Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

25 de nov de 2015

Sentença (3ª temp de fúria) - Capítulo 15


WILL
Os papéis espalhados na minha mesa me dão um relatório completo sobre a extensa família Vaccari.

Jonathan Vaccari é o quarto filho de uma família essencialmente tradicional e machista, que passou todo o controle da máfia para suas mãos, ao invés de suas outras três irmãs mais velhas.
Elas não foram treinadas para os negócios, de qualquer forma, e seus pais se preocuparam mais em casá-las com membros de famílias poderosas não somente da Europa, como da América e Ásia.
É realmente um feito que Beth Vaccari, uma mulher, tenha chegado ao topo da hierarquia, visto que seu pai tinha a mesma forma de pensamento que seus avós.
Ela fez todo o seu caminho até a chefia, expondo o quanto tinha a personalidade de um líder, impondo-se e se fazendo ouvir perante os irmãos, ganhando a simpatia dos outros membros da mafia até forçá-los a reconhecer sua importância.
A permissão para treiná-la saiu a contra-gosto da boca de seu pai, depois da pressão da esposa e dos amigos mais próximos. Beth foi treinada pelo irmão, Anthony, para aprender a defender-se e a negociar. Passou a estar em reuniões e nos negócios ilícitos da família, em assassinatos, roubos e sequestros, e aprendeu a construir uma casca tão dura e espessa que seus pontos fracos tornaram-se inacessíveis.
César Vaccari, por sua vez, observava tudo isso, de longe.
É curioso o fato de que as ligações da família com o Brasil vão muito além de simples negócios lucrativos. Há sangue brasileiro na linhagem Vaccari desde antigas gerações e até mesmo César Vaccari tem uma mãe brasileira.

Maria Antônia de Ambrósio foi a primeira esposa de Jonathan Vaccari e seu casamento foi muito curto, muito suspeito e muito conturbado. A família é politicamente influente, é claro, mas por alguma razão, Jonathan rompeu o relacionamento depois de sua gravidez.
Os pais não a aceitariam em casa, então ela teve que fugir para a França para ter o bebê. Quando César fez um ano, Jonathan mandou que a matassem e trouxessem a criança. César então passou a ser criado como um sobrinho de Jonathan, por uma das irmãs de Jonathan, a única que ainda morava na Itália, até completar os quinze anos.

Alguma notícia da Diana?”
- A voz de Craven surge de repente no escritório, puxando minha atenção para ele.

Craven está parado no vão da porta, e eu não preciso dizer nada para que ele entre e puxe uma cadeira. Há um longo período em que ele fica olhando para mim, meio apreensivo, meio preocupado.
Seu olhar vai então para as fichas na mesa.

É sobre os Vaccari, não é?” - Ele pergunta.

Sim.” - Digo. - “E não tenho noticias da Diana.”

Ele solta uma longa expiração.

Olha, Richmond, eu não estou confortável com essa situação.”
- Desabafa.

Eu sei.”

Não, é sério.”
- Ele diz. Há uma pausa em que eu percebo que seja lá o que ele estiver prestes a falar, não será algo fácil para ele.
Eu sinto muito. Por ter te posto nessa, não só a você, como à Diana também. Sinto que traí sua confiança.”

É claro que Mark Craven não traiu minha confiança, até porque ele nunca a teve.
Mas ao invés disso, o que eu digo é:

Não cabia a você escolher quem iria para a operação. Quem decidiu isso foi Safroncik, não foi?”

Sim, mas fui eu que indiquei vocês.”
- Solta.
Safroncik só aceitou minha indicação. Ela só queria estar ciente de tudo o que estava acontecendo.”

Apoio os cotovelos em cima da mesa, soltando um suspiro impaciente.
Craven segue meu olhar, cheio de expectativa, e eu comprimo os lábios até formarem uma linha.

Não faz diferença agora, faz?”
- Solto. Posso ver uma ponta de decepção em seu rosto.

Por mais que Craven pareça desconfortável e até arrependido, eu sei que essa atual compaixão é passageira.
Ele não sente por ter me indicado para a operação, porque em sua cabeça, ele fez a coisa certa.
A pior parte é que penso que ele provavelmente está certo. Eu sou um policial, estou a serviço da lei, portanto devo colocar minhas obrigações acima de qualquer laço emocional.

Craven apoia as mãos nas coxas e se levanta, pronto para ir embora.

Não, não faz diferença.”
- Ele solta, quase num sussurro. Então quando já está na porta ele lança, por cima do ombro…
Se precisar de alguma coisa, estou na sala ao lado.”
DIANA
2º DIA, SEIS HORAS E QUARENTA E CINCO DA MANHÃ
Observo a muito bela, muito pálida e muito ardilosa Vera Kvitova mover-se como uma naja pelas escadas da sala de estar.
Ela fixa seu olhar em mim durante todo o percurso, como que dizendo para que eu pare e a observe fazer o que quer que seja. Dado nossa última quase-conversa, provavelmente o que vem em seguida não é nada bom.

Maria Belagamba, acertei?”
- Ela diz em seu sotaque russo. Concordo com um sorriso cortês em resposta.
Soube que foi contratada.”

Sim, o Sr Vaccari me contratou.” - Respondo. Me referir a César como 'Sr Vaccari' causa uma imensa estranheza em mim.

Ela me lança um sorriso tão falso que chega a ser irritante.

Vera.”
- Ela diz, estendendo a mão para mim. Eu retribuo com um leve aperto.
Com certeza deve ser muito competente para que César a contratasse.”

Prefiro não fazer comentários quanto a essa afirmação.

E confiável também.”
- Ela continua.
César conhece muito bem as pessoas. Consegue sondá-las. Isso é o que ele faz de melhor.”

Que ótimo.” - Digo. Então penso que é uma boa hora para encerrar essa conversa, então digo… - “Mas se me der licença, senhora, preciso ir para o meu posto.”

Não espero resposta.
Assim que me viro de costas, pronta para me afastar, ela lança por cima do ombro…

Não quer saber o que aconteceu com a última governanta?”

Encaro seu rosto.

Acredito que não me diga respeito.” - Disparo.

Ela morreu.”
- Vera diz, ignorando meu comentário.
Parada respiratória. Uma lástima.”

Então Kvitova volta a aproximar-se, e agora percebo que não somente seu andar me faz lembrar uma naja, mas seu olhar, suas palavras, me levam a conclusão de que ela é toda uma serpente.
E como uma serpente, sempre está preparada para o bote.

É intrigante, pois ela era muito nova, assim como você.”
- Ela lança com uma voz suave, baixa, que mais parece um sussurro, carregada de veneno.
Me diga, senhorita Belagamba, esse tipo de morte não costuma acontecer com jovenzinhas de sua idade, costuma?”

Eu me mantenho calada.

Tenha um bom dia, ragazza.”
- Ela diz, pronta para ir. Não me contenho…

Compreende muitos idiomas, senhora.”
Ela me lança um olhar ácido por cima do ombro. O desdenhoso de sua voz, praguejando em russo sobre a minha chegada soa nos meus ouvidos quando ela cospe, por fim…

Assim como você.”