Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

3 de dez de 2015

Sentença (3ª temp de fúria) - Capítulo 19


LIZA
A moça que estava na cama de Edward sai do banheiro, já vestida, e passa por mim como uma flecha.
Ele espera ouvir o barulho da porta batendo para falar comigo, enquanto ajeita a calça de moletom na cintura.


Olha, eu não esperava você por aqui.”
- Ele diz, ainda com o mesmo ar de diversão. Edward é o tipo de peça que transitava pelos dois polos. Ele trabalhava para os Hansson ou para os Vaccari quando a situação lhe convinha. Sua lealdade depende do quanto você paga por ela, simples assim. Não há laços emocionais ou de sangue, somente negócios.
Ouvi dizer que você não queria mais saber dessa vida.”

É, por um tempo eu pensei dessa forma.” - Digo.

E por que mudou de ideia?”

Porque o momento exige.”

Vai assumir a chefia, então.” - Ele solta, como uma afirmação e não uma pergunta. Decido que não preciso dizer nada.

Edward desce as escadas e se joga num dos sofás após afastar as cortinas. O cômodo fica prodigiosamente iluminado, o qual agradeço internamente.
Olho ao redor. É uma casa muito simples para o que ele está acostumado.

Por que está morando aqui?” - Pergunto, sentando-me no sofá a sua frente.

Tive que me esconder.”
- Diz.
Aconteceu uns imprevistos e tinha gente querendo me matar, na verdade é uma surpresa um tanto preocupante que você tenha me achado tão rápido.”

Não precisa se preocupar.”
- Digo.
Você está bem escondido. É só que eu sou um pouco mais informada que a maioria das pessoas.”

Então, madame” - Ele solta, com uma ponta de escárnio na voz. - “Necessita dos meus serviços?”

Quero que você arrume uma forma de me por no primeiro navio que vá para a Grécia ainda hoje.”
- Digo.
Tudo deve ser feito com discrição, ninguém pode saber para onde estou indo.”

Por que a Grécia?” - Ele pergunta, com uma sobrancelha arqueada.

Você vai saber.” - Digo. - “Não precisa se preocupar com o pagamento.”

Não quero o pagamento em dinheiro dessa vez.”
- Ele diz.
Quero apenas que você mate quem está tentando me matar.”

Aceno a cabeça em concordância.

Eu vou estar aqui daqui a 2 horas.”
- Solto.
Esteja com tudo pronto.”

DIANA
César está sentado numa das enormes poltronas de design moderno situadas em sua sala de estar. Ele abre os braços despreocupadamente e encosta as costas no forro, enquanto seus olhos pousam em Kvitova, que desce a escada numa espécie de macacão preto, de mangas compridas e decote profundo, de tecido esvoaçante.
Seus cabelos estão presos num coque baixo e desfiado, acentuando ainda mais seu rosto magro. O batom vermelho realça o verde dos seus olhos e ela aqui não parece nem frágil, nem sutil, como normalmente faz parecer aos seus alvos.
Foi um ato de grande esforço, um esforço quase sobre-humano para fingir que o nome de Arjean naquela lista não me causava nenhum efeito.
Dois anos após eu ter me casado com ele, descobri uma espécie de estúdio situado no subsolo de uma agência de produção de eventos. Era uma agência fantasma, usada para esconder o estúdio que produzia quantidades imensas de dinheiro falso. Arjean é conhecido no mercado pelo bom trabalho que faz na falsificação das notas; Ele falsifica moedas fracas, faz transações em seus respectivos países e troca por moedas fortes, como dólar, euro e libra. As pessoas responsáveis por fazer a negociação são sempre naturais do país, sem antecedentes criminais ou qualquer coisa que possa fazer desconfiar os negociadores.
Como são grandes quantidades em dinheiro, os “peões”, como ele chama, aparecem sempre como empresários ricos. Quando a transação é feita, a pessoa desaparece e todos os arquivos sobre ela são apagados.

Observo, de longe, toda a cena entre César e Kvitova se desenrolar, e me pergunto se há algum tipo de laço emocional da parte dela, se em algum momento Vera se permitiu estender essa relação além dos níveis profissionais.

Não tem que ficar aqui se não quiser.”
- Uma das empregadas me diz, acomodando-se ao meu lado.
O senhor César gosta de receber suas visitas pessoalmente, então não vai precisar ter que recepcionar os convidados.”

O que a faz pensar que não quero ficar aqui?”
- Lanço de volta. Ela me dirige um sorriso torto.

Está com a expressão de alguém que está prestes a se jogar de um penhasco.”

Retribuo o sorriso, observando-a com mais atenção.
Ela parece muito mais velha do que a maioria das pessoas aqui, com os cabelos quase que completamente brancos, linhas na testa e rugas nos olhos e no canto da boca.
Seu olhar é de alguém que já viu tanta coisa que tornou-se indiferente a várias delas. É como se ela soubesse que seu patrão não é nenhum tipo de criatura inofensiva e decente, mas tivesse deixado de se importar há muito tempo.
Não se tornou amarga, entretanto. Tenho a impressão de que seu sorriso seja mais jovial que o meu.

E lá vamos nós...” - Ela sussurra, e meus olhos voam diretamente para a porta.

Enquanto um dos homens postos na entrada seguram a porta aberta, a grega Catarine Ambrosia se faz passar pela sala, abrindo um sorriso ao ouvir a exclamação animada de Kvitova. As duas – que percebo serem quase da mesma altura – se abraçam, seguido do cumprimento gentil de César.
Ela soa muito mais jovem que qualquer um dos dois, ou mais ainda do que eu, com as ondas de cabelo castanho-escuro pousando em seus ombros e feições delicadas.
Por mais que eu me sinta mau em por a empregada no meio desse jogo, não deixo de me virar para ela e perguntar…

Quem é Catarine Ambrosia?”

Filha do primeiro ministro.” - Ela diz alegremente, e eu começo a notar seu gosto pela fofoca. - “Dizem que não passa de uma marionete na mão do pai, mas não posso deixar de pensar que a subestimam demais.”

Por que?”

Porque ela é uma moça inteligente.” - Diz. - “Dá pra perceber isso na forma como ela se porta. Ela não confia em nenhum deles aqui, por mais que pareça o contrário. Não acho que uma pessoa assim seja uma marionete.”

Os convidados parecem ter vindo juntos, porque Rob Cavendish é o próximo a entrar, cumprimentando César com um forte aperto de mão e tapinhas nos ombros.
Cavendish é basicamente o advogado oficial de César Vaccari, sendo o único de suas amizades que ele apresenta publicamente. Cavendish é responsável por fiscalizar todos os negócios e transações dele nos lugares fora da Grécia e a vinda dele até a mansão é um sinal de que há pendências entre os dois.

Seguro a respiração ao ver a sombra de Arjean pairar pela porta.

Numa reação automática, o meu corpo inteiro se enrijece quando ele entra na sala, e meus sentidos se tornam muito mais aguçados para perceber as reações dos presentes à sua chegada.
Há um momento de dois segundos em que ele fixa seu olhar em mim e a preocupação toma conta do seu rosto. Mas então ele decide prestar atenção em alguma coisa que Vera diz e o momento evapora.
Por maior que seja minha vontade, não posso me virar e ir embora, porque a empregada perceberia minha repentina mudança de comportamento.
Também não posso olhar muito para ele, nem evitar seu olhar o tempo inteiro, porque ela perceberia da mesma forma.
Solto o ar pausadamente, forçando-me a organizar meus pensamentos.
Controle-se, é o que digo para mim mesma.

É obvio que todas as informações que eu captar nessa reunião deverão ser ditas a Will, mas penso se seria justo entregar Arjean também. Ele poderia me entregar para César agora mesmo, ou até antes de eu entrar nessa casa. A omissão dele quanto ao que eu faço aqui dentro me faz sentir quase que a obrigação de retribuir a omissão quanto ao que ele faz.
A sensação de estar em dívida com alguém já não é muito agradável; quando esse alguém é Arjean Jacquard, torna-se pior ainda.

Já está tudo certo.”
- Ouço a frase que Cavendish deixa escapar, num tom de voz um pouco mais alto que todas as outras coisas que ele disse a César Vaccari antes disso. César concorda com a cabeça e ele continua:
Os árabes não vão incomodar mais. O prejuízo foi quitado e…”

Esse é o único fragmento da conversa que consigo ouvir em meio a todas as outras vozes.
Arjean, Kvitova e Ambrosia conversam sentados, espalhados nos sofás da sala.
A porta então se abre e um homem de feições surpreendentemente familiares captura a atenção de todos os outros. César abre um sorriso e caminha até ele, enquanto os membros da reunião observam a cena, em silêncio.
Os dois se abraçam, e eu noto, com espanto, a estranha semelhança física entre os dois.
É como se o homem que acabou de entrar fosse uma versão mais nova do próprio César. Os mesmos olhos negros e cabelo castanho-escuro.

Senhores.”
- César diz, referindo-se aos outros presentes na sala.

Há algo na sua forma de sorrir que não pertence a César, mas me soa familiar mesmo assim.
A forma como as rugas se formam no canto de sua boca me lembra a forma como Will sorri.
Começo a ter um péssimo pressentimento.

Gostaria de lhes apresentar a pessoa que mais me tem dado alegrias nesses últimos tempos...”
- César continua, revesando seu olhar entre o homem ao seu lado e as outras pessoas na sala.
O meu protegido, Alex Vaccari.”

Alex.
O nome do filho desaparecido de Will.
Só a constatação de sua identidade me deixa doente demais para permanecer por mais tempo na sala.

Aproveito o momento de distração geral para me afastar.
Meus pés percorrem todo o transcurso até a saída dos fundos com rapidez, enquanto eu fico ofegante, tonta, enojada com que acabo de descobrir.
Agradeço internamente pelo vento que refresca meu rosto quando me lanço até o jardim da mansão, caso contrário, estava prestes a vomitar. Ou desmaiar.
O filho de Will está na mansão de César Vaccari.
Como vou dar essa notícia a ele?

Diana.”

A voz de Arjean enche a noite e eu me viro bruscamente em sua direção num sobressalto.
Ele caminha na minha direção e eu vocifero...

O que faz aqui?!”

Eu é quem pergunto.” - Ele diz. - “Pelo visto não ouviu nada do que eu disse.”

Fico calada.

Você realmente está aqui.”
- Ele sussurra para si mesmo, como se estivesse tentando se convencer da ideia.

Eu disse que viria.” - Solto.

Segue-se um longo e incômodo silêncio entre nós dois.
Penso que eu deveria ter muito mais informações, e ouvido muito mais coisas nessa reunião que suplantassem a última notícia.
Então, num ato de quase desespero, mesmo sabendo que ele não vai responder, eu me atrevo a perguntar…

Quem são aquelas pessoas?” - Sussurro, cansada. - “Do que elas estão falando?”

Não sou um informante da Interpol.”
- Dispara.

Aquele cara é filho de Rachael Vaccari, não é?”

Arjean hesita.

Sim.”
- Arjean observa toda a tristeza e preocupação no meu rosto e completa, ácido…
É mais próxima dos Vaccari do que eu imaginava.”

Conhece o pai dele?” - Lanço, e minha voz de repente sai muito áspera.

Não.”

Eu conheço.” - Digo. - “Passou boa parte da vida tentando se convencer de que o filho estava morto.”

Alex é neto de César.”
- Arjean sibila.
É a única coisa que preciso saber.”

Então ele volta-se para a porta da mansão, pronto para se afastar, quando parece lembrar-se de algo e volta.

Eu poderia dizer para você tomar cuidado, mas é inútil.”
- Diz e eu capto algo como rancor incontido na sua voz.
Por mais cuidadosa que você seja, eles vão te descobrir, mais cedo ou mais tarde. Sinto muito.”