Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

1 de dez de 2015

Sentença (3ª temp de fúria) - Capítulo 16


LIZA
Uma dor aguda surge no meu ombro esquerdo quando me movo na cadeira.
A claridade me faz apertar os olhos e eu pisco, várias vezes, tentando enxergar as coisas com maior nitidez. Quando minha visão entra em foco, percebo que passei a noite inteira na mesa da cozinha.


Will?” - Chamo. A casa continua tão silenciosa como antes.

Com os dedos pressionando os músculos do ombro dolorido, caminho em direção à sala, procurando a mochila de Jennifer.
Nada.
Olho para o relógio da estante. 8H45. Talvez ela já esteja na escola.
Will já cansou de repetir para mim o quanto está cheio de trabalho no departamento, mas é muito raro, um fato quase inexistente, ele dormir fora de casa.
Ele me disse que chegaria tarde, mas o esperei na cozinha mesmo assim.

Subo as escadas.
No meu quarto, a cama está perfeitamente bem feita, do jeito que deixei ontem.
O vento proveniente da janela chicoteia as cortinas de tecido fino, esvoaçando-as. Tudo está estranhamente intacto.

Abro o quarto de Jennifer com uma mão, do outro lado do corredor, enquanto a outra disca, no celular, o número de Will.
Caixa postal.
O quarto de Jennifer também está perfeitamente arrumado, com a cama feita, o que é ainda mais estranho, já que ela nunca faz a cama antes de ir para escola.
Uma sensação horrível começa a crescer dentro de mim.
No meio de sua cama, seu celular está jogado, mas não encontro sua mochila com ele.
Agarro o celular de Jennifer com as mãos trêmulas, apertando o botão lateral que acende o visor. No fundo, a foto estampa seu rosto sorridente e vivaz, e os raios de sol iluminam seu cabelo acobreado.
Seria uma foto normal, e eu provavelmente não repararia a ela em outras circunstâncias, mas o homem plantado ao seu lado, abraçando-a, é o que mais chama a minha atenção.
O formato do seu rosto parece com o de Jennifer, e agora eu posso ver seus olhos, tão negros que me soam familiares. Todo o seu rosto é familiar, e eu começo a comparar suas feições com a de Jennifer.
Seus narizes são idênticos e até mesmo a forma como sorriem.
A imagem de Marco Capotondi e sua voz me perguntando se havia algo errado surgem na minha mente.
A forma como eu fiquei paralisada pela visão do rapaz de rosto familiar nos corredores da agência.
O celular cai da minha mão e gera um barulho leve ao desabar na cama.
O homem que está com a Jennifer é o cara da agência.
E o pior de tudo é que eu consigo entender agora porque ele me parece tão familiar.

James.”
- Digo, com a voz trêmula, rouca, quase inaudível no celular.
Vem pra cá. Agora.”

JAMES
Quando paro em frente ao apartamento de Yuval, a cobertura de um prédio de 22 andares, encontro a porta entreaberta.
Estalo a língua em desgosto.
Não há nenhum sinal de vida lá dentro, e a claridade vinda da sacada se espalha por todo o cômodo. É uma sala muito clara, com paredes pintadas de branco e móveis da mesma cor, com apenas alguns pontos de cor nos objetos vermelhos pousados na mesa de centro.
Como já imaginava, há vários frascos vazios e uma seringa jogados no chão. Alguns dos bonitinhos objetos de decoração foram quebrados, propositalmente ou não, e os pedaços de porcelana jazem perto dela. Yuval está deitada no chão, numa posição francamente desconfortável, desacordada.
Observo seu braço.
A tatuagem de onça pintada disfarça bem, mas não apaga as manchas vermelhas provenientes das picadas de agulha. Ela usa uma camisa masculina cinza, grande demais para seu corpo magrelo, e um short jeans bem surrado.
Sussurro um palavrão.
Caminho até a geladeira, puxando uma garrafa de vidro com água até a metade.
Perdi a conta de quantas vezes fiz isso.
Mantenho uma distância segura antes de virar a jarra em direção ao seu rosto.
Sinceramente, há alguns comportamentos que não se pode tolerar.

A reação é imediata.
Ela grita, se afasta e xinga, levantando-se num pulo. Permaneço imperturbável.

Como conseguiu subir?!”
- Vocifera. Encolho os ombros displicentemente.

A portaria já me conhece.”

Aqueles cretinos irresponsáveis...”
- Solta, afastando uma mecha de cabelo molhado do rosto.
Eu deveria era sair desse maldito prédio! Esses filhos da mãe, esses...”

Vejo que voltou com aquele seu velho vício.”
- Interrompo, acenando para a seringa jogada no chão. Ela se cala.

Um dos maiores conflitos que envolviam Yuval e Beth eram justamente por conta do seu vício em heroína. Beth não queria gente drogada na elite Vaccari, e Yuval usava doses cada vez mais fortes, criava confusão, se envolvia em brigas e tiroteios sem sentido, até receber um ultimato; Beth apareceu em seu apartamento e ameaçou matá-la pessoalmente se ela não parasse. Funcionou, por incrível que pareça. Fazia quase 5 meses que ela se mantinha limpa.

Ela vira o rosto, mas posso ver seus olhos cheios de lágrimas.

Como isso veio acontecer?” - Pergunto, com a voz um pouco mais suave. - “De novo, Yuval? Você tava tão bem, sóbria e...”

Não conta isso pra Sidney, tá?”
- Ela solta. Sua voz sai rouca.
Ela vai ficar chateada e vai me dizer coisa e eu não to afim de...”

Contar para a Sidney é o que eu realmente deveria fazer.”
- Interrompo.
Mas não temos tempo para isso. Se veste, a gente tem que sair.”

Pra onde?”

Para a casa da Liza.”
- Digo.
Parece que Alex Richmond voltou e a filha dela sumiu.”