gramado da casa, visualizando o carro preto e lustroso, com seus vidros escuros e blindados, posso ouvir, de longe, o grito abafado de raiva e choro da esposa de Cavendish...

“Era o seu pai, sua ingrata!”