Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

12 de nov de 2015

Sentença (3ª temp de fúria) - Capítulo 8


JAMES
Os helicópteros se mantém alinhados no ar.
São 12 homens ao total, além de Sidney, e assim que meus pés pousam na areia fofa, me desfaço dos ganchos que me prendem às cordas. Yuval e Carlo puxam submetralhadoras presas em suas pernas e a praia é tomada por uma nuvem negra de pessoas.
Não há ninguém com fuzis, como eu tinha ordenado; corro em silêncio com arma em punho, fazendo sinal para que o grupo se espalhe. Os outros três que desceram comigo me seguem, e eu ligo a pequena lanterna acoplada à arma, antes de me embrenhar pela mata.


Há dois homens armados na estrada de pedra que dá para a mansão.” - Sidney sussurra no fone.

Se mantenha escondida até eu chegar.” - Ordeno.

São cinco atrás de mim, conto. Nossos passos em uníssono soam como um farfalhar de folhas soltas e os feixes de luz provenientes de nossas lanternas iluminam parcialmente o caminho. As árvores são altas, de troncos finos, e seu aspecto lembra o de coqueiros. Se passe quase dez minutos até que Sidney entre no meu campo de visão.
Ela está agachada, com a pistola apoiada em sua coxa direita e um binóculo erguido. Me posiciono ao seu lado e sussurro…

Vê mais alguém além dos dois?”

Não.” - Afirma. - “Mas deve haver outros dentro da mansão.”
Ela me passa o binóculo.
Os dois homens são altos e exageradamente magros, com a aparência cansada, como se ficar horas acordados lhes fossem rotina. Suas feições lembram as de um árabe e um deles acende um cigarro.
O chão irregular da estrada me enche de lembranças sobre Morgana e suas vindas a esse lugar; os Hansson haviam formado uma breve e frágil aliança com César Vaccari, logo quando este assumiu a chefia. Fazia pouco tempo desde que os corpos de Tony e Jennifer Vaccari haviam sido encontrados em seu apartamento no Brasil e desapareceram misteriosamente no dia seguinte, e a autoria dos assassinatos caíram na nossa conta.
No final, todos os Vaccari internamente sabiam que tudo aquilo foi feito por César.
Os Hansson não desmentiram a história, até porque Thomas era inimigo de Tony, e a fama de tê-lo assassinado não era de todo ruim.
Fixo meu olhar em Sidney, que me encara, cheia de expectativa.

Me dê a arma.”
- Ordeno. Ela levanta uma sobrancelha.
Você vai lá fora, joga uma lábia e tenta descobrir se há mais gente por perto.”

Por que eu?”

Porque você é mulher e é bonita.” - Digo. - “Vai ser mais fácil convencer.”

Ela solta um longo suspiro, antes de por a pistola em minha mão.

Preferiria que você dissesse que sou persuasiva.”
- Solta, dramaticamente. Eu sorrio fracamente e ela encolhe os ombros, põe óculos escuros e se afasta.

Faço sinal para que os outros tomem posições.
Os homens olham Sidney com ceticismo, mas não fazem menção à atirar. Ela se aproxima e troca algumas palavras, e eu miro a arma em um deles, na altura de sua cabeça. Ele fica de costas para mim e o outro puxa um cigarro do bolso, oferecendo a ela. Ela sorri, pega o cigarro e move a mão para trás, cuidadosamente. Em seus dedos, há o sinal.
Há mais quatro homens lá dentro.
Respiro pela boca e disparo.

Há uma sucessão de tiros logo após o meu. O homem no qual mirei cai como um peso morto e o outro se assusta e atira, às cegas; A faca de Sidney forma um corte profundo na altura de sua clavícula, ele cambaleia e corre em direção à estrada de pedra. Duas balas provenientes de algum de nós o atingem nas costas.
Corro em direção à mansão.
Sidney – que recuperou suas armas – me segue; o som de nossas botas é suave e uniforme. A entrada da mansão, iluminada por luzes de tom alaranjado e com aspecto de beira-mar, parece vazia, mas outros tiros surgem. Vultos aparecem na varanda e Yuval dispara uma sequência de tiros; três deles atingem o outro capanga. O silêncio toma conta do local, repentino.
Ainda há outros três homens vivos aqui dentro.
A entrada da mansão é decorada com cadeiras e poltronas de acabamento rústico, e a larga porta de madeira maciça, com formas geométricas esculpidas tem quase 3 metros de altura.
Olho para o meu lado direito, e há um corpo boiando na piscina.
A água, tingida em verde claro, assume tons de vermelho nas proximidades do cadáver.
Há luminárias embutidas no chão, entre as plantas nos canteiros laterais e nos arredores da piscina, e a luz branca proveniente delas se mistura à luz alaranjada do teto.

Quer que eu entre primeiro?”
- Sidney pergunta, logo atrás de mim. Sua voz é suave e ela parece preocupada com a minha quase inércia. Não que essa mansão e essa paisagem tenham algum significado sentimental para mim, mas é estranho voltar a um lugar que estava tão esquecido, tão escondido no fundo da minha memória depois de tantos anos.

E há eles, é claro.
Estão todos esperando por uma ordem minha para invadir a casa.

Assuma o comando.” - Digo para ela. Sidney balança a cabeça em afirmação e se afasta.

Eu observo ela lançar ordens para os outros, tomando posições.
Ela deixa alguns deles aqui, de guarda, junto comigo, e eu penso na possibilidade de Sidney tornar-se a chefe. Se Liza nunca cedesse, nunca voltasse, Sidney Basner seria capaz de substituí-la?

Faço sinal para que os outros permaneçam aqui, e entro na casa; no instante em que meus pés ultrapassam a porta, o som de um disparo ecoa por toda a entrada, seguido de outros dois.
Um vulto passa, rápido como um flecha, por um dos corredores, e eu corro em direção a ele. Um os homens, aparentemente um adolescente, sobe a escada que dá para os quartos, armado com um fuzil, mas de guarda baixa. Me movo até o centro da saleta, miro e atiro duas vezes; ele cai, rola pelas escadas e para na metade dela, com o corpo contorcido nos degraus. Manchas de sangue tingem o corrimão branco.
Faltam dois.
Saio da saleta e corro de volta para a direção do primeiro disparo.
Observo Sidney cutucar, com o pé, no canto esquerdo da cozinha, o corpo com uma marca de perfuração no estômago, inerte, jogado no chão da área de serviço.

Tem um outro lá na sala de jantar.” - Ela diz, olhando para mim. - “Acredito que só falta um.”

Não mais.” - Digo, lembrando-me do adolescente na escada.

Olhem isso!”
- A voz de Carlo soa, repentinamente, na cozinha. Ele joga algo como um baú no chão, com o cadeado quebrado.
O compartimento é de um preto fosco, retangular, feito de algum tipo de madeira resistente e pesada.
Suas mãos fincam na base interna da fechadura, puxando a tampa do baú para cima. No seu interior se revela uma grande e diversa quantidade de munições.
O olhar de Sidney se move da caixa para mim.

A maioria das munições são de fuzis de tipos diferentes, mas há muitas outras de metralhadoras, pistolas, além do compartimento separado onde há silenciadores e granadas.

Era exatamente o que eu imaginava.”
- Yuval solta. O olhar de todos nós se fixam nela.
César faz contrabando de armas, todo mundo aqui sabe. Ele quer acabar com o nosso negócio na Tunísia. Não seria nenhuma surpresa pra mim se ele estiver financiando algum grupo terrorista.”

Continuem vasculhando a casa.” - Digo. - “Com certeza há armas aqui.”

Eles dispersam no instante seguinte.
Minha mão se estica até um dos cartuchos de bala, diferente de todos os outros. E uma bala fina, pequena e pontiaguda, toda revestida em bronze. É uma bala reforçada com titânio em seu interior, o que faz com que ela fique mais dura, leve, e consequentemente, mais rápida e destrutiva. Essa é a segunda vez em toda a minha vida que vi este tipo de munição, e na primeira, eu descobri qual arma na qual ela pertencia.

Essa munição pertence a essa arma, suponho.”
- A voz grave e profunda de Nico surge, e ele pousa uma submetralhadora de tamanho médio, negra, com um único cano curto e grosso. Ele se senta na mesa de centro ao meu lado e examina-a, com uma expressão de fascínio.

Conhece?” - Pergunto. Ele nega com a cabeça.

Eu nunca tinha visto a arma e nem a munição, e essa bala me parece sofisticada demais para qualquer um desses fuzis.” - Diz.

É a submetralhadora mais moderna que existe.”
- Digo.
Você só encontra isso no Oriente Médio. É caríssima. Um tiro com ela atravessa até um tanque de guerra.”

Yuval pode estar certa, então.”

Onde encontrou isso?”

Lá em cima.” - Diz. - “Nos quartos. Acharam vários fuzis também. Estão trazendo pra cá. Devo chamar o Luigi?”

Deve.”

Ele acena com a cabeça e se afasta.
Observo, em silêncio, os outros descerem e encostarem os fuzis encontrados nos cantos da sala.
Temos cerca de quinze minutos para levar tudo para os helicópteros e evacuar a casa. Não vai demorar para que César saiba o que está acontecendo.
Passos ecoam atrás de mim e a mão esquerda de Luigi pousa pesadamente sobre o meu ombro.

Bela arma.”
- Ele diz, olhando para a submetralhadora em minha mão. Luigi é um ex soldado americano, de descendência italiana, que desertou para trabalhar com os Vaccari. Seu nome era Victorio Daltro e ele forjou a própria morte no Oriente Médio para fugir.
Dá pra ganhar um bom dinheiro com ela no mercado negro.”

Ele é um dos caras pelos quais Beth fez questão de tê-lo em sua equipe.
Por ser uma pessoa considerada morta pelo resto do mundo, ele não sofre fiscalização por parte do governo, o que facilita seu acesso a helicópteros, tanques, aviões, explosivos e todo o tipo de coisa que não seria possível conseguir a menos que se tivesse muito, mas muito dinheiro.
É um fato conhecido que a fortuna de César ultrapassa consideravelmente a de Beth. Desde que boa parte dos negócios de John Vaccari, pai de Beth, foram para as mãos dele, ele conseguiu dobrar o capital e consequentemente, o poderio.
Se não fosse pelos muitos contatos dela, que possibilitou com que fizesse as manobras que fez, ele já teria tomado o controle de toda a máfia há muito tempo.

James.”
- A voz de Sidney puxa a minha atenção. Ela está de pé, parada em frente a porta aberta do porão, com o cenho franzido.
É melhor você ver o que tem aqui embaixo.”