Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

22 de dez de 2015

Sentença (3ª temp de fúria) - Capítulo 23

JAMES
As coisas estão ruins na Tunísia.”
- Christopher Ledoyen diz depois de soltar um longo – e até dramático, ao meu ver – suspiro, sentado num dos sofás da sala principal da sede Hansson.


Desde que assumi oficialmente o posto de chefe Hansson, fui praticamente obrigado a vir para a sede de Londres, a contra-gosto, já que por aqui fica mais difícil vigiar a Liza.
Liza.
Ela esteve fora por dias, enchendo a todos nós de preocupação, mas ontem, pela madrugada, fiquei sabendo que esteve em Atenas, incendiando a mansão de César Vaccari.
Ao lembrar do fato, a irritação cresce em mim, mas eu a descarto num gesto ao ver o olhar de Ledoyen em mim, como quem espera que eu diga alguma coisa.

Christopher Ledoyen é o responsável por fiscalizar e coletar o dinheiro proveniente das agências na Tunísia.
Algo está afetando o pleno funcionamento dos negócios por lá, o que o fez marcar essa reunião.
O líder Vaccari tecnicamente deveria estar aqui, mas como ainda não há um líder definido, eu sou o único presente.
Se ele notou essa falta, fez todo um esforço para parecer que não.

Bom...”
- Começo, sentando-me na poltrona, no lado oposto ao dele.

Então, quando eu decido que devo falar – outra decisão a contra-gosto – a porta se abre, revelando uma Liza envolta num redemoinho de energia e agilidade.

James!”
- Ela diz, naquele tom de animação equilibrada, para parecer alegre e confortável, sem soar histérica.

A porta se fecha atrás dela e Liza caminha na minha direção com um sorriso bem profissional, para depois lançar um olhar na direção de Ledoyen.

Eu deveria estar aqui mais cedo.” - Ela diz. - “Meu voo atrasou.”

Bom, deixa eu te apresentar.”
- Digo, ao ver Christopher levantar-se.
Liza, este é...”

Christopher Ledoyen.”
- Ela interrompe, lhe lançando um sorriso.
Conhecemos-nos.”

Arqueio uma sobrancelha.

Faz bastante tempo, devo confessar.” - Ledoyen se apressa em dizer. - “É um prazer revê-la, Vaccari.”

Como vai sua esposa?”

Muito bem, obrigado por perguntar.”

Então...” - Solto, após um pigarreio. - “Já que se conhecem, podemos começar a reunião.”

Nós nos sentamos.
A presença de Liza aqui só confirma minhas suspeitas. É incrível como eu sempre soube, desde que a vi no apartamento, horrorizada com o que tinha acontecido a sua filha, que ela voltaria.
Há uma série de coisas que tenho que discutir com ela, inclusive a questão do incêndio à mansão de César, mas este não é o momento.

Como eu disse antes, as coisas estão ruins na Tunísia.”
- Ledoyen retoma.
As pessoas falam até hoje do que aconteceu na Sicília. Espalhou-se um boato de que aquilo é algum tipo de ataque do governo americano e que vão matar muita gente se a imigração não parar. As pessoas estão com medo, buscando outras rotas de saída do continente, os nossos homens não querem mais arrecadar o dinheiro, nosso faturamento diminuiu em quase 20%, as coisas estão saindo de controle.”

Foi um tiro no pé ter explodido a mansão do César.”
- Liza solta. Eu a encaro, incrédulo.

Seria pior se deixássemos ele entregar a carga aos terroristas.”

Não estou dizendo que você deveria deixar a carga lá.” - Ela responde. - “É só que… bom, havia outras formas de transportá-la, não havia?”

Não no momento.” - Rebato, ácido. - “E é interessante esse comentário vindo de você.”

Ela desloca seu olhar imediatamente para Ledoyen, ignorando meu comentário.

Eu posso resolver isso.”

Sim?” - Ledoyen murmura.

César está por trás de todos esses ataques.” - Liza afirma. - “Vou fazer isso parar. Só desminta todos esses boatos e mande os homens trabalharem normalmente. Ninguém vai matar ninguém na Tunísia.”

Ledoyen solta um riso abafado, que mais parece uma forte expiração, como se estivesse aliviado em liberar o ar.

Bom...”
- Ele solta, espalmando as mãos no braço do sofá.
Sendo assim, acho que estamos resolvidos. Se me dão licença, preciso voltar para Túnis o mais rápido possível.”

Nós observamos, em silêncio, Ledoyen nos lançar um aceno de cabeça e dirigir-se até a porta, que se abre automaticamente quando ele se põe diante dela.
O silêncio dura o breve momento em que a porta se fecha.

O que acha que está fazendo?!”
- Vocifero para Liza, levantando-me num salto.

Seja mais específico, James.” - Ela murmura, imperturbável. - “Estive fazendo muitas coisas ultimamente.”

Não se faça de idiota.”
- Respondo, minha voz saindo mais controlada que antes.
O que acha que vai conseguir incendiando a mansão de César?”

Essa mansão era a que ele mais gostava.”
- Ela afirma.
César sempre teve um apego maior pelas coisas do que pelas pessoas. A mansão em Atenas era sua favorita, então, como ele me arrancou a Jennifer, eu vou começar a arrancar as coisas que ele gosta também.”

Sabe que ele pode descontar nela, não sabe?” - Digo, e pela primeira vez, eu vejo vacilação no seu rosto.

Sei.”
- Ela diz, depois de um tempo. A nota de insegurança em sua voz é algo que me causa um estranho alívio.
Mas não posso evitar. Foi-se o tempo em que eu ficava parada, esperando que as coisas melhorassem.”

Então voltou mesmo para a máfia, não foi?”

Para a sua alegria, sim.”

Não sei se me sinto tão alegre com isso.”
- Murmuro.
Mas então, posso saber o que vai fazer para resolver a situação na Tunísia?”

Primeiro...” - Ela solta, puxando o celular do bolso da calça. - “Vou ligar para Sidney.”

E o que ela faz, em seguida.
Cruzo os braços na linha do peito, observando-a encostar o quadril na mesa que anteriormente foi de Thomas Hansson, discando o número na tela.
Sidney?”
- Ela diz, com o telefone colado à orelha. Arqueio uma sobrancelha. Ela preferiu não colocar no viva-voz.
É a Liza. Reúna todo o pessoal na sede Vaccari, ainda hoje, quero ter uma palavrinha com eles. Estarei aí em 1 hora.”

Ela desliga no instante seguinte.

Então?”
- Pergunto. Ela me lança um meio sorriso.

A gente se fala depois.”
- Liza murmura, se dirigindo para a porta.
No momento certo. Há algumas questões que devem ser resolvidas primeiro.”

DIANA
A casa em Patras é bem diferente da mansão de Atenas.
Primeiramente porque é mais modesta que a última, mas não perde o charme e conforto. A sala é larga, espaçosa, e há janelas abertas com cortinas esvoaçantes por todos os lados.
Os sofás são compridos, brancos, com várias almofadas pretas espalhadas. César está sentado em um deles, com o rosto voltado para a larga porta de madeira, aberta, que dá acesso à sacada.
Passo o olhar por todo o cômodo a procura de Kvitova, mas não há sinais dela aqui.

Uma lástima o que aconteceu em Atenas.”
- Ele murmura, sem olhar para mim. Sua mão sustenta o copo com whiske até a metade. Ele balança a cabeça duas vezes, como se estivesse lamentando internamente o fato. Então ele volta a olhar para mim, e seus olhos brilham com uma luz perigosa.
Imaginei que não se importaria em ser transferida.”

Não, claro que não.” - Solto, por pensar que essa é a única coisa aceitável a se dizer no momento.

Ele pousa o copo na mesa de centro e se levanta, avançando na minha direção.
Não há nenhum capanga na sala, é o que eu acabo de notar.
Nós estamos completamente sozinhos no cômodo e eu tenho a horrível impressão de que, pela primeira vez, vou enxergar a verdadeira face desse homem.
Só a dedução disso é o suficiente para me fazer tremer.

Sabe por que acompanhei todo o processo de projeção daquela mansão?”
- Ele murmura, tão próximo a mim que posso sentir seu hálito. Sua voz sai suave, lenta e eu detecto uma sutil nota de ameaça nela.
Para fazê-la impenetrável. Indestrutível. E todo o meu esforço foi por água abaixo nessa madrugada.”

Por mais que seus olhos me assustem, eu não consigo deixar de encará-lo.
É quase uma disputa, como se ele quisesse me fazer quebrar debaixo de seu olhar.

Eu conheço aquele sistema de segurança suficientemente bem para saber que ninguém conseguiria driblá-lo.” - César continua, então acrescenta, num tom mais baixo… - “A menos que fosse alguém de dentro.”

Então, quando eu penso que ele está prestes a me matar, ou pelo menos, me machucar gravemente, ele quebra a pressão e se afasta.
Eu observo, confusa, César mover-se até um canto da sala, abrir algo como uma caixa enorme de madeira pesada.

Mas é claro que esse assunto já está resolvido...”
- Ele murmura, mergulhando a mão direita dentro da caixa;

Então, com os cabelos enrolados em torno de sua mão e pulso, César puxa o corpo de uma mulher para fora, já iniciando o estado de decomposição.
Prendo a respiração.
Apesar do rosto parcialmente desfigurado pelas manchas de sangue, as marcas de bala em sua testa e o próprio processo de decomposição, eu consigo reconhecer essa pessoa.
É a empregada que estava comigo, no jantar de ontem, que me deu informações sobre Catarine Ambrosia.
Há o horror e a culpa por tê-la envolvido nisso, por ter sido, mesmo indiretamente, responsável por sua morte, mas eu trato de apagar essas emoções do meu rosto.
O fedor se espalha por todo o cômodo; meu estômago embrulha, e meus olhos ardem pelas lágrimas que me forço a engolir.
Não aqui.
Não perante César.

Não tenho mais com que me preocupar agora, já que os traidores foram extirpados, não é, srta Belagamba?”
- Ele pergunta. Há algo sádico na curiosidade científica com a qual ele observa meu rosto, como se estivesse fascinado pelas reações provocadas em mim.

Eu solto o ar aos poucos, procurando me controlar.
É uma ameaça direta a mim, é claro. Ele não confia em mim, está observando todos os meus passos, e vai fazer o mesmo, ou até pior comigo se eu sair da linha.

É claro, Sr Vaccari.”
- Digo, me considerando merecedora de prêmio por ter mantido a voz firme e calma numa situação como essa.
Não há mais nada com o qual se preocupar.”