Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

12 de nov de 2015

Sentença (3º temp de fúria) - Capítulo 4


JAMES
Arrumo o boné em minha cabeça, cobrindo parcialmente o rosto.
Faz um pouco mais de duas horas desde que cheguei em Atenas. Por pura precaução, decidi viajar sem Sidney. Ela tratou de ir por terra, pegando um trem para a Sérvia e de lá, partindo para a Macedônia, e por fim, Grécia. Tudo para despistar. Viajarmos juntos, de uma vez só, para um mesmo destino, chamaria muita atenção.

Há um certo charme neste país, é o que percebo, enquanto caminho pela lateral da calçada. A mansão de César está a mais de três quadras daqui, e a cada passo que dou, sinto a pressão da arma contra minha cintura. Não é minha intenção um confronto, mas é sempre bom se prevenir.
Os motivos que levam César Vaccari a escolher justo a Grécia, entre todos os países europeus – que se encontram em situação econômica muito melhor, por sinal – vão muito além da aura histórica de Antiguidade que paira sobre o país. César tem fortes conexões com o governo grego. Fornece uma considerável quantidade de dinheiro a eles. Ninguém jamais o prenderia ou o mataria aqui, porque necessitam dele.

Enfio as mãos nos bolsos da jaqueta, sentindo o celular vibrar em meus dedos.
Meus olhos se movem ligeiramente por toda a extensão da rua, antes de puxá-lo e atendê-lo.
A voz baixa, quase sussurrante de Sidney preenche meus ouvidos…

Ela acabou de passar.”

É o suficiente.
Mergulho para dentro de um bar a minha frente, movendo a frente do boné num cumprimento ao homem que caminha na minha direção. Sento-me ao lado da janela, sentindo os mistos de cheiro de bebida forte e nicotina, observando a avenida atentamente. Uma bonita garçonete faz menção para me atender, mas eu a dispenso com um aceno.
Kvitova está sendo transportada num Corolla preto, blindado, de vidros escuros, até o Banco Central, provavelmente fazendo a entrega de algo, a alguém. Até agora, a única coisa que sei é que trata-se de um pendrive. O que há exatamente nele, é algo que viajei para descobrir.
Não demora mais que vinte minutos para que o carro dela passe em frente ao bar. Envio a mensagem para um de nossos homens, plantados, juntamente com vários outros, dentro do banco.
Caminho para a rua adjacente, montando numa moto e optando por uma pista curva, diferente da que Kvitova segue. Outros homens nossos estão espalhados pelos principais pontos do caminho, nos mantendo informados de que ela se mantém no percurso original e a que horas ela chegará lá. Ao chegar na entrada dos fundos do largo prédio, troco a jaqueta pelo blazer e descarto o boné.
Meu celular toca novamente.

Ela já entrou.” - Diz um dos homens. - “Está acompanhada de um coroa de blazer azul escuro, indo para os fundos, perto de onde está.”
Descarto o celular.
Caminho rapidamente pelos corredores desertos do banco, atento a câmeras de segurança e sensores. Viro à direita e empurro uma porta, encontrando mais um corredor. No centro dele, a porta de vidro é empurrada, revelando Kvitova, acompanhada de um homem grisalho, com as mesmas características fornecidas pelo celular. Me encolho contra a parede, puxando a arma.
Ela murmura algo em russo, o qual ele responde brevemente, antes de lhe lançar uma vênia, desaparecendo pela mesma porta no qual entrou. O som dos seus sapatos ecoa pelo corredor, quebrando o silêncio. Ela caminha de costas para mim e eu a sigo.
Foi muito inteligente da parte de César fazer com que tudo isso acontecesse num banco. Há muitos guardas aqui. Um confronto armado seria desvantagem para nós. Aqui, ela está relativamente segura.
Meus passos são silenciosos, mas não duvido que ela logo perceba que eu estou aqui. Ergo minha arma na altura da sua nuca, e num segundo, rápida como o vento, ela volta-se na minha direção, sua pistola firmemente apontada para minha cabeça.
Temos a mesma altura, percebo.
Há um silenciador em sua arma.

É bom vê-la novamente, Bepoyka.” - Digo.

Solto seu nome informal num russo surpreendentemente impecável.
Vera trabalhou para os Hansson, no passado, antes de conhecer César. Ela era muito jovem e eu era uma criança quando minha mãe a levou para casa; fazia questão que a chamassem de Bepoyka, pois foi seu nome de batismo. Dizia que o som da palavra a fazia se sentir em casa.
Lembrar da minha mãe me causa uma leve sensação de desconforto. Eu sempre lhe chamei de Morgana, do mesmo jeito que minha irmã, Sharon. É estranho referir-se a ela de outra forma depois de tantos anos.

Hansson.”
- Ela sussurra, me reconhecendo. Há um minuto de vacilação, em que eu já não sou mais James Hansson, que agora é o Vaccari inimigo e ela não é mais Vera Kvitova, a assassina de aluguel. Penso que naquela época, em que ela brincava comigo nas horas vagas e me dava aulas de russo, que fazia pequenos trabalhos para Morgana Hansson porque precisava de alguns trocados, há mais de vinte anos atrás, jamais lhe passaria pela cabeça que acabaríamos assim, com pistolas apontadas um para o outro.

Mas então o momento vai embora, se desmanchando pelo ar.

O que veio fazer aqui?” - Ela pergunta, ácida. - “Pensei que não houvesse problemas entre os Hansson.”

Tem andado desinformada.”

Ela levanta uma sobrancelha em ceticismo.
Minha atenção se desvia no instante seguinte, quando dois homens atravessam a porta, com armas em punho. As lembranças nostálgicas que o encontro com Kvitova não me afetaram tanto, e meu reflexo continua afiado. Uma das minhas balas atinge o peito do primeiro e a segunda bala, a garganta do último.
Volto o rosto para o lugar onde Vera esteve, e, como previsto, ela já não está mais lá.

Empurro a porta metálica que dá para a mesma rua em que eu estive, minutos atrás. A avenida está escura e deserta, e é como se minha conversa com Kvitova fosse fruto da minha imaginação e ela tivesse evaporado, como um fantasma.
Preciso ser rápido.
A polícia não vai demorar a aparecer.

Ouço o barulho de uma arma destravando, logo atrás de mim.
Imagino que sua pistola está apontada para minha nuca, mas quando me viro, lentamente, observo que o cano da arma se pressiona contra a têmpora esquerda de Sidney, e Vera a mantém firmemente presa em seu abraço.

Não seria muito mais fácil você simplesmente atirar em mim?”
- Pergunto, fingindo indiferença.

Não quero atirar em você.” - Ela afirma. - “Só quero saber o que faz aqui, em Atenas, com uma Vaccari.”

Com isso ela se refere a Sidney, é óbvio.
Abro um sorriso enviesado e solto, casual e despreocupadamente…

Gosto da cidade.”

Ela pressiona a pistola com mais força contra Sidney, em resposta.

E quanto a quem você se refere como uma Vaccari” - Continuo. - “É uma bela moça, não acha?”

Estou mudando de ideia quanto a não atirar em você.”
- Ela atira.

Não, não está.”
- Digo, me aproximando perigosamente. Um olhar de soslaio me diz que Sidney está apreensiva, porém, com os nervos sob controle, o que ajuda muito.
É de se admirar, tenho que reconhecer. Não é todo mundo que mantém a calma quando tem uma arma apontada para sua cabeça. Principalmente quando a pessoa que a aponta trata-se de Vera Kvitova.

Não vai atirar em mim porque César não lhe permitiu isso.” - Afirmo. - “Posso até imaginar ele dizendo que quer algo limpo, sem assassinatos. Há dois homens mortos atrás daquela porta e a polícia não vai demorar a chegar. Nós sabemos onde isso vai parar. Então seria melhor se você adiantasse as coisas.”

Ela empurra Sidney para mim no instante seguinte.
Sidney tropeça algumas vezes e minha mão se fecha firmemente em volta do seu braço, lhe dando estabilidade. Kvitova continua com seus olhos fixos em mim, sua arma apontada para meu peito. Ela se afasta, lentamente, e eu a observo sumir numa das escuras saídas da rua.
Há um longo momento de silêncio, até que a gargalhada de Sidney preencha a noite.

Sinto seu tronco contrair-se em movimentos espasmódicos, e ela dá tapinhas no meu ombro antes de se afastar. Encaro seu rosto com descrença.

Do que ri?”
- Pergunto, num misto de incredulidade e diversão.

Disso.” - Afirma, apontando com o dedo para o redor da rua, sorrindo de orelha a orelha. Balanço a cabeça em resposta. Ou Sidney é muito corajosa, ou completamente louca.
Neste momento, em especial, estou inclinado a escolher a segunda opção.

A propósito”
- Diz, um pouco mais séria, como se acabasse de lembrar-se de algo. Sua mão puxa algo do bolso de trás da calça e o estende para mim…
Aqui está o seu pendrive.”