Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

22 de dez de 2015

Sentença (3ª temp de fúria) - Capítulo 22


DIANA
Um baque surdo na porta me desperta do sono.
Essa é a primeira vez que durmo no apartamento reservado pela Interpol, e não me sai da mente a sensação de que há câmeras espalhadas por ele, seguindo todos os meus passos.
Na verdade, desde que entrei nessa operação, venho me sentindo vigiada.
Eu só tenho a oportunidade de falar com Will uma vez por semana, e não posso negar minha ansiosidade em saber o que ele vai fazer.
Num instante, ele parecia confuso e perdido; no outro, ele me encarou com uma determinação tão grande nos olhos a ponto de me causar espanto.

Ouço uma segunda batida na porta.
Eu corro para o banheiro, destampando a descarga de porcelana. Não há motivos para alguém vir aqui, e ninguém da Interpol viria me visitar. Arranco o saco plástico que envolve a pistola.
Eu desço as escadas lentamente, agradecendo por estar descalça, sentindo o chão frio debaixo dos meus pés.
Inclino o rosto para o olho mágico, observando a um homem alto, de feições rudes, mas familiares.
Um dos capangas de César.
Enfio a pistola na parte de trás do cós do short.

Srta Belagamba?”
- É o que ele diz assim que eu abro a porta, num tom de voz muito formal.

Sim?”

Me acompanhe, por favor.”

Por que?”

O chefe quer falar com você.”

Bom” - Digo, engolindo em seco. - “Deixa eu me trocar primeiro. Entra.”

Ele faz um curto aceno de cabeça e atravessa a porta.
Eu agradeço por minha camisa ser suficientemente folgada para ocultar o volume da arma. Eu faço sinal para que ele se sente, ainda receosa, e subo as escadas.

-

Eu estou descendo as escadas do apartamento, visualizando o carro preto de vidros tão escuros que é impossível enxergar quantas pessoas estão dentro.
O capanga passa na minha frente e abre a porta do carro.
Ele bate a porta assim que me acomodo no banco traseiro, dando a volta e entrando pela porta oposta.
Além de nós dois, o único que está aqui dentro é o motorista. Não sei se devo ficar aliviada com isso.

O carro percorre a curta distância do ''meu'' apartamento até o Athens International Airport em minutos.
Nós passamos pela entrada, com suas portas giratórias e guardas plantados em seus postos, e o motorista dá uma volta por toda a extensão do aeroporto, parando em frente a uma porta de acesso restrito.
O capanga sai do carro e eu o acompanho.

Para onde estamos indo?”
- Me atrevo a perguntar. Ele não parece esboçar nenhuma reação.

Para o heliporto.” - Ele diz, sem olhar para mim - “Você foi transferida para Patras.”

Como num lugar qualquer, ele abre a porta de aço tranquilamente, abrindo espaço para que eu entre.
Atrás dela, uma imensa pista de pouso se revela, com um helicóptero parado a uma distância de mais ou menos 100 metros de mim.

Por que?”

Ele me encara.

Houve um incêndio...” - Ele pigarreia. - “Na mansão daqui, de Atenas. É a única coisa que posso dizer.”

Como?” - Não me contenho. - “Quem fez isso?”

O chefe te responderá essas perguntas.”
- Ele afirma. Então deixa escapar, num tom de voz muito mais baixo…

Ou não.”

WILL
A figura de Miranda Safroncik atravessa as portas da sala de reunião.
Sentados nas cadeiras mais próximas a mim estão Mogherini e Craven. Ela pousa uma bolsa e uma pasta em cima da mesa.

Peço perdão pelo atraso.”
- Ela diz a ninguém em particular.
Tinha muitos assuntos de última hora para resolver.”

Ninguém diz nada, mas não parecem absolutamente incomodados pela demora de Safroncik.
Lanço um longo olhar em sua direção.
Ela mantém seu cabelo habitualmente solto e seu corpo se adequa perfeitamente ao vestido de couro que ela usa.
Couro sintético, é claro.
Por mais que eu acredite que o politicamente correto não seja do feitio de Miranda, há uma certa pressão para que ela seja publicamente contra a caça e fabricação de qualquer produto que leve pele de animais.

Lanço um olhar diplomático para os outros membros da sala.

Podemos começar?” - Pergunto.

Repasso todo o discurso na minha mente.
A partir do momento que falei com Diana, algumas coisas começaram a se encaixar melhor na minha cabeça; tive que passar a madrugada inteira fazendo o material que apresentaria hoje, e por mais que eu esteja cansado, a urgência para fazer o que eu preciso fazer é grande demais para que eu me fadigue.
Aperto o botão do minúsculo controle que liga o telão.
No instante seguinte, um mapa do sudeste europeu e Norte da África estampa toda a extensão da tela.

Inicialmente, é necessário entender as relações econômicas que envolvem os dois polos Vaccari e os Hansson.” - Começo. - “Os Vaccari de Beth firmaram aliança com os Hansson logo após a morte do chefe Thomas Hansson e de praticamente toda a sua família. Ambos comandam o tráfico de imigrantes no norte da África. Eles agem mais especificamente na Tunísia, por meio de agências fantasma que prometem viagens seguras até a Europa a preços exorbitantes. O modo de transporte é igual ao que a imprensa já noticia, e há formas de parcelamento para aqueles que não conseguem pagar a taxa a vista. O problema é que, já no continente, as parcelas se multiplicam e a vítima acaba caindo num ciclo vicioso que o impede de se livrar da dívida. Daí, quando a pessoa deixa de pagar, surgem as ameaças. Depois das ameaças, sugestões de pagamentos alternativos que dependem do tipo de vítima; àqueles que tem filhas pré ou adolescentes entregam suas filhas que alimentam o tráfico de mulheres; bebês alimentam o tráfico de crianças, com os esquemas de adoção, e os homens jovens são levados para o trabalho escravo em grandes corporações.”

Pressiono o dedo sobre a superfície de um dos botões, passando a imagem.

César Vaccari deseja prejudicar a aliança Vaccari-Hansson na Tunísia, até porque uma interferência em seus negócios afetaria drasticamente os lucros e transações das máfias.”
- Continuo.
A detetive Milazzo me deu informações referentes a um jantar que aconteceu na mansão de César, em Atenas, onde questões referentes à explosão de uma carga de dinamite na Sicília foram discutidas. Tanto a mansão quanto a carga pertenciam a César Vaccari. Essa carga seria comprada por um grupo terrorista e usada num atentado contra a capital, Túnis.”

Passo novamente a imagem, e as fotos de Vera Kvitova e Rob Cavendish estampam, lado a lado, sobre a tela.

Esses eram os membros da reunião.”
- Digo.
Vera Kvitova, uma das amantes de César Vaccari, uma famosa assassina de aluguel que mata sem deixar vestígios...”

Não é aquela que matou um comandante do exército russo?”
- Craven pergunta.

Sim.” - Mogherini responde, movendo-se na cadeira. - “Nós já desconfiávamos de suas ligações com César Vaccari, mas agora temos a confirmação.”

O mais importante, nesse exato momento, é o segundo nome.”
- Digo.
Rob Cavendish é oficialmente o advogado de César Vaccari, mas na verdade funciona como uma espécie de mediador entre César e seus compradores.”

Seu nome não me é estranho, mas a única coisa que sabemos dele é que já trabalhou como promotor.”
- Mogherini solta.

É trabalho da Interpol capturá-lo.”
- Miranda se manifesta, pela primeira vez desde que eu comecei a falar.
Se ele é o mediador entre essas negociações, ele é uma peça chave para a operação. Através dele podemos conseguir informações úteis não só sobre a máfia mas suas áreas de atuação.”

Concordo com Safroncik.”
- Digo.
Ele também possui informações sobre os grupos terroristas que se tornaram clientes de César. Informações valiosas, a níveis globais.”

Precisamos de mais informações para capturá-lo.” - Mogherini solta. - “Não sabemos quem ele é ou onde está, e embora esclarecedoras, as informações que Richmond nos deu são insuficientes para que possamos fazer qualquer coisa.”

Isso não é problema.”
- Digo, esboçando um preguiçoso sorriso enviesado.
Posso conseguir as informações que precisar, Mogherini, mas antes, preciso estabelecer condições.”
Todos os olhares da sala se fixam em mim bruscamente.

Tudo tem o seu preço, senhores.”
- Continuo, imperturbável.
E será inviável conseguir qualquer coisa se eu não participar da captura de Cavendish, ou melhor, comandar a captura de Cavendish.”

Há um murmúrio de protesto se espalhando no ambiente.

Não sabia que queria ir para o campo, Richmond.” - Craven solta acidamente.

Sempre fui um policial de campo, Craven.” - Digo. - “É bom voltar ao ofício.”

Não temos que firmar nenhum acordo com você.”
- Mogherini dispara.

Não está enxergando com clareza, agente.”
- Afirmo, suave e nitidamente.
Necessita de mim.”

Seu rosto fica lívido de fúria.

O que você está tentando fa...”

Eu vou comandar a operação de captura de Rob Cavendish.”
- Afirmo, e minha voz agora sai em tom de comando.
E não somente isso, mas também vou escolher os policiais que vão comigo. Se não concordarem, estejam dispostos a trabalhar longa e arduamente para conseguir fazer algo que sem minha ajuda, será muito mais difícil.”

Eles se calam.
Eu me sento e recosto-me na cadeira, saboreando o momento de silêncio e sobressalto da parte deles.
É aqui onde a operação começa de verdade.

Certo.”
- Miranda solta, com a voz tão serena que forma um contraste gritante no ambiente.
Terá o que deseja. Mas também tenho minhas condições.”

Todos se mantém muito quietos em suas cadeiras, como se o simples ato de respirar estragasse o momento.

Sim?” - Murmuro, dirigindo meu olhar a ela.

Um dos membros de sua equipe será um agente da Interpol.”
- Ela diz.
E eu vou escolher qual.”

Será um espião, é claro.
Enquanto observo fixamente seu rosto, imagino um robô perfeitamente programado por Safroncik, pronto para me matar, ou matar-se num comando dela.
Por mais que isso dificulte minhas futuras ações, há algumas ofertas que não se pode recusar.
Então, com o sorriso mais expansivo e diplomático que posso esboçar, inclino-me em sua direção e digo…

Feito.”