Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

19 de nov de 2015

Sentença (3ª temp de fúria) - Capítulo 13


No fundo eu sempre soube que o momento chegaria.
Eu não sabia como ou quando viria, mas sabia que César não cruzaria os braços e ignoraria o fato de termos eclodido sua mansão e roubado sua carga.
Enquanto guio o carro em direção à sede Hansson, penso se devo ficar aliviado ou não por César ter atacado Augusto Van Bergen ao invés da Liza.
Num momento como esse, a morte do líder Hansson, que era um parente de segundo ou terceiro grau da Beth e alguém de extrema confiança, pode nos deixar ainda mais desprotegidos.


Entrar no prédio em que circulei por boa parte da minha vida traz toda uma aura nostálgica, uma mistura de alegria e dor por tudo o que ganhei e perdi nesse lugar. Ele continua do mesmo jeito em que esteve há mais de dez anos atrás, com todo o ar futurista e design monocromático, portas de correr e escadarias impecavelmente brancas.
A sala do chefe, no último andar, que durante muito tempo pertenceu a Thomas Hansson, agora abriga somente duas pessoas, nenhuma delas com “Hansson” no sobrenome.
Yuval é a primeira a entrar no meu campo de visão, de pé, com o celular colado à orelha, dizendo algo a alguém, com o cenho franzido.
Do outro lado da sala, com o rosto pousado sobre a mesa, a holandesa Julia Van Bergen, esposa de Augusto, soluça, desolada, com o rosto banhado em lágrimas.
Ela se levanta assim que me vê, e sua expressão muda de tristeza para raiva.

Estendo a mão para tocar seu braço, mas ela o afasta, com repulsa.

Julia, eu...”

Isso é tudo culpa sua.” - Ela interrompe, a voz rouca pelo choro.

Sinto muito por seu marido.”
- É o que eu digo.
Eu não queria que isso acontecesse.”

Mas aconteceu.”
- Ela diz.
Tantas vezes eu disse para nos manter longe disso, tantas vezes eu disse que se acontecesse alguma coisa com meu marido eu não iria te perdoar e...”

Ele aceitou ser o chefe por vontade própria, Julia!”
- Yuval explode.
Ninguém o obrigou a fazer nada disso e você sabe. Acha que a gente tá feliz por ele ter morrido?!”

Yuval...” - Solto. Ela se cala.

Julia passa as mãos no rosto, enxugando as lágrimas e assumindo uma serenidade fingida.
Ela respira fundo, fecha os olhos e diz…

Como ficam as coisas agora?”
- Então completa:
Quero dizer, a máfia. Alguém tem que assumir o lugar dele.”

Nós permanecemos em silêncio.

César não fez isso pelo que aconteceu na mansão dele.”
- Yuval solta.
Foi pela Liza. Ele sabe que quem vai assumir é você, James, e na chefia dos Hansson vai ficar mais difícil protegê-la.”

Julia suspira.

É sempre a Liza, não é? Parece que o mundo gira em torno dela.”
- Solta, rancorosa.
Graças a essa briguinha ridícula entre os dois meu marido está morto.”

Yuval lança um olhar azedo na direção de Julia.
Eu observo a cena e percebo que, infelizmente, Yuval está certa.
Por maior que tenham sido os prejuízos de César, quase nada do que ele fez nos últimos anos não tenha a ver com ela.
Liza é sua obsessão, e a coisa que ele mais anseia é ver sua morte, mas não desse jeito.
César pode matá-la agora mesmo se quiser, mas ele não quer que seja tão fácil assim.
A partir do momento em que eu saio de cena, ela é automaticamente tirada de sua relativa zona de conforto.
Sinto-me num imenso tabuleiro de xadrez.
César vai forçá-la a voltar para a máfia.

DIANA
O táxi para em frente ao condomínio.
Solto uma afirmação qualquer, em grego, para o motorista e lhe entrego uma quantia equivalente a quinze euros, abrindo a porta em seguida.
Depois do colegial, quando eu ainda nem sonhava em ser policial e muito menos me infiltrar na casa de mafiosos, como o que estou prestes a fazer agora, entrei numa série de intercâmbios para tentar esquecer o quão contrariada eu estava por não ter entrado na universidade. Eu tinha traçado uma rota, uma linha reta e perfeita na qual seria a minha vida pelos próximos vinte anos, cheia de conquistas e atitudes calculadas.
Doce ilusão.
Eu deveria saber que a vida não é tão previsível assim.
Estou refletindo sobre o quão útil está sendo toda essa bagagem de idiomas e experiências vividas fora da Itália, enquanto meus saltos fazem um barulho surdo na calçada. É claro que quando estive em Atenas e aprendi devotamente o grego, há mais de oito anos atrás, nunca imaginei que esse conhecimento em especial seria usado para isso.
Uma risada louca e borbulhante surge das minhas entranhas, mas vai embora tão rápido quanto veio.

Desde que acordei até o instante atual, sinto como se todas as minhas ações estivessem mecanizadas, como se eu estivesse no automático. Eu me sento anestesiada, estranhamente calma, quando eu deveria estar me definhando em ansiosidade e preocupação por estar caminhando para a mansão de César Vaccari.
A presença de Arjean me causou mais impacto que suas palavras.
É claro que eu tenho a total consciência do risco que estou correndo, praticamente caminhando para a morte, mas não é como se eu tivesse escolha. E sinceramente, eu preferiria ser afogada, estrangulada e esquartejada por César ao passar a minha vida inteira fugindo da Interpol e dependendo da boa vontade de Arjean.

Há uma estrada em curva por toda a extensão do condomínio, e uma ou outra mansão surge no meio do caminho. São casas imensas, com aspecto de Grécia Antiga, com suas paredes num branco impecável.
Há algumas árvores e seguranças vestidos de preto, com coletes a prova de balas e pistolas no coldre. Eles lançam olhares céticos na minha direção, mas eu me mantenho neutra, impassível.
É admirável o fato de eu ainda não ter entrado em alguma espécie de colapso nervoso.
A mansão de César se ergue no fim da estrada, e a quantidade de seguranças se multiplica no meu campo de visão, a cada passo meu. O aspecto dos homens de preto, com seus rostos endurecidos e posturas implacáveis se diverge dos outros seguranças do condomínio, o que me faz pensar que esses são, na verdade, capangas de César. Eles se concentram na monumental porta de entrada da mansão, vários metros longe das grades da portaria.
Me certifico que não há um fio de cabelo solto do penteado e a voz de Will soa, de repente, na minha cabeça…

Você precisa parecer fina e organizada...”

E confiante, acrescento mentalmente.
É o que percebo ao me aproximar do portão.
Só a minha proximidade da mansão já faz com que um dos capangas caminhe na minha direção, carrancudo.
Sustento firmemente o olhar.

Quem é você?!” - Ele pergunta, rude.

Maria Belagamba.”
- Respondo e minha voz sai surpreendentemente calma e nítida. Limpa.
Sou candidata ao emprego de governanta da casa. Tenho uma entrevista com o sr Vaccari.”

Ele me dá uma boa olhada antes de dizer…

Espere aqui.”

E eu espero.
Ele volta, conversa alguma coisa com outro capanga, olha para mim e entra na casa. Crio uma nota mental de manter a coluna ereta, independente de quanto tempo eles me fizerem esperar em pé.
Depois de, suspeito eu, muito menos tempo do que pareceu para mim, ele reaparece, caminha para mim e abre o portão.
Foco meu olhar na porta à minha frente, enquanto sou escoltada pelo homem que, agora percebo, é pelos menos uns vinte centímetros mais alto que eu.
Quando me aproximo da entrada, eles recolhem a minha bolsa e aproximam um detector de metais por toda a extensão do meu corpo.

Eu sou liberada, mas a escolta não vai embora.
Quando entro na mansão, percebo que o aspecto interior é completamente diferente e improvável do que seria se comparado com o aspecto exterior. Parece muito vazio e sem graça observando na linha horizontal, com um saguão imenso e uma larga escada no centro, ocupado apenas por um imenso vaso que acredito ser persa, no canto; entretanto, olhando para cima, o visual torna-se incrível.
Há uma série de corredores circulares, que juntos formam um espiral; Todos os andares são abertos, visualmente idênticos, cheios de portas e sacadas simples, e os círculos parecem ficar cada vez mais estreitos a cada andar percorrido. Bem acima, a metros de altura, um imenso lustre se sustenta, como uma joia.

Fascinante, não é?”
- Uma voz profunda, um tanto rouca e nitidamente masculina, soa logo atrás de mim. Eu olho para trás, num sobressalto, e encontro os olhos negros de César Vaccari pousados sobre mim.

Ele sorri, displicente, e avança na minha direção, devagar e seguro.

Fiz questão de acompanhar a projeção.” - Continua. - “Contratei os melhores engenheiros e arquitetos para que tudo ficasse perfeito, como está.”

Tenho um vislumbre de um dos personagens que César cria para quem está de fora. Ele soa como um empresário charmoso e bem humorado, de férias, aproveitando uma simples e inocente estadia numa de suas mansões. Não há indícios de sua natureza sádica, e ele está tentando manipular minha opinião sobre ele, me lançando sorrisos enviesados e sendo simpático com a candidata ao emprego.
César não tem uma beleza assombrosa e incomum, mas é bonito aos padrões europeus, com o corpo em forma apesar dos cinquenta e poucos anos, o nariz fino e as feições proporcionais, o cabelo grisalho e a barba bem feita.
Mas são seus olhos que capturam a atenção.
Eles são tão negros que é difícil diferenciar a íris da pupila, e encará-los me dá a sensação de que nunca conseguiria lê-los, por mais que eu tentasse.
É como se formassem uma barreira intransponível, que não me permite enxergar o homem atrás da superfície.
A ideia de que César Vaccari é um quebra-cabeça que nunca conseguirei resolver é desconcertante. E assustador.

É muito interessante o fato de que a beleza da casa está parcialmente escondida.” - Ele continua. - “Se você não movimentar sua cabeça e permanecer olhando numa só direção, não vai conseguir desfrutar a paisagem.”

É muito subjetivo, sr Vaccari.” - Digo.

Ele sorri.

Não gosto de fazer nada sem um significado especial.”

César faz sinal para que eu o siga, e eu subo as escadas logo atrás dele. Aparecem outros dois homens na entrada do primeiro andar, nos quais César cumprimenta com tapinhas nos ombros. Há uma porta dupla a poucos metros da escada, por onde sai uma mulher branca como uma estátua de mármore, vestida num roupão verde-escuro, de seda esvoaçante.
Seus olhos se prendem em César por dois segundos e há algum tipo de conversação codificada entre eles.
Então César entra na sala e ela lança um olhar gélido na minha direção.
O reconhecimento e as informações que surgem com ele surgem como um avalanche na minha mente.

Esta mulher é Vera Kvitova, a pedrinha no sapato da força policial russa. Por maior que sejam as suspeitas de suas atividades ilícitas, ninguém nunca conseguiu encontrar uma evidência suficientemente irrefutável que a colocasse na cadeia; já foi posta sob custódia quando se tornou suspeita do assassinato de um general do exército russo, mas foi solta por falta de provas e abundância de amizades influentes.
Ela é uma assassina de aluguel, no final das contas.
É paga com grandes quantidades de dinheiro e já foi contratada até mesmo por membros do governo. Não possui uma forma fixa de matar, apesar de preferir o envenenamento. Não possui nome fixo, aparência fixa, endereço fixo nem nada que facilite sua localização. A Interpol já estava ciente de suas ligações com César Vaccari, mas vê-la aqui, em sua mansão, é a prova que eles precisavam.
Pegando César, pegam Kvitova e todo o resto.

Ela avança para descer as escadas, e nossos ombros quase encostam quando ouço ela praguejar, em voz baixa, mas suficientemente audível para que eu ouça…
Blin Ital'yanskiy.”

Foi proposital.
Ela deu a entender que era algo relacionado a mim, e queria que eu escutasse, porque presume que eu não saiba o russo.
Minha mente traduz automaticamente.
Malditos italianos.
Por mais prudente e útil que seja permitir que ela pense que eu não sei o idioma, eu não consigo conter a farpa.
Observo-a por cima do ombro e abro a boca, não conseguindo abafar o sorriso satisfeito e o tom de escárnio que surge nos meus lábios…
De vez em quando é bom obedecer aos impulsos.

Bylo ochen' priyatno vstretit'sya s vami, ledi.”**

**”É um prazer conhecê-la, senhora.”