Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

22 de dez de 2015

Sentença (3ª temp de fúria) - Capítulo 21


LIZA
É maravilhoso que eu tenha trazido uma pessoa comigo, é o que eu penso, enquanto derramo a gasolina por toda a extensão de um dos andares.
Do contrário, todo o trabalho de incendiar a mansão de César Vaccari seria muito fastidioso.
A casa possui muitos andares, e toda a sua arquitetura foi projetada para evitar que incêndios ou explosões se alastrem por toda sua extensão; essa foi uma das causas pelas quais se explica a necessidade de César acompanhar todo o processo de construção, desde a planta até a execução. É como se ele soubesse que um momento como esse chegaria. Maldito homem.
Nós formamos uma espécie de trilha que surge no salão principal, próximo às cortinas, e divide-se, serpenteando para a biblioteca e para a escada que dá acesso aos outros pisos. Acendendo o fósforo, é uma questão de segundos para que o fogo se espalhe por toda a casa.


É o último andar, não é?”
- Edward pergunta, atrás de mim, com uma nota de cansaço na voz. Eu sou incapaz de olhá-lo; a visão do quarto de César Vaccari toma toda a minha atenção.

Esse quarto é maior que aquela casa que você foi morar quando decidiu que ia ser uma moça direita.” - Ele diz, caminhando a passos lentos pelo cômodo. - “Eu nunca entendi porque você tinha que se submeter àquilo, sendo rica do jeito que é.”

Fazia parte do disfarce.”
- Solto, evasiva.

A questão pelo qual eu escolhi uma casa modesta ao invés de uma cobertura ou uma mansão moderna tem por motivos coisas que Edward nunca entenderia.
Eu queria uma vida nova, uma família nova.
Tinha passado a vida inteira estando em lugares grandes demais.

Bom...”
- Ele murmura, levantando o barrilete de gasolina.
Quer levar alguma coisa daqui ou posso terminar o serviço?”

Eu reflito a pergunta por um instante.
Eu quero levar algo? Eu quero revistar o quarto desse homem que eu tanto odeio?
Talvez eu encontrasse algo sobre a Jennifer. Talvez um passaporte, uma anotação ou qualquer pista que me envie para o local onde ela possa ter sido levada, mas eu percebo que isso não importa agora.
Não que não importe o paradeiro da minha filha, é claro que não. Encontrá-la é o que eu mais quero.
É que por alguma razão eu não sinto a mínima vontade de me manter nesse lugar por mais tempo, e eu só consigo imaginar as chamas engolindo este quarto, reduzindo-o à cinzas, fazendo-o desaparecer.

Termine com isso.”
- É o que eu digo; ele faz um sinal afirmativo com a cabeça.

Meus pés movem-se rapidamente pela escadaria, e no minuto seguinte eu me vejo do lado de fora da casa, contemplando a noite.
Foi um grande erro pensar que poderia escapar disso.
Há algo de muito comum entre eu e César Vaccari;
Nós não gostamos de negócios inacabados.
Nós abrimos um ciclo, e devemos fechá-lo.

Tudo pronto.”
- É o que Edward diz assim que aparece na porta. Ele solta o galão no chão e completa, passando por mim…
Sinta-se a vontade para desfrutar.”
Passo um último olhar nos corpos estendidos no chão.
Minha mão puxa o esqueiro do bolso, me aproximando de uma das enormes portas.
Lanço o esqueiro acesso no início da trilha, observando o fogo se alastrar em segundos.
A chama cresce e lambe a cortina, desfazendo o fino tecido.
Eu voltei, César.
Pela última vez.

WILL
Não sei se César ainda está com ele, os empregados foram dispensados logo depois do jantar.”
- Diana explica. O tom de preocupação ainda está em sua voz.
Já falou com a Liza? Talvez ela pode saber de alguma coisa e...”

Ninguém sabe nada ainda.”
- Interrompo.
Só que a Jennifer sumiu e que o meu filho está envolvido nisso.”

Ela se cala, como se estivesse pesando o que eu falei.
Eu me forço a me manter quieto, a por os pensamentos no lugar e não dar espaço ao desespero.

Vai falar sobre Alex na reunião?” - Ela pergunta, minutos depois.

A reunião com a Interpol é amanhã.
É a partir do momento que Diana me faz lembrar disso, eu percebo que estou mantendo toda essa situação com a Jennifer longe do acordo, mesmo inconscientemente. Eu não quero que a Interpol, Craven ou Safroncik descubram. É pessoal demais para que eles interfiram nisso.

Não.”
- Respondo.
E nem você. Tudo o que descobrir sobre ele ficará entre nós.”

Ela se mantém calada, como se esperasse que eu dissesse mais alguma coisa.
Então, de repente, em algum lugar retorcido da minha mente, as palavras começam a fluir; minha voz sai clara, limpa, firme.

Não soa como eu, na maior parte, mas como alguma parte muito fria e metódica de mim mesmo.
Podia ser a Rachael dizendo isso.
Ela provavelmente agiria assim numa situação como essa…

Você vai fazer uma ficha com os nomes de todas as pessoas mais próximas a César Vaccari e que possivelmente poderiam saber sobre o paradeiro da Jennifer.” - Digo. - “Quero pelo menos dois nomes agora. Esses serão os únicos nomes que eu vou revelar para a Interpol.”

O que você vai fazer, Will?”
Você vai saber.” - Respondo, puxando um pedaço de papel proveniente do bloco de folhas pousado sobre comprida mesa. - “Vamos, os nomes.”

Ela hesita.
Há um misto de preocupação e surpresa em seu rosto, mas consigo captar um brilho de expectativa em seus olhos.
Por maior que seja sua sensatez, a curiosidade em saber até onde eu vou é maior.

Eu já citei esses nomes antes, em realidade.” - Ela diz. - “Mas não há nenhum problema em citá-los de novo.”

O primeiro é Vera Kvitova.”
- Solta. Anoto rapidamente no papel e minha letra sai rabiscada, nervosa.
O segundo, é Rob Cavendish.”