Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

1 de dez de 2015

Sentença (3ª temp de fúria) - Capítulo 18


WILL
Você parece péssimo.”
- Tobias Rossi, um dos policiais do departamento me diz, assim que pego o copo de café do balcão da lanchonete.
Penso que devo estar com uma aparência muito ruim para ele ter notado isso.

Passei a noite trabalhando.”
- Digo, por fim. Ele balança a cabeça em afirmação.


Como anda a caçada aos Vaccari?”

Não anda.”
- Digo.
Diana é a única que fez algo significativo até agora.”

Ela já descobriu alguma coisa?” - Ele pergunta, após uma mordida em seu lanche.

Não sei.” - Solto. - “Pode demorar um tempo para ela me mandar algum arquivo.”

Eu deveria estar seguindo James Hansson, como Mogherini pediu.
Daqui a dois dias vai haver uma reunião como ele e outros membros da Interpol. Provavelmente Safroncik vai estar presente, e eu preciso mostrar serviço.
A questão é que todo esse turbilhão de informações não me permitiu analisar a pasta que Craven me entregou logo quando eu ''aceitei'' fazer parte da operação.
Agora que já está tudo encaminhado, é hora de dar o próximo passo.

Seu celular está tocando.” - Tobias avisa. Olho para baixo.

O celular vibra em cima do tampo de mármore.
A chamada está sendo feita por um número privado. Arqueio uma sobrancelha.

Will.”
- A voz de James Hansson preenche a linha assim que atendo a ligação. Solto o copo de café no balcão e me afasto a passos rápidos da aglomeração.

Por que está me ligando?” - Pergunto.

Assunto sério.” - Ele diz. Há uma ponta de vacilação em sua voz. - “Mas vai ter que me prometer que não vai contar nada para a polícia.”

É alguma coisa com a Liza?!”

Em parte.” - Diz. - “Mas me prometa primeiro.”

Ok, agora fala logo!” - Solto, impaciente.

É a sua filha, Jennifer.”
- Ele diz.
Ela foi sequestrada.”

LIZA
Observo a moça de cabelo escuro e pele bronzeada, Yuval, encostada na escada.
Ela olha para mim de soslaio, vez ou outra, e meu olhar se fixa em sua pistola, com o cano enfiado dentro da calça.
Ela é alguns centímetros mais alta do que eu, e apesar de excessivamente magra, tem os músculos dos braços definidos e uma postura que denuncia que ela já está acostumada a se envolver em lutas.
Eu poderia ter vantagem se atacá-la de surpresa.
Vasculho minha mente em busca de memórias sobre brigas que já me envolvi. Na maioria delas, eu tinha uma faca ou uma arma de fogo na minha mão. Na verdade, é surpreendente o fato de que eu nunca tenha lutado sem nada que seja letal ou minimamente perigoso.
No fundo eu sempre soube que Alex estava vivo, mas não queria reconhecer isso.
Era uma verdade inquestionável o fato de que César o tinha sequestrado. E não faria sentido simplesmente matá-lo. Era seu neto, e eu me recuperaria muito mais fácil de um assassinato; além do mais, não é do feitio de César Vaccari agir de forma tão pouco efetiva. Seu objetivo é sempre me ferir do jeito mais doloroso possível.
Essa é justamente a única coisa que me dá a certeza de que Jennifer está viva.
Eu tento me agarrar a esse argumento desde que James saiu daqui, obviamente preocupado com a minha reação. Pobre James. O que estou pensando em fazer provavelmente vai lhe render algumas dores de cabeça.

Eu tento parecer calma e estável para que Yuval baixe a guarda, mas ela continua com o mesmo ceticismo no qual me encarou desde que entrou na casa. Ela sabe que não vou me acalmar. É a vida da minha filha que está em jogo.
Decido mudar de estratégia.
Me levanto do sofá e caminho até a cozinha. Ela não mexe um músculo, mas posso sentir seus olhos me seguindo. Me apoio na pia e começo a puxar um copo de vidro do armário ruidosamente, uma jarra de água da geladeira e uma garrafa de água sanitária do armário inferior, próximo à porta da lavanderia. Encho o copo com a água sanitária até a metade, escondo a garrafa e aguardo.
Não demora nada até ouvir o som dos seus passos.
Foi realmente uma boa ideia trazer uma pessoa com maior força física do que eu. É obvio que ela não vai permitir que eu saia dessa casa, a menos se for obrigada.

O que está fazendo?” - Ela pergunta, um tanto áspera.

Vim beber água.” - Digo.

Espero ela se aproximar e começo a pensar que devo ser mais rápida, antes que ela note o cheiro.

Permaneço imóvel, encostada na pia, com a mão envolta no copo de vidro.
Ela se aproxima mais.
Espero que ela fique a dois passos de mim, e quando isso acontecesse, arremesso o conteúdo do copo na altura dos seus olhos.
Ela grita e cambaleia para trás, com as mãos pressionadas no olho atingido. Aproveito o momento e puxo a pistola de sua calça, mirando nela em seguida. Ela chia com a ardência e me encara com o olho saudável, aturdida. Permaneço com a arma apontada para ela até fechar a porta de casa atrás de mim.

O caminho de carro daqui até o meu destino não é muito longo ou de difícil acesso, não há sinaleiras ou ruas movimentadas e eu não demoro mais que sete minutos para chegar lá.
Trata-se de uma rua pouco movimentada, cheia de becos que abrigam casas de aspecto antigo e deteriorado. O chão é de pedra a partir desse trecho e a praia não está muitos metros longe daqui.
Algumas pessoas passam pela minha frente enquanto caminho num dos becos, mas nenhuma delas nota quando forço o trinco e abro uma das portas, entrando numa casa bastante mal iluminada.
A única luz dentro da sala provém de alguns raios de luz que atravessam uma das cortinas mais ou menos foscas, que cobrem as duas janelas do cômodo. À minha direita, uma escada se ergue em direção aos quartos.

No pequeno corredor do andar, estão três portas, uma delas entreaberta, me dando uma pequena visão do quarto que provavelmente está mais iluminado que o resto da casa. Vozes surgem nessa direção e eu empurro a porta até encostá-la na parede. No centro do quarto, numa cama de casal meio velha, a mulher nua em seu colo é a única coisa que vejo em meio às cobertas.

Edward.”
- Solto. A mulher abafa uma exclamação e pula para o lado, cobrindo os seios com o lençol. O rosto e tronco da versão masculina de Lauren Black surge, me encarando com um misto de surpresa e diversão nos olhos.
Uma diversão presumida, como alguém que já estava cansado de esperar por esse momento.

Ele me lança um sorriso enviesado, de cúmplice, e eu sorrio de volta.

Tenho um trabalho para você.” - É o que eu digo em seguida.