Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

1 de dez de 2015

Sentença (3ª temp de fúria) - Capítulo 17


DIANA
Quando me aproximo da porta, posso ouvir o som do seu chuveiro.
O quarto de César – situado no último andar - é obviamente o maior de toda a mansão, mas não é tão decorado quanto eu pensei que fosse. Só há uma cama king size, tapetes, uma TV e uma mesa baixa, com coisas como copos e uma garrafa de conhaque espalhados, além de um pedaço de papel em branco e uma caneta.
Tudo aqui dentro está em tons de cinza e azul-escuro.
Afasto as cortinas de seda e tenho um vislumbre de sua sacada através da porta de vidro, e da visão do centro de Atenas que ela fornece.
A porta de sua suíte é de vidro fosco e eu sinto o seu cheiro em cada parte do cômodo.
Em cima da cama desforrada, uma larga pasta preta captura a minha atenção enquanto eu espero ele terminar o banho. Eu sei que é loucura, visto que ele pode surgir a qualquer momento, mas eu não me contenho em estender a mão e agarrar a borda da capa, que percebo ser de couro sintético.


Então, assim que abro, descubro que trata-se de um álbum de fotos.
Mais do que um simples álbum de fotos.

A primeira fotografia, que estampa a imagem de uma menina alta e um pouco desnutrida, carregando um bebê no colo no meio de uma rodovia denuncia o tema de todas as outras fotos.
Passo várias páginas para ter certeza.
Em todas elas, imagens de Liza e Rachael Vaccari ganham forma, em momentos diferentes e com idades diferentes. Não há nada referente a seus pais e elas sempre parecem muito sozinhas, o que me faz pensar que essas fotografias começaram a ser tiradas logo após a morte de Anthony e Jennifer Vaccari.
Passo um rápido olhar na direção do banheiro.

As imagens parecem cuidadosamente organizadas, como uma linha do tempo. Nas primeiras, ambas parecem muito jovens e um pouco desorientadas; Liza com o rosto ainda infantil, carregando a irmã, praticamente recém-nascida, envolta em várias mantas. Há legendas escritas embaixo das fotos que informa a localidade de onde as fotografias foram tiradas.

BR-463, próximo a Ponta Porã, Mato Grosso do Sul, Brasil

Periferia de Assunção, Paraguai

Santa Cruz de La Sierra, Bolívia

Porto de Arica, Chile

Porto de Tepic, México

Subúrbio de Guadalajara, México

Fecho a pasta bruscamente.
Me levanto e caminho de volta a sacada, mantendo os ouvidos atentos à movimentação de César no banheiro.
Ele seguiu todos os passos de Liza Vaccari depois da morte dos pais.
Ele sabia que ela tinha sobrevivido.
Sabia que estava sozinha e vulnerável.
Por que não a matou, então?

Estava aqui há muito tempo, Maria?”
- A voz dele surge atrás de mim. Recomponho minha expressão e viro o rosto em sua direção, a fim de encará-lo.

Não muito, senhor.” - Digo. - “Soube que me chamou.”

Chamei.”
- Ele diz, puxando o papel em branco e estendendo-o para mim. A ponta de seu polegar molha uma das bordas da folha.

César começa a caminhar numa direção oposta à minha, e eu observo a gota de água que pinga de seu cabelo molhado e escorre pela curvatura de suas costas. Ele arruma a toalha em sua cintura e volta seu olhar na minha direção, de novo.

Quero que anote os telefones que vou falar.” - Ele começa. - “Hoje à noite vamos receber uma visita especial e eu quero que ela seja muito bem acolhida nesta casa. Você vai se encarregar de escolher o cardápio e de se certificar que todos os empregados vão fazer tudo corretamente. Deve saber que não gosto de erros nem atrasos. Os telefones que eu lhe der serão os convidados que virão para o jantar.”

E quais os nomes desses convidados, senhor?”

Rob Cavendish.”
- Ele diz. Posiciono a caneta e escrevo o nome no papel.
Catarine Ambrosia e Arjean Jacquard.”

JAMES
Liza abre a porta logo na primeira batida.
Há uma assustadora mistura de emoções em seu rosto e ela parece incapaz de dizer alguma coisa, tamanho o seu espanto.

Eu já mandei gente para procurar a Jennifer.”
- Me apresso em dizer.
Não podem ter chegado longe. Nossos homens são rápidos e...”

Ele estava aqui.”
- Liza sussurra, muito mais para si mesma do que para mim. Ela soa desorientada enquanto desaba no sofá, com o olhar fixo, como uma louca. Olho para Yuval. Ela se mantém a uma certa distância de nós, como se essa fosse uma conversa particular.
Sempre esteve. Você estava certo, James. Alex está vivo. César o transformou numa arma contra mim. Por isso ele não tinha feito nada. Eu achava que ele não tinha feito nada, mas ele sempre fez, ele não parou, não vai parar...”

Liza, escute.” - Digo, francamente preocupado. - “Nós vamos encontrar a Jennifer. Todos estão de prontidão, vamos ficar na cola do César, vai dar tudo certo.”

Isso não vai acabar, James.”
- Ela diz. Seus olhos estão em mim agora, resolutos.
Não vai haver uma trégua. César tem que morrer. É a única forma de por um fim nisso.”

Seria engraçado, se as circunstâncias não fossem tão trágicas.
Há dois meses atrás, eu ficaria esperançoso em ouvir essas palavras. Talvez eu ainda me animasse ouvindo isso hoje, se eu não visse o brilho perigoso em seus olhos.
Pela primeira vez, eu tenho a convicção de que a Liza voltará para a máfia e por mais contraditório que pareça, isso me aterra até a alma.

Will já sabe disso?” - Digo. Liza nega com a cabeça.

Eu não o vi hoje.”
- É a única coisa que ela diz.

Liza está estranhamente calma; ela não está chorando, seu tom de voz é baixo e ela está sentada, quieta.
É como se estivesse anestesiada, adormecida, enquanto sua mente processa toda a informação.
Assim que ouvi as palavras “Alex” e “Jennifer” na mesma frase entendi imediatamente o que estava acontecendo. É como se eu, inconscientemente, esperasse por esse momento, como observando a uma bomba relógio contar seus últimos segundos.
Mas para Liza, é um baque total. Nem seu subconsciente poderia imaginar algo assim.
César é o tipo de pessoa que sabe exatamente onde bater para causar o efeito necessário.
Ele quer Liza de volta à guerra. E não há forma melhor de provocar uma fera que agarrando sua cria.

James.”
- Yuval chama, hesitante. Meu olhar volta-se para sua direção e ela continua…
Sidney ligou. Diz que precisa de você agora lá na sede.”

Olho para a Liza novamente.
Ela parece ter voltado à sobriedade, mas eu sei que é só uma miragem.

Fique aqui.”
- Ordeno. Ela não esboça nenhuma reação.
Yuval vai ficar com você. Não faça nenhuma besteira.”
Eu me forço a caminhar até a porta, com o coração pesado.
Passo um olhar compassivo na direção de Yuval, e percebo que ela está pensando exatamente a mesma coisa que eu.
Liza vai desobedecer minha ordem, é claro.
Não seria ela mesma se não o fizesse.