Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

23 de nov de 2015

Sentença (3ª temp de fúria) - Capítulo 14


LIZA
A luz do sol atravessa as cortinas do quarto.
Pousado, no meu colo, está o diário da minha mãe, firmemente fechado, com as bordas da capa desgastadas e aparentando tão antigo quanto uma relíquia de museu.
Eu pensava em queimá-lo junto com a carta do enigma, mas de repente isso tinha me soado mal, como uma espécie de blasfêmia à memória de minha mãe.
Ela era muito mais inteligente do que deixava transparecer.
Beth sempre enxergou isso, e não cansava de dizer o quanto os outros a subestimavam.
Era exatamente esse o assunto da última conversa que tive com ela, semanas antes de sua morte. Beth me disse o quanto minha mãe era inteligente, engenhosa, com um tom de voz que denunciava que haviam muitas outras mensagens atrás daquela simples conversa.


Deve haver algum tipo de energia oculta nessas páginas, porque assim que as toco, meu pulso acelera.
Me pergunto se César tinha enxergado essas qualidades nela.

Eu e Will voltamos a uma convivência relativamente normal e nada aconteceu com Jennifer. Nenhuma ameaça. Nenhum olhar ou visita perigosa rondando os lugares que ela frequenta. Eu deveria estar aliviada, mas a estranha calmaria me deixa ainda mais nervosa, como se a suposta paz fosse o prenúncio de uma coisa muito ruim.
Talvez essa seja exatamente a intenção do César.
Ele fica quieto, me deixa remoer todas as expectativas e suposições, até que eu fique louca, debilitada pela ansiosidade. E então ele ataca.

Jennifer Shrader Vaccari.”
Sussurro o nome completo da minha mãe.
Me pergunto que tipo de personagem meu pai criou para conquistá-la, qual tipo de encenação suficientemente boa para esconder tudo o que havia no sobrenome que ele queria lhe atribuir.
Boa parte das memórias antigas se foram com as sequelas do “coma” que eu sofri há uns vinte anos atrás. Forço a minha mente em busca de alguma coisa, mas só consigo me lembrar de suas mãos no meu cabelo, enquanto ela ria dizendo o quanto eu parecia com a Beth.
Beth era a única da família na qual ela permitia que eu tivesse alguma proximidade.
As duas tinham uma ligação forte e abstrata, talvez pelo fato de que ambas se entendiam. Beth lamentava o fato de Jennifer ter se casado com o meu pai. Minha mãe confiava nela porque sabia que não tinha a natureza sádica compartilhada por meu pai e por César. Era boa, apesar de não gostar de admitir isso.

Rachael era muito bebê quando eles morreram.
Me pergunto se ela amaria minha irmã com a mesma intensidade com a qual me amou.

Abro o diário até a última página.
Desde que eu descobri sobre as Lolitas, nunca mais quis ler, mesmo sabendo que as respostas sobre o enigma podem estar aqui.
Ao invés de algum texto ou relato da minha mãe, há uma lista de palavras soltas, em idiomas diferentes, alguns dos quais não consigo identificar, algumas delas riscadas, que tomam quase toda a folha.


تیتانیوم
Schlüssel

hột nổ

Posso detectar o idioma de uma palavra. Alemão.
Chave.
Tenho a horrível sensação de que o enigma é algo inacabado.

DIANA
O escritório de César Vaccari é tão cheio de designs e aromas masculinos que me sinto desconfortável aqui dentro.
É claro que boa parte do meu desconforto está relacionado ao fato de que tenho os olhos dele fixados em mim, seguindo todos os meus movimentos, enquanto ele puxa a cadeira para mim e eu sento.
Ele faz parecer como se tudo isso fosse um encontro casual e não uma entrevista de emprego.
Eu sinceramente não veria problemas em ter minha personalidade analisada, exceto quando a pessoa que o faz é ele. Qualquer coisa que ele descubra sobre mim, torna-se uma arma que ele posteriormente pode usar contra mim.
Solto o ar pela boca, tentando parecer mais estável do que estou.

Maria Belagamba. Natural de Milão, certo?”
- Ele diz, abrindo a pasta que contém as minhas supostas informações. Confirmo com a cabeça.
Você tem muitas recomendações, Maria. Algumas delas de pessoas especialmente próximas a mim.”

Posso ver Mogherini movendo as peças, abrindo o caminho para me infiltrar.
Subornando pessoas, ameaçando outras…

Deve saber que faço uma pesquisa especial das pessoas que me mandam seus currículos, e com certeza não chamaria você aqui se não tivesse a intenção de contratá-la.”
- Ele continua.
A mansão passa por procedimentos rigorosos de segurança, para proteção não só minha como de todos os funcionários que trabalham aqui. Esses procedimentos incluem as regras de comportamento impostas a todos os empregados. Têm algo contra isso?”

Não, senhor.” - Digo.

Novamente surge o incômodo de tratá-lo dessa forma.

Ele concorda com a cabeça, em aprovação.

Então, a senhora vai trabalhar durante os sete dias da semana e deverá dormir seis dias aqui dentro, sendo o sétimo, qualquer dia que escolher, livre para passar a noite onde quiser. É proibido qualquer tipo de comentário referente aos proprietários ou objetos que estejam na mansão e arredores. É necessário que haja total discrição da sua parte. Acredito que não haja nenhuma dúvida com relação ao salário.”

Ele abandonou a expressão simpática e os sorrisos enviesados, mas ainda faz o personagem.
César observa atentamente o meu rosto enquanto dita todas as regras que tenho que seguir pelos próximos meses, pronto para detectar qualquer tipo de desaprovação quanto às suas normas.
Ele precisa de empregados submissos, dedicados e inertes ao que ele realmente faz, e tenho a impressão de que qualquer movimento em falso pode colocar tudo a perder.
Minha mente fervilha com todas as rotas que traço para enviar as informações para Will e consequentemente, Mogherini, enquanto César permanece em silêncio.
Percebo então que sua última frase não foi uma retórica, e ele realmente está esperando uma confirmação minha sobre o acerto do salário que, vale salientar, é quase o triplo do que uma governanta qualquer ganharia.

Não há dúvida nenhuma, senhor.” - Digo, lançando um sorriso sereno e profissional. - “Posso começar amanhã?”