Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

2 de jan de 2016

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 25


JAMES
Abro a porta do antigo apartamento, sentindo a mistura de odores familiares atingir meu nariz.
Esse era o prédio em que eu morava no tempo que fazia parte da elite de Thomas Hansson, meu tio, há mais de 15 anos atrás. Os outros membros que moravam em outros apartamentos próximos a esse estão mortos, em sua maioria, o que significa que seus imóveis viraram um amontoado de poeira e bolor.
Entretanto, quando entro na sala que compartilhei com Rachael Vaccari durante alguns meses, ela está perfeitamente limpa e organizada.

Esse é um canto escondido no qual impedi que qualquer pessoa entrasse depois da morte dela. No quarto, sobre a cama forrada, jaz uma única peça de roupa, a blusa branca de alças, de algo que parece ser seda.
Sento na ponta do colchão, levando o pedaço de tecido até o nariz, procurando por seu cheiro e só encontrando o odor característico de roupa mofada. Afasto de meu rosto e observo a blusa, tocando-a com a ponta dos dedos, sentindo sua textura macia e tentando me lembrar da última vez em que foi usada.
Evitei esse quarto durante os dois primeiros anos após sua morte, mas o tempo me fez enxergar esse canto com uma certa afeição, e encontrar algum tipo de paz nele. A maioria das coisas estão no mesmo lugar em que foram deixadas, e outras foram movidas de lugar por mim mesmo para fazer alguma limpeza.
É como um retiro pessoal.
Não me sinto um Hansson ou um Vaccari aqui dentro. Só James. Esse é o único lugar onde posso deixar o sobrenome de lado. O único lugar onde meus laços sanguíneos não importam.
Mas hoje, em especial, é um dia em que estou inclinado para a nostalgia, o que significa que as memórias de Morgana e Sharon Hansson, minha mãe e minha irmã, voltam à minha mente.
Há algo de muito incômodo nas palavras ''mãe'' e ''irmã'', já que nunca fomos uma família de verdade.
Nós eramos uma espécie de corporação, e os negócios eram a única coisa que importava.
Por mais que eu faça basicamente a mesma coisa atualmente, e os interesses sejam basicamente os mesmos com os Vaccari, eu penso em alguns deles com uma afeição que nunca senti por qualquer Hansson.
Como Sidney, por exemplo.
Ela não mencionou sua conversa com Hayat, e quando se recuperou do choque e enxugou as lágrimas, tratou de agir como se aquele episódio nunca tivesse acontecido.
Não posso condená-la pelo modo como se fecha. A maioria de nós é exatamente assim.

Nunca deixou de frequentar essa casa, não é?”
- A voz de Liza me atinge e eu levanto a cabeça, sobressaltado, encontrado sua alta silhueta encostada no vão da porta do quarto.

O tempo foi bom para com ela, é o que eu penso enquanto analiso seu rosto.
Liza ainda tem o corpo em forma e poucas – porém perceptíveis – rugas, mas seus olhos permanecem idênticos a 15 anos atrás, e eu tenho a impressão de que continuarão assim, não importa quanto tempo passe. Há uma espécie de energia silenciosa nesses olhos verdes, como se ela sempre estivesse ligada, ativa, pronta para fazer o que quer que fosse.
Não há tédio ou cansaço; todo o seu corpo pode estar exalando a fadiga, mas nunca seus olhos. Há determinação e vivacidade contínua neles.
Como soube que eu estava aqui?” - Pergunto.

Intuição.” - Ela diz, encolhendo os ombros. - “Quando voltei a
Londres, você não estava na sede Hansson, então pensei que você poderia ter vindo pra cá.”

Pensei que ficaria na Itália.”

Eu precisava conversar com você.”

Não poderia ter ligado?” - Aponto, delicadamente. Ela arqueia uma sobrancelha em deboche.

Não acha que sou o tipo de pessoa que tem conversas sérias por telefone, acha?”
- Dispara.

Suspiro.

Ok, fale.”
- É o que eu solto, num claro tom de desistência.

Preciso de sua ajuda.” - Ela começa, sentando-se ao meu lado na cama. Permaneço calado, esperando que ela continue. - “Como eu disse antes, eu tenho um plano para fazer cessar os ataques à Túnis, mas esse plano vai exigir um certo gasto.”

Quanto?”

Muito.” - Ela afirma. - “Não sei exatamente, mas precisamos estar preparados para qualquer coisa. Eu pretendo encontrar os fornecedores do César e fazer uma negociação que impeça-os de vender armamento para ele, mas isso só vai dar certo se o lucro deles comigo for muito maior que o lucro deles com César.”

Como pretende fazer isso?”

Isso já está encaminhado, não tem com o que se preocupar.” - Diz. - “Só preciso saber que está disposto a pagar o que for necessário. Sei que a fortuna Hansson é muito maior que a minha fortuna.”

Observo fixamente seu rosto, pesando todas as consequências da minha possível aprovação.
Ela devolve meu olhar com expectativa, mas é a profunda determinação em seu rosto que me faz dizer…

Certo.”
- Solto.
Darei o dinheiro.”
Ótimo!”
- Ela exclama, levantando-se num pulo. Ela passa a mão pela cabeleira loura, caminhando em direção à saída e diz, mais para si mesma do que para mim…
Bom, eu devo falar com Sidney e...”

Não me faça lamentar isso.” - Declaro, mas a ponta de diversão que sai da minha voz estraga toda a advertência.

Ela alarga o sorriso de cúmplice.

Não vou.” - Murmura, pronta para ir.

Liza!”
- Chamo. Ela me encara, a sobrancelha erguida em interrogação.

Respiro fundo, assumindo uma expressão séria.

Quando foi a última vez que falou com Will?” - Pergunto. Seu sorriso murcha.

Faz um tempo.” - Diz, depois de um instante em silêncio. - “Antes de acontecer tudo isso.”

Não acha que deve ir vê-lo?”

É a vez dela de respirar fundo.

Escuta, James, estou correndo contra o tempo.”
- Liza afirma, resoluta.
Eu queria poder ver o Will, mas eu não posso, tem toda a situação com a Jennifer e…”

Ele também está preocupado com a Jennifer.”
- Interrompo.
Com a Jennifer, com o Alex e com você. É sua família. Vocês precisam estar juntos mais do que nunca agora. Faça uma ligação, pelo menos. Mostre que se importa com ele.”

Ela pisca várias vezes, refletindo minhas palavras.
Há algum tipo de tensão entre os dois, é o que eu percebo, apesar de ela não ter mencionado nenhuma briga. É a única explicação para essa distância.
Em qualquer outro momento, um dos dois já teriam feito contato.

Vou ver o que posso fazer.”
- Ela solta, finalmente, evasiva.
Tchau, James.”

Ela não aguarda uma resposta e eu a observo mover-se pelos cômodos do apartamento, atravessando a porta do quarto, para depois atravessar a sala, e por fim, a saída.
Somente quando ouço o som da porta de madeira bater contra sua fechadura é que minha boca se abre para lançar as curtas palavras, que ficam soltas, pairando pelo ar…

Tchau, Liza.”

LIZA
Raina Atias é nossa garota.”
- Ouço a voz clara de Sidney do outro lado da linha, detectando a nota de animação crescente nela.
Eu dei uma olhada naqueles arquivos, como você pediu, e achei mensagens onde a sigla RA foi citada diversas vezes. É claro que os outros foram responsáveis pela descoberta do nome. As mensagens só serviram para confirmar nossas suspeitas.”

Seu nome não me é estranho.” - Murmuro.

Provavelmente você já o ouviu mesmo.” - Ela diz. - “Raina Atias faz parte da comissão de Direitos Humanos da Liga Árabe, por vezes foi congressista em eventos da organização. Ela é formada em História e Arqueologia, especialista em Antiguidade e mitologia egípcia, mora no Cairo com o marido e também membro da comissão Saleh Atias e a filha de cinco anos, Dalya. Trabalha secretamente para César faz muitos anos, tem acesso direto aos três principais contrabandistas de armas do Oriente Médio, faz toda a mediação entre eles, levando o pagamento e cuidando do transporte da carga.”

Como alguém assim consegue ser hipócrita ao ponto de defender os Direitos Humanos é algo que escapa à minha compreensão.”
- Digo, ácida.

Bom, isso não é tudo.”
- Sidney diz, ignorando meu comentário.
Vai haver um congresso da Liga Árabe amanhã, no próprio Cairo, onde as presenças de Raina e seu marido estão confirmadas. Como ela viaja muito e é muito difícil rastreá-la, essa é a oportunidade para pegá-la. Só preciso do seu comando para preparar o pessoal.”

A última conversa com James surge na minha mente.
Meus pensamentos se deslocam até Will e todas as suas prováveis reações ao descobrir que eu voltei.
Afasto o devaneio com um movimento.
Definitivamente, não é o momento para fazer contato com ele.

Vou estar no Cairo de manhã, bem cedo.”
- Digo, abrindo a porta do carro.
Traga quatro comigo. Os melhores. E Nicolas, separado. Você vai permanecer na Itália.”

Por que?”

Porque quero que fique no meu lugar.” - Digo. - “Cuide de tudo enquanto eu estiver fora.”