Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

12 de nov de 2015

Sentença (3ª temp de fúria) - Capítulo 11


DIANA
A foto envernizada de uma moça muito parecida comigo, mas ao mesmo tempo, muito diferente de mim brilha sob a luz proveniente do abajur.
Os documentos estão perfeitos, e não há ninguém que diga que essa moça não sou eu; ela tem o cabelo parecido com o meu, o nariz, o formato do rosto, a boca…
Mas não seus olhos.
São da mesma cor que os meus, claro, aquele bem comum castanho escuro, mas a forma como eles se movem, como enxergam as coisas, o que revelam da pessoa a qual pertencem cria um profundo abismo entre nós duas.
Felizmente, a balconista do aeroporto não vai reparar nisso.


Mogherini disse que Maria Belagamba realmente existiu, mas morreu há oito meses e seu óbito não foi registrado. Quando César puxar sua ficha, todas as informações que eu der vão constar como verdadeiras e os arquivos vão dizer que Maria ainda está viva. Vai ser muito mais seguro e eficaz do que criar um nome aleatório e falsificar um monte de documentos.
Me pergunto se seus pais sabem o que aconteceu.

Diana.”
- Uma voz grave, profunda e horrivelmente conhecida me causa um sobressalto. Na penumbra, encostado na parede do meu quarto, ele cruza os braços, despreocupado, da mesma forma que fazia anos atrás quando tudo estava bem e eu não sabia quem ele era.

Arjean?” - Solto. - “O que faz aqui?”

Feliz em me ver?”
- Pergunta, com um sorriso enviesado. Ele avança para minha cama e eu me apresso em guardar os documentos. Seus olhos percorrem o meu rosto e ele diz, sentando-se ao meu lado...
Não precisa ficar assustada. Eu vim em paz.”

Meu casamento com Arjean Jacquard foi algo que fiz questão de esconder nos últimos dez anos, desde que eu descobri qual era a real natureza dos negócios de que ele tanto falava. É claro que sua repentina visita, depois de tanto tempo me assusta, principalmente pelo fato de que ele é intimamente ligado a César Vaccari.
Quando ele se senta, a luz do abajur revela como o tempo foi bom para com ele. Os únicos sinais de idade visíveis são as poucas rugas no canto de seus olhos e os esporádicos fios de cabelo branco, misturados aos fios loiros.
Ele é vários anos mais velho do que eu, e essa foi uma das coisas que mais me atraiu nele; ele permanece com o mesmo charme de antes e suas pupilas contraídas revelam o quanto seus olhos são azuis. Eu odeio me sentir assim, desconcertada pela proximidade dele, aborrecida por me permitir ser afetada por isso e amedrontada pelo fato de que eu não sou indiferente a ele. Nunca consegui ser.

Você não respondeu a minha pergunta.” - É o que eu digo, tentando soar o mais firme possível.

Esses documentos não são seus, acertei?”
- Ele diz, olhando para a mochila. Me mantenho calada.
Pelo seu silêncio, a resposta é sim. É exatamente por causa disso que estou aqui.”

Está monitorando o que eu faço agora?” - Lanço, ácida.

E se eu estivesse?”

Não deveria.”

Eu sei o que vai fazer.” - Ele diz. - “E digo que é melhor você pular fora enquanto é tempo.”

Semicerro os olhos.

E o que acha que vou fazer?” - Pergunto.

Se infiltrar na casa do César.”
- Diz. Ele percebe minha preocupação imediatamente e completa:
Ele não sabe de nada. Ainda. Não vou contar nada, se é isso que está pensando. Vim aqui por que me preocupo com você. Posso te tirar da Itália se quiser, ninguém vai te importunar. Você não precisa fazer isso...”

Sinceramente, Arjean, você não está em condições de me dizer o que eu preciso.” - Disparo. - “Eu me lembro de ter cortado relações com você, o que significa que você nem deveria estar aqui e...”

Isso não é sobre eu e você!”
- Ele explode.
Acha que não estou me arriscando vindo aqui?! Se você entrar naquela casa, não vai ter mais volta. Eu não vou ter como te proteger se ele descobrir.”

Você está aqui porque o meu envolvimento nisso vai atrapalhar os seus negócios com ele, não é?!”
- Solto.
Como ele pode confiar em Arjean Jacquard se a esposa dele está tentando pegá-lo para a polícia?! Olha, pode ficar tranquilo, prometo que vou fazer de tudo para manter suas transações fora disso.”

Diana, me escute...”

Saia da minha casa.” - Ordeno. Ele não faz o mínimo movimento. - “Por favor, Arjean. Você sabe que não vou mudar de ideia.”

Ele fica uns instantes quieto, em silêncio, e eu observo a cena.
Ele está com os braços apoiados no colchão, sentado, olhando fixamente para mim como se estivesse tentando resgatar uma memória antiga.
Uma parte de mim quer agarrá-lo, ali mesmo, na minha cama e beijá-lo, e outra parte lamenta as nossas circunstâncias. Nosso casamento poderia permanecer feliz e sólido se eu não descobrisse o que ele faz. E se eu não fosse honesta o suficiente para não fazer vista grossa disso.

Quando deixou de me ouvir?”
- Ele pergunta, quase num sussurro. Soa como alguém cansado e remotamente arrependido. Mas eu não confio em suas palavras. Meu ceticismo quanto ao que ele diz é a única coisa que me impede de ceder.

Quando descobri quem você é.” - Respondo. Ele concorda com a cabeça, como se esperasse por essa resposta.

Arjean caminha até a porta, e eu me pergunto porque nenhum de nós pediu o divórcio até agora.
Ele põe a mão na maçaneta, olha para mim pela última vez e diz…

Boa sorte pra você, então.”

JAMES
Paro o carro em frente ao parque.
Sidney permaneceu calada durante toda a viajem, com os olhos vidrados, tensa desde que atendeu o telefone. Suspiro.
Eu podia muito bem desligar aquela ligação e fingir que nada tinha acontecido, para poupá-la, mas sabia que não seria honesto. Eu gosto muito dela. Se tem alguém a qual eu deva ser leal, é à ela.
Ela abre a porta assim que estaciono e avança para a calçada.
Seu rosto está duro, contraído e ela pisa forte em direção ao centro do parque.
No canto de um banco, em frente ao imenso chafariz, a burca cobre os cabelos de Hayat Albandak, esposa do pai de Sidney. Eu me mantenho dentro do carro, e observo de longe, a forma como o rosto de Hayat muda ao vê-la, consternada.

Ali.”
- Sussurra.

Há alguns anos atrás Sidney me contou que seu nome verdadeiro era Ali Albandak, e que era filha bastarda de Conan Albandak, um membro influente da elite árabe, vindo de uma família tradicional e conservadora, dono de uma rede de hotéis em Dubai. Sua mãe desapareceu e seu pai a criou desde bebê, mas nunca a tratou como filha. Seu relacionamento com a madrasta, Hayat, não era dos melhores, recusou-se a casar-se com os pretendentes de seu pai, e quando a notícia de sua 'não-conversão' ao islamismo caiu nos ouvidos da sociedade, foi a gota d'água.
Sidney disse que decidiu fugir de casa antes de acabar sendo expulsa.

O que faz aqui?” - Ela pergunta, e sua voz soa tão dura que é irreconhecível.

É sobre a sua família, Ali.” - Diz. - “E ficaria feliz se não falasse comigo nesse tom.”

Eu ficaria feliz se você não me chamasse de Ali.”
- Rebate.
Meu nome é Sidney Basner, e até onde eu sei, não tenho uma família.”

É sobre o seu pai.”
- Hayat afirma.
Ele morreu. Há duas semanas.”

Sua boca se abre, mas ela fica quieta, estática.

O testamento foi aberto ontem.” - Hayat continua. - “Ele passou todas as ações para o seu nome. Agora os hotéis, apartamentos, até a casa em Dubai é sua. Você está rica.”

Por que ele faria isso?” - Sidney pergunta, ainda na defensiva.

Não sei.” - Hayat diz. - “Mas fez. O fato é que você não precisa mais ficar na Itália.”

Sidney solta um riso sem humor.

Você não entende, não é?”
- Diz.
Minha vida é aqui e vai continuar sendo. Nem toda a herança do mundo vai me fazer voltar pra lá.”

Está sendo muito mal-agradecida, sabia?” - Dispara. - “Eu poderia muito bem dizer a todos que você morreu e tomar a sua herança. Todos acreditariam em mim.”

Então por que não fez isso?”

Porque sou uma mulher honesta.”

Sidney ri.

Diferentemente de você.” - Completa. - “Acha que eu não sei que entrou para a máfia?!”

Se não tem mais nada a dizer, Hayat, com licença.”
- Ela diz, pronta para se afastar.

Você não merece o amor dele.”
- Cospe.
Seu pai. Ele passou os últimos cinco anos procurando por você.”

Mais alguma coisa?”

Ele sofreu quando você foi embora. Outras famílias teriam te enxotado quando ainda era um bebê!”

Acabou?”

Hayat se cala.
Sidney aguarda, por alguns segundos, com o rosto neutro.
Apesar de aparentar indiferença, eu sei o quanto está sofrendo por dentro.
Sua situação com o pai foi uma ferida aberta que ela passou a vida ignorando.
Sidney começa a caminhar na minha direção, e eu sinto que ela está prestes a desabar.
Ela abre a porta do carro e a fecha com força, tentando conter as lágrimas. Ver seu rosto do jeito que está agora, tão diferente do que normalmente é, ver o quanto ela luta para esconder sua fraqueza, apesar de estar escancarado em sua expressão é triste, e até mesmo, assustador.

Dirige, James.” - Ela diz, com a voz embargada. Sigo seu comando sem objetar, sem forçar a barra.
A iniciativa de conversar sobre o assunto precisa partir dela.

Guio o carro pelas ruas, e ela olha para a janela, resoluta. De soslaio, posso ver as lágrimas escorrendo pelo seu rosto.