Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

22 de dez de 2015

Sentença (3ª temp de fúria) - Capítulo 20


WILL
Não consigo parar de andar de um lado a outro na sala de reuniões.
Desde a ligação de James Hansson, eu venho fazendo todos os esforços possíveis para firmar contato com Diana. Hoje seria a sua ''folga'', em que ela poderia voltar para o apartamento.
Observo o telão ligado, única fonte de iluminação na sala escura, fixado no centro da parede.
Ela já deveria ter aparecido.


Eu me sento numa das cadeiras e repito para mim mesmo que devo me acalmar. Não tive tempo de falar com a Liza, mas Hansson me garantiu de que está cuidando dela.
Esfrego as mãos suadas na roupa, como se eu pudesse liberar meu nervosismo através delas.
Além da preocupação com o paradeiro da Jennifer, há também o risco de uma reação da Liza. Contatar Diana parece ser a decisão mais sensata agora, já que ela está mais próxima do César do que todos nós.
É claro que a Liza sabe que é ele o responsável por tudo isso. A questão é que uma reação sua pode deixá-la perigosamente próxima da posição de chefe.

Will, consegue me ouvir?”
- A voz de Diana e seu rosto surgem no telão. Me levanto da cadeira num salto.

Consigo sim, Diana.” - Digo. A imagem parece ter ficado nítida para ela, porque sua expressão muda da concentração para a apreensão.

Você parece péssimo.”
- É o que ela diz, com o cenho franzido.

É a segunda vez que ouço essa frase. O dia realmente não está nada fácil.
Bom, acho que devo ir direto ao ponto e entregar as informações.”
- Ela diz.
Apesar de estar no apartamento escolhido pela Interpol, não consigo me sentir segura aqui. Quanto mais cedo terminarmos, melhor.”

Eu me forço a permanecer calado.

Está comprovada a ligação de César com Vera Kvitova.” - Ela começa. - “Ela está vivendo em sua mansão aqui em Atenas. Você deve apresentar dois nomes na reunião com Safroncik: Catarine Ambrosia e Rob Cavendish. A primeira, tive a informação de que é filha do primeiro ministro da Grécia, o que pode levar a descoberta de algum esquema de alianças entre César e o governo grego. Rob Cavendish é o advogado de César, teve uma conversa com ele em que falava alguma coisa relacionada a algum tipo de acerto de contas com os árabes. Tenho a impressão de que isso tenha ligação com a explosão na Sicília, mas só Mogherini pode provar...”

Sabe alguma coisa sobre a Jennifer?” - Solto. Ela parece ponderar minha pergunta.

Por que está perguntando isso?”

Porque ela foi sequestrada hoje, pela manhã.” - Digo. - “E eu tenho certeza de que o César está por trás disso.”

Eu observo toda a mudança de expressão que se passa no rosto de Diana enquanto ela processa a informação.
Há a confusão, a preocupação, o reconhecimento…
E o assombro.
Ela sussurra algo inaudível, olha para mim com os olhos muito abertos e diz…

Eu não contei uma coisa, Will.”
- Sua voz sai lenta e suave, como se estivesse me preparando para uma notícia muito ruim.
Havia uma terceira pessoa nessa reunião. César disse que queria homenageá-la e que o jantar seria feito para ela e…”

Fala logo, Diana.”

Era o seu filho.”
- Ela diz, com um irritante olhar de pena.
Alex. Ele está vivo e está na mansão de César Vaccari.”

LIZA
Puxo o tecido do capuz para frente, enquanto me posiciono próxima ao imenso muro de proteção que cerca os fundos da mansão de César Vaccari.
É início de madrugada e acabou de chover fraco, o que significa que minhas roupas estão salpicadas de água.
Há musgo e pontos de grama alta nos cantos dos muros e eu tive que aproveitar a troca de guardas para entrar no condomínio.

O sistema de segurança acabou de ser desligado.”
- Edward diz, no fone. Assim que todo o pagamento foi acertado, eu lhe passei todos os detalhes de tudo o que eu precisava para isso.
Tem que ser uma ação rápida, o que significa que erros são inaceitáveis.

Minha mente divaga, num intervalo muito curto de tempo, sob a lembrança de Lauren, que diferente do irmão, abraçou a máfia Hansson como uma família, uma aliança de sangue. Os Black possuem um certo parentesco com os Hansson, mas parece que a única que sentiu a obrigação de se manter fiel ao clã-máter foi ela.
Para Edward, todos esses laços de família e fidelidade às suas respectivas máfias não passam de besteiras hipócritas. Nós nos matamos quando convém, independente do grau de parentesco que compartilhamos. O que está em jogo não são laços emocionais e não há qualquer tipo de genuína consideração entre nós. São só negócios; e se é só o dinheiro que conta, porque se manter preso a um lado só?

Me faça um mapa da área.”
- Solto para ele. Posso ouvir sua respiração ritmada na linha.

Tem dois homens perto da porta.” - Ele diz. - “Estão armados com pistolas. Tem um terceiro dentro da casa, não sei como ele está armado e também não sei se há outros além dele.”

Abro a abarrotada mochila, puxando a longa corda presa a uma espécie de âncora.
O peso da corda dificulta meu trabalho de erguê-la e fixar o gancho no topo do muro. Testo várias vezes antes de me projetar para cima, pressionando meus pés na parede.
O muro é de pouco mais de 3 metros e eu não demoro mais que quatro minutos para escalá-lo, com a ajuda da corda.
Me preparo para saltá-lo, me mantendo equilibrada em seu topo.
Libero o ar pela boca e pulo, sentindo o impacto dos meus pés do solo me projetar para frente.
A dor aguda surge no meu tornozelo direito e eu aguardo, quieta, até que ela passe.

Tá tudo bem aí?” - Ouço a voz de Edward. - “Se machucou?”

Não.”
- Respondo, me sentindo aliviada em perceber que não sofri nenhuma torção.
A dor diminui gradativamente e eu movo o pé em círculos, me pondo de pé aos poucos.

Eu fiz todo o trabalho de evitar que James descobrisse o que eu estava prestes a fazer antes que eu viesse. É claro que ele não iria aprovar, e provavelmente tentaria me dissuadir da ideia. O que eu vou fazer é ruidoso, arriscado, e para James, é loucura.
Encaixo o silenciador no cano da pistola.
Meus pés avançam sobre a grama molhada, e a terra fofa abaixo de mim absorve o ruído dos meus sapatos. Conforme eu me aproximo das paredes da mansão, a grama é, aos poucos, substituída pelo chão de pedra.

Um deles vem na sua direção, à direita.” - A voz de Edward soa novamente no fone.
Me desloco para o extremo oposto de onde estou, mantendo a arma firmemente em punho.
O barulho suave proveniente do corredor à minha frente se assemelha a sapatos batendo contra o chão, numa sequência de passos um pouco mais lentos que o normal.
Eu os conto. Um, dois, três, quatro...
No quinto passo, eu me viro bruscamente e atiro.
A bala atravessa seu peito e eu corro para evitar que o impacto de seu corpo no chão faça barulho. Há um outro capanga de prontidão no corredor seguinte.
Confiro seu pulso, por precaução. Morto.

Bela mira.”
- Edward diz, com uma nota clara de humor na voz.
Pelo que eu estou vendo, o outro ainda não percebeu nada.”

Edward está na cobertura de um prédio alto, há menos de 1 km daqui, pronto para agir assim que eu entrar na casa. Há um binóculo, sua arma e alguns equipamentos em sua mão, e ele está lá justamente para me dar cobertura.
Caminho lentamente sobre o corredor, tentando fazer o menor barulho possível. Uma das colunas situadas na entrada da mansão entra parcialmente no meu campo de visão, assim como o outro capanga, de costas para mim.
Não deixo de esboçar um sorriso enviesado.
No instante seguinte, duas das minhas balas atingem, à queima-roupa, áreas diferentes de seu tronco.

Cheque.” - Edward solta, assim que seu corpo desaba no chão. - “Posso descer?”

Deve.” - Digo, puxando uma minúscula caixa preta do meu bolso.

O trinco da porta de César é destravado através da digital de alguém autorizado. Puxo a película cuidadosamente da superfície de papel, pressionando-a sobre o polegar do capanga morto.
Não demora dois segundos até que a digital seja lida e minha passagem liberada.
As luzes no interior da mansão estão acesas, mas está tudo tão silencioso que não há indício de presença humana. Eu empurro a porta – que percebo ser mais pesada do que imaginei – com o pé e mantenho a arma em punho, apontando-a para todos os lados.
O piso do saguão é a moda antiga e o imenso vaso persa ajuda nos ares de Antiguidade que a mansão remete. Os andares somam-se numa espécie de corredores em espiral, subindo até o teto alto.
À minha esquerda, o som de sapatos ecoa atrás da porta parcialmente translúcida, de um material que lembra vidro.
A silhueta de uma mulher de estatura média ganha forma enquanto ela se aproxima, girando a maçaneta. O cano da minha pistola é mirado na altura de seu rosto.

Eu não já disse que não queria ninguém mais aqui dentro além do Tom?! Por que você não...”
- Ela diz, e para abruptamente ao me ver, seus olhos tão arregalados que quase vejo toda a extensão de sua esclera.

Ela fica imóvel, muda, com as mãos erguidas. Eu pressiono o indicador em meus lábios, fazendo sinal de silêncio.

Onde está o outro?” - Pergunto, quase sussurrando.

Com ''outro'', eu me refiro ao terceiro capanga que entrou na casa; ela parece entender o que eu quero dizer, porque fala, com a voz trêmula…

No escritório depois da biblioteca.”

Tem mais alguém com ele?”

Ela balança a cabeça num gesto afirmativo.

O cara que cuida dos alarmes, sensores...” - Completa.

Só agora noto suas roupas.
Deve ser uma das empregadas e aparenta ser de meia idade, o que me faz poupar sua vida.
É claro que também se deve ao fato de que ela provavelmente dará a notícia ao César e a ideia de lhe mandar um recado pessoal é irresistível demais para ser ignorada.

Diga a seu patrão que Liza Vaccari lhe fez uma visita.”
- Digo.
Tenho certeza que ele estava com saudades de mim.”

Ela corre para fora da mansão no instante seguinte.
Eu abro a porta semi-transparente que, percebo eu, dá direto na imensa biblioteca da mansão. No centro, pousada sobre o tapete, uma pequena mesinha estampa desenhos cuidadosamente esculpidos na madeira, onde um tabuleiro de porcelana tem seu rei caído, a rainha e duas torres em posição de cheque-mate. As peças foram cuidadosamente arrumadas para permanecerem no lugar onde estão, e a porcelana parece tão rara e delicada quanto a que compõe o vaso persa posto no salão de entrada.
Quase sorrio.
É um pouco revelador o fato de César ter usado um jogo de xadrez como decoração, principalmente com as peças dispostas dessa forma.

Há uma outra porta situada ao norte da biblioteca, na mesma linha em que a porta anterior está posta. Eu me posiciono encostada na parede ao lado e ergo a mão esquerda, fechada em punho…
Dois toques. Suaves.
É o suficiente para ouvir passos em minha direção.

Regina?” - Uma voz masculina surge alguns segundos depois. - “Por que você...”

Mas não há tempo para que ele complete a frase.
Minha bala atinge sua cabeça e o som de seu corpo sendo atingido, ou minha entrada repentina na sala faz com que o homem robusto atrás da mesa se levante num sobressalto, com as mãos para cima.
Ele não está armado, é o que eu percebo.
Um alívio constatar isso.

Aqui, no meio, ajoelha.”
- Ordeno, apontando para um ponto a dois passos de mim. Minha voz sai assustadoramente calma, e ele reveza seu olhar entre mim e a pistola apontada para ele. Não demora nada para que ele execute meu comando.

Tá bom, calma, calma, não tem porque alguém se machucar aqui...”
- É o que ele balbucia enquanto finca os joelhos no chão.

Sabe, eu concordo com você nesse ponto.”
- Começo.
Realmente, não tem porque alguém se machucar aqui, afinal de contas, só estou atrás de informações. Se eu tê-las, eu vou embora. Simples assim.”

Quem é você?”

Liza Vaccari, prazer.” - Digo, e posso ler a reação em seu rosto. - “Pelo visto, já me conhece.”

Não! Quer dizer… Nunca a vi, senhora, eu só...”

Só ouviu o seu patrão falar de mim, não é?”
- Completo. Ele se cala.
Será que também já ouviu ele falar de Jennifer Vaccari?”

Ele permanece calado, mas percebo que não é por ignorância.

Aproximo o cano da pistola em seu rosto.

Eu…”
- Ele hesita.
Eu, eu já ouvi falar nesse nome sim, senhora. Mas não sei quem é a pessoa.”

O que você ouviu sobre ela?”

Nada.”

Está mentindo.”

Não, não, juro que não estou, senhora.” - Ele gagueja. - “Eu só trabalho na segurança, não tenho relações com o senhor Vaccari.”

Então o que está fazendo no escritório dele?”

Não é o escritório dele.”
- Ele se apressa em dizer. Arqueio uma sobrancelha.
Quer dizer… não totalmente. Esse é um dos, mas ele quase nunca fica aqui, então o acesso é liberado.”

Para todos os funcionários?”

Ele para, desvia o olhar e se mantém quieto por segundos.

Não, mas isso não significa muita coisa.”
- Ele volta a dizer, e sua voz soa mais firme agora.
Eu sou um hacker, tá bom?! Ele me deixa ficar aqui porque eu cuido de algumas coisas para ele, mas eu não sei quem é essa tal de Jennifer!”

Você não deve ter ouvido o nome dela solto, então vou perguntar mais uma vez...” - Sibilo, pausadamente. - “O que você ouviu sobre ela?”

Não muita coisa.” - Solta. - “Só fragmentos, algo sobre um tal de Alex ter terminado o serviço e...”

Ouvir a palavra ''Alex'' me causa um intenso mau-estar, como se algo estivesse revirando meu estômago.
Mesmo assim, eu me mantenho firme e pergunto…

O que tem naquele computador?”
- Indico com a cabeça o monitor pousado sobre o tampo de vidro.

Arquivos.” - Diz. - “A maioria estão criptografados.”

Levante.”
- Ordeno.
Sente naquela cadeira.”

Ele me obedece prontamente e eu puxo o pendrive do bolso lateral.

Você vai passar todos esses arquivos para esse pendrive.”
- Digo, pousando o pequeno objeto sobre a mesa.
Você tem todo o tempo até meu amigo chegar. Se ele aparecer por essa porta e você não estiver com tudo pronto, eu te mato.”

Ele hesita. Olho para o relógio.

Ele deve chegar em...” - Murmuro. - “Cinquenta segundos.”

Suas mãos então movem-se com rapidez entre pegar o pendrive e digitar coisas no computador.
Eu observo ele agir, nervoso, quase desesperado, e eu me entretenho em observar a gota de suor que escorre de sua testa.

Está em 75%.”
- Solta, apressado. Ouço o som remoto de passos.

Liza?”
- A voz de Edward soa no fim do corredor. Posso sentir o sobressalto do homem a minha frente.

Quanto tempo para que ele esteja aqui?” - Lanço. - “4, 5 segundos?”

82%.” - Diz.

O som dos passos de Edward se tornam cada vez mais próximos.

Seu tempo está acabando...”

89%.”

No escritório depois da biblioteca!” - Grito para Edward.

93%.”

Dez, nove, oito...” - Começo a contar.

95%.”

Sete, seis, cinco, quatro...”

97%!”

Três, dois, um...”

Ouço o som da maçaneta girando.

Acabou seu tempo.”

ESPERA! TÁ AQUI, AQUI!”
- Ele grita, puxando abruptamente o pendrive da porta USB.
Todos os arquivos estão aqui, do jeito que você queria!”

Movo o dedo para fora do gatilho, segurando o pendrive com a mão esquerda.
Ele respira, aliviado e Edward diz, atrás de mim, com o seu habitual tom despreocupado…

Parece que você fez um certo estrago aqui.”

Observo o moço sentado do outro lado da mesa.
Ele acabou de me passar arquivos confidenciais de César Vaccari, o que é inadmissível, sob hipótese alguma.
Seria muito mais piedoso um fim agora do que nas mãos dele.

Olho para Edward.

Nem de perto comparado ao estrago que está por vir.” - Solto.

Em seguida, disparo duas vezes contra o garoto da mesa, atingindo sua barriga em cheio e espalhando uma quantidade considerável de sangue na cadeira; o sangue fresco salpica a mesa e até mesmo a parede branca atrás dele.
Ele deveria estar com algum problema de saúde, é o que penso quando olho para seu corpo.
A quantidade de sangue e a pressão com que ele saiu é excessiva demais para ser normal.

Edward simplesmente encolhe os ombros, indiferente, e diz…

Eu trouxe a gasolina.”