Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

29 de dez de 2015

Sentença (fúria 3ª temp) - Capítulo 24


LIZA
Os olhos de todos se voltam para mim quando eu atravesso a porta de uma das salas da sede.
A sede Vaccari não passa de um casebre se comparada à Hansson. Só foi por meio de acordos diplomáticos e muitas maletas de dinheiro que os Hansson conseguiram afastar a polícia de sua monumental sede, que é, de faxada, o escritório de alguma industria eletromecânica.
Mas como os Vaccari tem fama de serem infinitamente mais violentos e sanguinários, certos acordos foram inviáveis para nós.
Nossa sede então fica num dos andares de um prédio histórico no centro de Bari. É patrimônio tombado, o que significa que não há museus ou oficinas para serem feitas aqui, como em outros edifícios, e com tanto que ninguém saiba que esta é a sede de uma das máfias mais temidas da Europa, o governo está bem confortável em fazer vista grossa.


Caminho lentamente no cômodo decorado ao estilo século IX, até me recostar na mesa de mogno posta no centro-extremo da sala.

A maioria de vocês deve se perguntar o que eu estou fazendo aqui.”
- Declaro.

A sala permanece no mesmo silêncio sepulcral.

Eu estive com Christopher Ledoyen hoje, e ele me disse que nossos rendimentos em Túnis caíram cerca de 20%; os motivos todos já conhecem.” - Continuo. - “Não pensem que estou aqui somente pelo que aconteceu com minha filha. Eu estou por ela, sim, mas também por todos nós. Estou aqui por que isso tem que parar. Estou aqui para fazer César parar.”

Nenhuma reação.
Respiro fundo e percebo que só vou consegui-los sendo franca, e explicando toda a situação.

César financia ataques terroristas à cidade, ataques esses que foram responsáveis pela nossa queda no arrecadamento.”
- Retomo.
Ele já fez isso outras vezes, em outros lugares, com o objetivo de prejudicar o comércio de seus adversários. Se não fizermos nada para acabar com a raiz do problema, nossos rendimentos serão ainda mais afetados e podemos perder o controle da cidade.”

E qual é a raiz do problema?”
- Um deles pergunta. Olho bem para seu rosto. Suas feições latino-americanas me fazem lembrar seu nome: Juan. Há algo de ceticismo em sua voz.

Os fornecedores.”
- Afirmo.
César compra armas da mão de grandes contrabandistas do Oriente Médio. Com as armas e os explosivos ele financia os ataques. Se tirarmos seus fornecedores, ele não terá de quem comprar, seus lucros serão afetados e os terroristas não deverão mais nada a ele.”

E como vamos fazer isso?” - Carlo pergunta, num tom de voz um pouco menos áspero.

Essa é a questão.” - Respondo. - “Eu tenho um plano que é arriscado, incerto e pode matar muita gente, mas é um plano. Então, aqueles que não estiverem comigo, esse é o momento de cair fora.”

Apoio as mãos nas bordas da mesa, aguardando pelo ruído das pessoas levantando-se e abrindo a porta.
Entretanto, o que há em seguida é o silêncio.
Eu aguardo, mas ninguém sai de suas cadeiras, exceto um.
Ele se levanta bruscamente e um deles, Juan, o detém com a mão em seu braço.

Sinto muito, irmão.”
- Ele sussurra, soltando-se de seu aperto. Então, ele lança um olhar hostil na minha direção e bate a porta atrás de si.

Espero por alguns segundos até continuar...

Soube que Sidney meche com criptografia.”

Sim?”
- Ela murmura, levantando a cabeça num sobressalto.

Trouxe um pendrive com arquivos retirados do computador de César.”
- Digo, pondo o dispositivo sobre a mesa.
Talvez ele te ajude na busca.”

Que busca?”

A busca da pessoa que faz a ponte entre César e seus fornecedores. Esse é nosso objetivo, por hora.”

WILL
Apoio os braços sobre uma das prateleiras do almoxarifado, onde caixas de plástico azuis se enfileiram, identificadas por números e siglas, repletas de papéis que o departamento recusa-se a analisar.
Trata-se de uma bagunça empoeirada, silenciosa e escondida nos fundos da delegacia, e é justamente a ausência de pessoas nesse lugar que me faz vir por alguns minutos para respirar.
Fecho os olhos, tentando pôr os pensamentos em ordem.
Eles parecem gritar, num barulho ensurdecedor, agora que o exterior está mergulhado na quietude.
Minha filha foi sequestrada.
Seduzida e sequestrada por meu filho.
Filho esse que agora está comemorando seu grande feito na mansão de César Vaccari.
E eu não faço ideia de onde a Liza está em meio a tudo isso.
Penso agora que esse é o momento para um colapso nervoso, se é que vou chegar a ter um. Não há ninguém aqui. E qualquer sofrimento e definhar que eu possa passar nesse almoxarifado, vou conseguir superar no momento que atravessar a porta.
Sim, esse é o momento para lágrimas e desespero.
Depois disso, não haverá mais chances para se lamentar.

O som da porta sendo aberta puxa minha atenção para ela, e eu ergo a cabeça, olhando para a mulher que entra, contraindo meu rosto numa expressão interrogativa e ao mesmo tempo, cansada.
Miranda.
Todo o meu momento isolado e ''livre'' vai para os ares.

Se veio aqui para me dar algum sermão, sugiro que a senhora volte em outra hora.”
- Solto, num estranho misto de desdém e autodepreciação.

Por que não contou sobre ela?”
- Ela pergunta, ignorando meu comentário. Ergo uma sobrancelha e ela completa…
Sua filha. Jennifer.”

Meu coração perde um batimento.

Como sabe sobre ela?” - Pergunto, na defesa.

Conhecer as pessoas com quem trabalho é algo que eu priorizo bastante, Richmond.”
- Ela diz.
Mas pode ficar tranquilo, seus amigos são fiéis a você. Descobri isso por uma fonte que você desconhece.”

Permaneço calado e ela avança alguns passos na minha direção.

Não vou mover um dedo com relação ao sequestro dela.” - Ela continua. - “A decisão tem que partir de você. A questão é, o que pretende com tudo isso?”

O que fiz naquela sala não tem nada a ver com isso.” - Minto.

É claro que tem.” - Miranda rebate. - “Sempre é sobre ela, ou sobre sua esposa. É exatamente por isso que entrou nessa operação.”

Me mantenho calado.

Só estou dizendo para tomar cuidado.” - Ela declara. - “Não está lidando com qualquer pessoa naquela sala e essa não é qualquer operação. Você, mais do que ninguém, tem a dimensão de quantas coisas estão em jogo nisso. Não tente atrapalhar a investigação.”

Vou te entregar peças importantes nesse jogo e você acha que vou atrapalhar a investigação?” - Murmuro. - “Eu fiz essa investigação, lembra-se?”

É como eu disse, Richmond, só tome cuidado.”
- Ela solta, afastando-se.

Se acha que sou tão nocivo, porque aceitou minhas condições?”
- Lanço.
Podia não aceitar se não quisesse. Todos concordariam com você.”

Ela volta a me olhar, me medindo por segundos.
Há algo de estranho em sua expressão, é o que eu percebo. Algo como curiosidade. Uma espécie de curiosidade científica, como se eu não passasse de uma cobaia a ser analisada.

Quero ver até onde consegue chegar, Richmond.”
- Diz, por fim. Então ela volta a dirigir-se até a porta, tranquila, confortável, sem antes lançar por cima do ombro…
Seu agente estará aqui amanhã.”