Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

12 de nov de 2015

Sentença (3ª temp de fúria) - Capitulo 6


JAMES
Então, terminou?”
- Ouço Yuval perguntar, pela enésima vez, encostada na mesa ao lado de Sidney.

Não.” - Sidney responde, entre dentes, o olhar fixo na tela do computador.

Por sugestão de Sidney, não voltamos diretamente para Nápoles e sim para Bari, onde temos mais gente a nossa disposição e consequentemente, estamos mais seguros. Yuval cruza os braços, impaciente, e eu observo a tinta preta de suas tatuagens – o bracelete de serpentes e uma onça com a boca aberta – , sobressaindo em sua pele bronzeada.
Ela prende o longo cabelo escuro num coque frouxo e deixa escapar, com um suspiro…

Não acha que está demorando tempo demais?!” - Reclama. - “Estamos aqui há uma hora!”

Quarenta minutos.”
- Sidney dispara.
E criptografia não é tão simples assim.”

Yuval rola os olhos.
Contenho o sorriso que me vem no rosto. As duas sempre foram muito próximas, uma das primeiras amigas que Sidney fez desde que fugiu de casa, mas por alguma razão, não conseguem ficar juntas por muito tempo sem esse tipo de 'discussão'.
Não que tenham brigado alguma vez, de fato. Mas se espetam o tempo todo.

César deve ter contratado alguém muito bom pra fazer isso.”
- Sidney murmura, baixinho, depois de um momento em silêncio.
O que só comprova a importância desse arquivo.”

Néé?! O que disse?” - Yuval solta, confusa, como se acabasse de sair da lua.

Não foi com você.” - Sidney solta.

Falou comigo então?” - Pergunto, por cordialidade.

Falei comigo mesma.”

Encolho os ombros.
A porta se abre de repente, revelando outros quatro homens nossos. A sala se enche de vozes e interjeições do tipo “Hey” e “E aí”, e todos eles sentam-se esparramadamente nos sofás e poltronas espalhados pelo cômodo.

Tudo limpo lá embaixo.”
- Um deles, Carlo, avisa, sentando-se ao meu lado. Então ele move a cabeça, apontando para Sidney…
Pela cara dela, ainda não conseguiu nada, né?”

Não.”
- Digo.
Yuval se certificou de atormentá-la até que conseguisse.”

Pronto.”
- Sidney solta, sonoramente, com a expressão de alguém que acabou de tirar um fardo das costas. Todos, até mesmo Carlo, se amontoam em volta dela no minuto seguinte.

Ei, ei, ei!” - Sidney protesta. - “Não vai ficar todo mundo em cima de mim como urubu na carniça não! Dispersem, vamos!”

A ordenança de Sidney gera uma série de protestos, mas todos eles obedecem e se afastam. Ela apoia os cotovelos nos dois lados do notebook e move os olhos pela tela; sua boca abre uma pequena fresta e ela se deixa derrubar na cadeira. Há algo como preocupação e confusão no seu rosto.
Então ela passa seus olhos pela sala e diz…

Acho que é a hora de vocês verem isso.”
Suas mãos giram o notebook na nossa direção e eu me aproximo, para enxergar melhor os dizeres do arquivo…

P. ORBÁN, CASA 3, 15° OESTE, MESSINA
É um endereço?”
- Yuval é a primeira a perguntar.

Pelo visto sim.” - Sidney responde. - “Há coordenadas cartográficas, então não deve ser um lugar muito fácil de achar, talvez seja numa mata fechada ou...”

Isso é na Sicília.”
- Solto. Sinto os olhos de todos em mim, enquanto minha mente é inundada com lembranças de uma casa imensa, com portas de vidro e aspecto de beira-mar…
Messina é o nome de uma das cidadelas da ilha. As coordenadas indicam o povoado de Orbán, bem próximo a uma mansão que César mantém há muitos anos, simbolizado pelo 'casa 3'.”

Como sabe disso?” - Sidney pergunta, com uma sobrancelha arqueada.

Tive uma vida antes de vir para cá.” - É apenas o que digo.

Ok, mas porque esse endereço?” - Yuval diz. - “O que pode ter naquela mansão de tão importante?”

Começo a ter um péssimo pressentimento.
César comprou a mansão por uma questão puramente estratégica. Não era destinada a moradia, e sim a armazenamento de cargas. Principalmente cargas que tinham como destino a África.
Começo a traçar um mapa na minha cabeça, definindo os próximos passos que darei. Percebo então, que a pergunta de Yuval não foi retórica e todos estão aguardando por uma resposta minha.

Bom,” - Declaro. - “Isso é o que vamos descobrir.”

WILL
Diana atravessa as portas do imenso saguão, num vestido longo de alças, preto, de saia esvoaçante.
Não consigo definir se a decisão de marcar o encontro numa festa de gala foi uma boa ideia ou não. Na melhor das hipóteses, o lugar pode ter despistado olheiros, que imaginavam esse como o último lugar para uma reunião como a que estou prestes a enfrentar. Na pior, pode ter chamado ainda mais atenção.
Essa é uma festa do governo, cheia de gente poderosa, e nós dois estamos esperando pela Miranda Safroncik, a chefe das relações externas da União Europeia. A nossa 'missão impossível' e o fato de termos sido escolhidos para a tarefa se tornou motivo de curiosidade – um eufemismo – para algumas pessoas.
Ela olha rapidamente para os lados e caminha na minha direção, para depois encostar o quadril na bancada da qual mantenho meus cotovelos apoiados.

Ela já chegou?”
- Diana pergunta num tom baixo, porém, audível.

Ainda não.” - Solto.

E Craven?”
Também não.”

Os motivos que levaram Mark Craven a migrar para a Itália, há sabe-se lá quantos anos atrás ainda é algo desconhecido para todos nós. É comum que hajam alguns imigrantes americanos aqui, assim como em todos os outros países, mas por algum motivo, o passado de Craven desperta certa curiosidade nas pessoas ao redor. Internamente, nunca gostei dele. Nunca o considerei alguém confiável. Agora, com toda essa confusão no qual fui mergulhado, confio muito menos.
Há ainda todo o problema com a Liza.
Eu deixei transparecer minha preocupação, lhe dei motivos para desconfiar e agora sinto como se esse segredo fosse uma bomba-relógio, pronta para explodir a qualquer instante.
Sinceramente, prefiro que exploda agora do que quando tudo já estiver encaminhado.

Olhe para o lado direito.”
- Diana solta para mim, me arrancando de meus próprios devaneios.

Uma mulher negra, robusta, com a aparência de alguém que acabou de chegar aos quarenta e poucos anos atravessa o salão, acompanhada de dois homens; um deles sussurra algo em seu ouvido ao qual ela concorda com um movimento de cabeça, séria. O azul-claro de seu vestido contrasta com seu tom de pele e ela mantém uma postura altiva, como uma mulher que está ciente do poder que tem e do impacto que pode causar nas pessoas. Ninguém que a olhasse poderia dizer que não era alguém influente; Craven, do outro lado, se apressa em cumprimentá-la.

É ela, não é?” - Diana sussurra. Eu confirmo com um gesto.

Um garçom se aproxima de nós, equilibrando duas taças de vinho numa bandeja de prata. Seu olhar se move, relutante, e eu então percebo o bilhete escrito num fino e bonito papel amarelado. Aceno com a cabeça, pego o papel e o dispenso.
Olho novamente na direção de Safroncik, e ela já não está mais lá.
O bilhete, redigido em bela e impecável caligrafia, indica o caminho de uma sala.
Passo o papel para as mãos de Diana.

Vamos.”
- Solto, desencostando da mesa. Ela concorda com um movimento quase imperceptível e vai adiante de mim na direção leste do salão.

No final do corredor, uma imensa escada em espiral se ergue, levando a outros corredores cheios de portas. Quando chegamos ao topo, vejo que o corredor nos fornece uma ampla visão do saguão inteiro e das pessoas que passeiam por ele. Em contrapartida, aqui em cima, nos tornamos muito visíveis também.
Diana caminha até a terceira porta, olha para os lados e entra, dando espaço para minha passagem.
Ouço o ruído da porta se fechando atrás de mim. Ela permanece com os dedos na maçaneta por vários segundos depois.
Passo meus olhos pela sala.
É um grande escritório, decorado à moda antiga; todo o prédio dá a sensação de termos sido transportados para o século XVIII. A arquitetura, as pinturas e esculturas, os móveis de mogno…
Ouço os passos de Diana ao longo do cômodo. De repente, me pergunto como ela está no meio de tudo isso e o que pensa sobre ter que capturar os líderes de uma das máfias mais perigosas do Ocidente.
A porta então novamente se abre, e a figura de Miranda Safroncik passa por ela.