Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

12 de nov de 2015

Sentença (3ª temp de fúria) - Capítulo 5


JAMES
Observo Sidney conectar o pendrive na entrada USB do notebook.
Desde que chegamos em Atenas, trocamos de pensão toda noite. Cada dia dormimos num lugar diferente por pura precaução. Um de nossos homens ficam lá embaixo, procurando por um visitante suspeito. Principalmente agora, quando a descoberta de que o pendrive de Kvitova foi trocado por outro, idêntico, porém completamente vazio, é iminente.


Cuido disso quando a gente voltar.”
- Sidney diz, assim que me enxerga, de soslaio, atravessar a porta do quarto.
Ela está sentada no meio de uma das camas, com as pernas cruzadas numa posição de índio e o computador pousado em seu colo.
Só estou conferindo algumas coisinhas...”

Uma das coisas que mais facilitou a entrada de Sidney Basner no exército de Beth Vaccari foi o fato de ela ter muitas habilidades; Sidney é inteligente, atira bem, dirige bem, sabe pilotar aeronaves e mexer com criptografia. O arquivo de César, seja lá qual for, com certeza está criptografado, e portanto, o trabalho de abri-lo e decifrá-lo caiu instantaneamente em suas mãos.
Beth a encontrou num racha, há alguns anos atrás, quando ela tinha acabado de fugir de Dubai para tentar a vida na América Latina. O motivo da fuga foi algo relacionado à sua família, é a única coisa que sei. Apesar do seu jeito descontraído e com ares de “não to nem aí”, há partes muito complexas dela mesma que vão muito além do que transparece na superfície.

Já organizou nossa saída, não é?” - Ela continua, alheia aos meus pensamentos. - “A gente não pode ficar nem mais um dia aqui. Nem sei se voltar para Nápoles agora é seguro.”

O que acha que pode haver nesse pendrive?” - Pergunto. Ela foca seus olhos em mim num segundo.

Não faço ideia.” - Diz. - “Com certeza é importante, ele não teria mandado entregar pessoalmente se não fosse.”

Acha que tem algo a ver com a Liza?”
- Solto, depois de um instante de vacilação. Ela afasta o notebook para o canto da cama e se levanta, caminhando em minha direção com a expressão compassiva…

Não precisar se desgastar tanto assim, James.” - Diz, suavemente. - “Você fez o que pôde pela Liza. A escolha é dela. Não adianta se preocupar a toa.”

Ele pode atacá-la a qualquer momento...”

Eu sei.”
- Interrompe.
Ele pode sim fazer isso, mas nós estaremos lá quando acontecer. Vai dar certo, pense nisso.”

LIZA
Meus saltos fazem um barulho surdo no extenso tapete.
A sala escura está repleta de quadros cobertos, telas de artistas renomados que estão esperando a perícia técnica antes de irem para o leilão. Faz alguns anos que passei a organizar esses tipos de eventos; ficar em casa, dedicando-se exclusivamente a Jennifer e a Will, apesar de maravilhoso, estava ficando cansativo.
A semi-escuridão no qual o cômodo está mergulhado, e o silêncio contínuo que predomina aqui dentro, me traz uma paz que ando precisando nesses últimos dias. Receber pessoas, cuidar dos orçamentos e acompanhar o transporte dos quadros é uma tarefa de rotina, e portanto, sistemática, e o fato de ocupar minha cabeça com tarefas metódicas torna-se uma alternativa melhor do que pensar no que aconteceu.
Beth morta.
César atrás de mim.
Will me escondendo coisas.

Solto um longo e pesado suspiro.

Com licença?”
- Uma voz masculina soa atrás de mim, hesitante.

Volto-me para o som e um homem alto, de terno negro e pele amarronzada sorri amigável para mim.
Ele avança na minha direção e estende a mão para mim.

Sou Marco Capotondi, da perícia.”
- Se apresenta.
A senhora deve ser Elisa Richmond, acertei?”

Sim.”
- Digo, apertando sua mão e retribuindo o sorriso.
É um prazer conhecê-lo.”

Adotei esse nome desde que me casei com Will, já que usar o Vaccari não seria prudente, principalmente na Itália, onde a máfia era mais conhecida. No início foi estranho ser chamada de Elisa, que apesar de ser meu nome de batismo, nunca foi um modo como as pessoas se dirigiram a mim. Mas foi uma boa sensação, de qualquer forma. Liza e Elisa são duas mulheres diferentes, dentro de uma só, e a vida e identidade da primeira era algo que eu gostaria de esquecer.

Minha equipe está para chegar” - Explica. - “Será que posso dar uma olhada nos documentos de transação?”

Claro.”
- Murmuro, caminhando até a mesa de mogno localizada no canto da sala. Da gaveta direita, puxo uma pasta com documentos que contém informações detalhadas sobre as obras e seus respectivos artistas, detalhes do penhor e do leilão no qual serão enviadas.
Capotondi passa um rápido olhar ao redor da sala, onde os quadros estão pousados. Ele se senta do outro lado da mesa, ouvindo atentamente minhas notificações com relação a negociação.
Muitas dessas obras foram apreendidas pelo governo, provenientes de lavagens de dinheiro, enquanto outras foram postas para leilão por seus proprietários, que geralmente são empresários falidos ou pelo menos, em forte crise. Dependendo da visibilidade do artista e da obra, e obviamente, da originalidade da peça, os valores dos quadros podem variar de 30 mil a 1,5 milhão.

Penso que talvez seja prudente fechar a porta.
Meus olhos migram para o local, e a visão de um homem alto, de óculos escuros e cabelo um tanto bagunçado prendem minha atenção ali.
Ele olha para mim por alguns segundos, e há algo de muito familiar em seu rosto.
Talvez seja seu cabelo, daquela cor intermediária entre o preto e o castanho, tão característico de minha irmã, Rachael.
Ao mesmo tempo que tenho a impressão de conhecê-lo há anos, suas feições são estranhas para mim. Por incrível que pareça, ele parece me conhecer também.

Sra Richmond? Sra Richmond?”
- Capotondi me chama, me libertando do transe. Pisco várias vezes, observando seu rosto confuso, antes de olhar novamente para a porta.
Ele não está mais lá.
Começo a pensar que talvez tenha sido uma alucinação.

Está tudo bem, senhora?”
- Ele pergunta, com um tom de preocupação cortês.
Aconteceu algo?”

Não.”
- Solto.
Começo a me repreender internamente.
Não deveria me deixar levar por divagações e peças da minha mente. Sempre consegui separar o trabalho de meus problemas pessoais. Não vai ser agora que vou mudar de atitude.
Era apenas um desconhecido, como todos os outros que passam por esses corredores.
Não há nada de diferente nisso.

Tem certeza?” - Capotondi pergunta, e finalmente consigo fixar minha atenção nele.

Absoluta.”
- Respondo, sorrindo decididamente.
Perdão pela distração. Podemos continuar a análise.”