Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

12 de nov de 2015

Sentença (3ª temp de fúria) - Capítulo 9


LIZA
Me afundo na banheira, sentindo a água quente aquecer meu corpo.
Will ainda não chegou em casa, e eu não sei se me sinto bem ou não com isso. É claro que quero evitar o clima tenso que com certeza vai se formar quando ele aparecer, mas ainda estou chateada e ainda quero saber o que está acontecendo.
A imagem daquele rapaz no corredor da agência não sai da minha cabeça.

Por mais louco que possa parecer, eu tenho a impressão de conhecê-lo há anos, como se fosse a personificação de uma lembrança esquecida e guardada no fundo da minha memória.
James concordou em fornecer uma certa segurança a Jennifer, buscando-a da escola quando está na cidade. É claro que ela não sabe qual é o real motivo de tudo isso, então ela parece bem satisfeita em ter mais contato com o “tio”.
Ela ainda não sabe que, além seu primo, Alex é seu irmão.
Esse é um assunto incômodo para todos nós, mas o combinado seria contar para ela quando fizesse quinze anos. Ela vai fazer aniversário no próximo mês, mas não sei se vou conseguir cumprir com o acordo.
O barulho fraco vindo da sala denuncia que ele chegou.
Meu corpo, anteriormente quieto e imóvel, parece ter sido percorrido por uma corrente elétrica. Eu me movo, desconfortável, e uma pequena quantidade de água cai para fora da banheira.

Percebo que me referi a Alex no presente, e a mera consciência disso me faz tremer.

A porta do banheiro se abre, e Will aparece, descalço.
Ele tira as roupas, como se nada estivesse errado entre nós e aquela discussão nunca tivesse acontecido, e entra na banheira, exatamente como fez semanas atrás, quando a Beth ainda estava viva e nos sentíamos relativamente seguros.
Eu olho para seus olhos, então, e apesar da postura relaxada, vejo o quanto ele está tenso.
Não por ter 'brigado' comigo.
Não pela morte de Beth.
Mas pelo perigo iminente de que nada jamais volte ao normal.

Você está molhando o banheiro todo.”
- Solto, não porque eu me importe com a água derramada, mas porque eu precisava dizer alguma coisa.

Me desculpe.”
- Ele diz.
Desculpe por ter falado com você daquele jeito. Eu estava estressado com o trabalho, e depois você me falou sobre ter ido no velório da Beth, enfim...”

Ela era minha tia, Will.” - Digo. - “Eu não podia deixar de...”

Eu sei.” - Ele interrompe, estreitando o espaço entre nós. - “Eu sei. Eu fui rude, insensível, ingrato até. Você tinha todo direito de ir até lá. Você tem o direito de ir aonde quiser, na verdade. Me desculpe.”

Ele ainda não me disse o real motivo de seu estresse.
Eu sei que eu ter ido no velório da minha tia não foi a raiz da discussão.
Há algo por trás de tudo isso, mas eu sei que ele não vai me contar, então eu finjo que estou satisfeita e deixo que ele me beije, só para evitar uma nova briga.
Eu correspondo ao seu beijo e sinto o calor de seu corpo, mas minha mente repete suas palavras ditas de manhã.
Eu deveria esquecer isso, mas não posso.
Sinto que seja lá o que Will estiver escondendo, não é nada bom, e seria melhor se eu nunca soubesse.
Mas eu vou saber. De uma forma ou de outra.

JAMES
Eu sigo os passos de Sidney até o porão.
Ela liga a lanterna e move o feixe de luz em direção às paredes, quando já estamos no centro do compartimento.
Ao invés de encontrar o concreto, como é o esperado, uma caixa de tamanho médio de dinamite entra no meu campo de visão. E ela não é a única.
Há pilhas imensas de caixas idênticas a essa cobrindo todas as paredes do porão. Elas estão bem lacradas e marcadas com uma sequência de números e letras que variam a cada coluna.

Posso chutar uns 200 quilos de dinamite aqui.”
- Sidney diz.
Dá pra explodir um estádio inteiro. Nem tem como transportar pelos helicópteros.”

Não vamos levá-los.” - Digo. Ela me encara com uma sobrancelha arqueada.

Não?”

Não, Sid.” - Afirmo. Ela ainda me olha confusa, então solto: - “Vamos avisar aos outros.”

Estão quase todos na sala quando retornamos.
São doze fuzis e 5 metralhadoras encontradas na mansão, fora as pistolas e munições. Aproveito a presença geral e digo:

Dividam-se em grupos.” - Ordeno. - “O maior grupo vai levar as armas e munições até os helicópteros. Quero Yuval, Nico e Carlo comigo.”

E eu?” - Sidney reclama.

Vai ser perigoso.”

Diz o cara que me mandou seduzir dois homens com fuzis sozinha e desarmada.”

Você tinha uma faca.”

Não se pode considerar isso uma arma decente.”

Sidney, você vai para o helicóptero.” - Declaro. Ela cruza os braços em resposta.

Agora.” - Ordeno. Ela rola os olhos e se afasta.

Eu aguardo enquanto todos levam as armas e caixas para fora da mansão. Seus passos rápidos ecoam até certo ponto, então eles ganham distância e a casa volta a ficar silenciosa.
Os três restantes olham para mim, aguardando comandos.

Carlo fica de guarda lá fora.” - Lanço. - “Nico vai procurar um galão de álcool e Yuval vai preparar um coquetel molotov.”

Pra que isso?” - Ela pergunta.

Há uma carga que precisa ser queimada.”
- É apenas o que digo.

Observo Nico, minutos depois, espalhar o álcool pelo chão do porão, imaginando o fogo se alastrando no concreto, consumindo o líquido, aproximando-se perigosamente do pavio dos explosivos…
Ele joga o combustível também nas escadas que levam ao compartimento.
Yuval aparece em seguida, pronta para arremessar o coquetel.

É bom vocês correrem.” - Ela avisa. Nico se afasta imediatamente, mas eu não movo um dedo.

Um clarão surge logo quando o fogo entra em contato com o álcool, e nós seguimos para as portas da mansão.
Lá fora, os passos de Nico e Carlo ecoam na estrada de pedra, e nós dois corremos. Começo, inconscientemente, uma contagem.
Um.
Forço o portão de ferro maciço para frente.
Dois.
A pista de pedra dá lugar ao barro, e o pequeno vilarejo, deserto, torna-se a paisagem.
Três.
Um estrondo ensurdecedor nos rouba o equilíbrio.
A terra abaixo de nossos pés treme, como se a explosão surgisse no centro da Terra, se alastrando até a superfície.
Apesar da consciência de que estamos longe, é impossível conter o impulso de abaixar-se.
Olho para trás, num segundo, e o que vejo são os escombros e a nuvem de poeira e fogo que se ergue.