Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

21 de jan de 2016

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 26

WILL
“Consegui surrupiar algumas informações do seu agente.”
   – Henrico Bragatti, um dos policiais que ficaram na minha equipe afirma, enquanto me dirijo para a sala de Craven.
“Sua agente, na verdade. O nome dela é Madalina Saxe e ela é romena, eu acho. 23 anos. Trabalha na Interpol há muito pouco tempo, na verdade; pouco mais de um ano. Um pouco estranho a Miranda mandar alguém tão inexperiente, não acha?”

Paro um instante para olhá-lo.
Eu o conheci quando ainda trabalhava como agente independente nos Estados Unidos, com a Liza, faz muito tempo atrás. Bragatti é apenas dois anos mais novo que eu, trabalha aqui há quase 3 e parece que as coisas não ficaram tão boas em NY, já que ele teve que voltar para a Itália, apesar de sempre deixar claro sua aversão por seu país de origem.
Ele tem todas as características de um bom policial, por ter passado a vida sendo agente, mas o que me fez chamá-lo para a equipe foi o fato de ele ser confiável, mais confiável do que todos os outros.



“Ela provavelmente tem alguma razão pra isso.”
    – É a minha resposta.

Miranda Safroncik sempre tem uma razão pra fazer o que quer que seja.
Não é necessário conviver muito com ela para perceber isso.

   Ettore e Gian, os outros membros da equipe, estão espalhados em cadeiras metálicas quando entro na sala de Craven, com os cenhos franzidos, observando a moça loira que aperta, de pé, a mão direita do delegado.
Seus rostos expõem todo o incômodo em ter um invasor aqui. Entre o núcleo de inteligência e os policiais da equipe, todos ficaram bem contrariados ao descobrir que a Interpol interferiria ainda mais do que já interfere na investigação.

“Agente Saxe, esses são os policiais Adriani e Zorzoli.”
     – Craven diz, sorridente, apontando para os dois homens sentados nas cadeiras. Eles permanecem sentados mesmo quando ela lhes dirige o olhar, e a máxima reação que esboçam são sobrancelhas arqueadas.  
Quase sorrio.
Ao ver o claro comportamento de desdém de seus policiais, a expressão do delegado muda de 'sorridente bajulador' para uma careta de irritação.  
Mas então seu olhar se fixa em mim, e todo o meu bom humor vai embora.

“Ah, Richmond!” – Ele diz, com uma nota de alívio na voz. Craven sai de trás de sua mesa e caminha na minha direção, com mais um de seus sorrisos falsos no rosto. – “Que bom que está aqui!”

Infelizmente, a atenção da moça da Interpol também passa a ser direcionada a mim.

“A agente da Mi...” – Craven começa, mas para subitamente, desconfortável. – “A agente designada para a operação chegou hoje, estava apresentando-a para os policias.”

“Eu percebi.” – É o que digo, seco.

“Bom, agente Saxe” – Ele a chama. – “Esse é o seu atual chefe, detetive Richmond, do núcleo de inteligência, que está comandando a equipe. E o que vem logo após dele é o detetive Bragatti, também da inteligência.”

“Muito prazer.” – Ela diz, com um sorriso profissional, estendendo a mão para mim.
Eu a aperto firmemente e ela repete o cumprimento com Bragatti.

Eu observo seu rosto com exatidão.
É uma grande coincidência que ela tenha os olhos verdes e o cabelo claro da Liza, a estatura da Liza, e que só não é exatamente igual a ela por conta de seus traços franceses – apesar de ser romena, segundo Bragatti.
Seu olhar vai de novo para mim, e eu penso que ela não é muito boa para apagar emoções do rosto, porque vejo todo o reconhecimento passar em sua expressão, como se todas as instruções de Miranda quanto a mim passassem por sua mente.
Talvez sua semelhança com minha esposa não seja uma coincidência, afinal.

“Bom, já que todos agora se conhecem” – Craven recomeça. – “Acho que meu trabalho acaba por aqui. Se me dão licença...”

Bragatti abre espaço para que Craven saia, e quando a porta bate, ficamos só nós. Eu e minha equipe.
E os sentidos de Safroncik.

DIANA
Hoje é o dia da minha folga.
Desde aquele fatídico episódio com o César na sala de estar de sua casa aqui, em Patras, seus capangas tornaram-se mais um item na minha cada vez mais extensa lista de preocupações.
Minha transferência para fora de Atenas trouxe uma série de problemas que incluem minha comunicação com Will.
Will.
Desde sua descoberta sobre a Jennifer, ele passou a fazer parte da minha lista. Ainda não consegui definir qual exato lugar ele ocupa.

A específica preocupação quanto aos capangas de César Vaccari vem a tona agora, enquanto caminho pelas ruas frias de Dytiki Ellada, um bairro residencial de classe média, não muito segura do meu destino. É final de outono aqui, mas estava quente. Faz uns dois dias que esfriou.
E foi exatamente há dois dias atrás, quando eu descia – a pedido do próprio César - para o estacionamento ''público'' do condomínio buscar uma mochila esquecida no carro de um de seus capangas, que um homem completamente desconhecido, de óculos escuros e barba crescida esbarrou em mim, depositando um pedaço de papel amassado na minha mão e desculpando-se com um sorriso.
No papel, o endereço para o qual estou indo agora, uma pequena e charmosa padaria que consigo enxergar agora, há uns 200 metros de mim.
Na melhor das hipóteses, verei Will hoje.
Na pior, posso acabar morta de mil formas existentes.
Isso, claro, sem mencionar a bem provável possibilidade de estar sendo seguida.

“Finja que é minha namorada.”
   – Uma voz masculina sussurra no meu ouvido, e de repente, há uma figura de mais de 1.80 de altura ao meu lado, passando o braço em volta do meu ombro.
Contenho o impulso de reagir.
Pode ser alguém da Interpol, afinal.

Ele sorri radiante para mim e eu devolvo o sorriso da melhor forma que posso.
Nós seguimos o caminho pela rua repleta de casas bonitas, agindo como se fossemos namorados, e seu olhar me confirma o que já estava desconfiando há muito tempo.
Estou sendo seguida.
Espero chegarmos até uma certa distância para sussurrar…

“Quem é você?”

“Você vai saber.” – É a única coisa que diz.

Ele me guia até uma rua adjacente, mais estreita, e eu procuro observar melhor seu rosto, gravando cada centímetro dele.
Cabelos pretos.
Olhos castanhos.
Olheiras leves e algumas linhas de expressão na testa.
Bonito, mas comum.

No final da rua, há uma casa que possui uma pequena escada, com menos de quatro degraus, e outra, mais longa, que dá acesso a outra casa, embaixo desta.
Ele faz sinal para que eu desça.
Sua mão se move rapidamente, passando a chave pela fechadura e quando entramos, ele tranca a porta atrás de nós.

“Agente Milazzo.”
– Ele murmura, ligando as luzes.

Trata-se de uma sala normal, é o que eu noto, com um único sofá, televisão de LED e um notebook pousado sobre o estofado.
Não sei se devo ficar aliviada ou não em ver ele citar meu nome verdadeiro.
Ainda pode ser uma armadilha.

“Hector Habsburg, da Interpol.”
– Ele diz, estendendo a mão para mim.
“Ficamos sabendo de sua vinda para Patras e fui mandado para ajudá-la a contatar-se com seu mentor.”

Permaneço um tanto cética.
Ele não parece se importar com meu comportamento, porque abre o notebook e solta…

“Não temos muito tempo, vão chegar aqui em minutos.”

Ele liga a televisão, e ao invés de uma programação de algum canal, o que estampa a tela é o rosto preocupado de Will.
Então, todas as minhas defesas se quebram.

“Will.” – Deixo escapar. Ele solta um meio sorriso.

“Oi Diana.”
– Diz.
“Se não se importa, poderia começar me dizendo onde está Rob Cavendish?”

Respiro fundo, me concentrando nas informações que se acumulam na minha mente.

“Em Roma.”
   – Começo.
“Ele está agora e provavelmente não vai demorar muito tempo. Talvez viaje ainda hoje. Está só de passagem para visitar a mulher e as filhas. Se eu fosse você me apressava. Se não conseguir pegá-lo em Roma, vai perdê-lo de vista.”

“Onde é a casa de sua família?”

“Aventine, nº 52.” – Digo. – “ O bairro é conhecido pela grande quantidade de hotéis e restaurantes.”

“Nomes? Quero dizer, da esposa e das filhas.”

“Agatha Cavendish é a esposa” – Começo. – “As filhas são Isabela, de 12 anos, e Iva, de 4.”
     
“Eles chegaram.”
   – O cara da Interpol, Hector, diz. A imagem de Will some da tela.
“Espero que tenha dito tudo o que tinha para dizer.”

Não tenho tempo de responder ao seu comentário, porque ele me puxa para o quarto situado num canto da casa.
Observo ele fechar a porta e guardar o notebook embaixo do colchão. Num movimento, sua camisa vai parar em cima da cama.

“Tire as roupas.” – Ele ordena. – “Dê uma bagunçada no cabelo também. Precisa parecer que dormiu aqui.”

E então ele simplesmente sai, desaparecendo nos corredores da casa.
Observo o cômodo.
É um quarto pequeno, sem nenhuma iluminação natural, mas confortável mesmo assim. Há um guarda-roupa de algum tipo de madeira antiga, uma cama de casal e um criado mudo de três gavetas. Puxo a primeira, encontrando um revólver 38 e duas munições.
Um baque vindo da sala chega aos meus ouvidos.
Encaixo as munições no pente e me aproximo da porta entreaberta. Pelo espaço de dois dedos, consigo enxergar dois homens tatuados e o cara da Interpol, conversando. Capangas do César. Me afasto da porta e tiro as roupas, como Hector mandou.
Mergulho debaixo dos lençóis, escondendo a arma e a mão que a segura embaixo de um dos travesseiros.
A porta do quarto se abre no instante seguinte, num empurrão.

“Belagamba”
– Um dos capangas diz, o que se chama Tom. Ele tem uma tatuagem de dente de tigre no rosto, abaixo do olho esquerdo, e olhos âmbar. Foi um dos que me escoltaram de Atenas à Patras e apesar de tudo, não tem uma aparência tão agressiva quanto os outros.

É o único capanga com o qual eu tenho algum nível de intimidade, o que é bastante conveniente num momento como esse.

“Tom?” – Solto, e minha voz sai num misto perfeito entre a surpresa e a diversão. Entro no personagem. – “O que faz aqui?”

Ele parece desconfortável, franzindo o cenho e coçando a nuca.

“Sabe como é...” – Diz. – “Ordens do chefe.”

Habsburg e o outro capanga que venho com Tom aparecem na porta do quarto.
Hector faz o perfeito personagem de ‘’pessoa inocente que teve a casa invadida e não está entendendo nada’’, enquanto o outro tem uma expressão nada amigável.

“Por que não disse que tinha um namorado?” – O outro capanga pergunta, ríspido.

Arqueio uma sobrancelha.

“E por que eu deveria contar?” – Rebato. – “Que eu saiba, o chefe não perguntou nada disso na entrevista.”

Ele franze a testa em desgosto.
Observo enquanto Tom sussurra para ele um “vamo embora” e sai do quarto. Ele passa um olhar carregado na nossa direção antes de ir.
Nós, Hector e eu, permanecemos quase imóveis até ter a certeza de que eles estão passos longe da casa.
Então, depois de minutos em silêncio, eu não consigo me conter.

“Não ria.”
   – Habsburg diz ao me ver gargalhar no pé da cama.
“Você tem que se vestir, anda. Pare de rir.”

Ele permanece sério, enquanto veste a camisa azul escuro.
Eu olho então para seu rosto, e apesar de sua tentativa de manter-se profissional, há riso em seus olhos também.
Percebo que esse é o primeiro momento mais ou menos feliz que tenho em semanas.
Então, depois dessa constatação, a única coisa que faço é encolher os ombros e rir de novo.