Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

14 de out de 2015

Sentença (3ª temp de Fúria) - Capítulo 3





LIZA

O mar se estende, calmo, a vários metros de onde estou.
Beth sempre amou a Itália, e a escolha de Nápoles como a cidade em que eu deveria morar pelos próximos anos uniu o útil ao agradável; no começo eu resisti, mas então, em nome da segurança, eu acatei a mais esse pedido dela. O núcleo Vaccari está situado nas duas cidades próximas daqui – Bari e Catanzaro – e basta uma ligação minha para minha casa estar lotada de soldados bem armados de Beth. Bom, pelo menos, até a morte dela.
Não posso negar que as palavras de James me afetaram. A consciência de que o único obstáculo que me separava de César acabou de ser removido me faz gelar até os ossos. Eu tenho que fazer alguma coisa, mas não tenho muitas opções; ou aceitar as condições e voltar para a guerra ou continuar onde estou e correr o risco de morrer.

Solto uma longa e gradativa expiração.
Vários rostos se escondem atrás de óculos escuros e gorros, e o vento forte zune nos meus ouvidos. Lá na frente, na beira da praia, do grupo surge uma mulher de vestido longo, preto, carregando uma espécie de bandeja arredondada envolta num pano branco. Dentro do mar, com a água numa altura um pouco acima dos tornozelos, ela ergue a bandeja o mais alto que pode, e as cinzas da minha tia se espalham, num redemoinho que não demora a desaparecer…

“Era você quem deveria estar lá.”
- A voz de James surge atrás de mim. Encaro seu rosto. Há alguns pelos brancos em sua barba rala e seu cabelo, nas têmporas. As rugas que surgem demonstram que ele já passou dos 40. O tempo fez bem para ele, entretanto.

“Sempre soube que eu viria, não é?”
- Solto.
“Seria uma desalmada se não viesse.”

Silêncio.
Meus olhos passeiam por toda a extensão da praia deserta. Não há mais que 15 pessoas nesse velório. Todos eles membros da máfia.
Deveria ser uma cerimônia memorável, repleta de pessoas. Ela merecia isso.

“Quando conseguimos cremar um dos nossos, normalmente aparece a família.” - James diz. - “São pessoas muito diferentes de nós, é fácil identificar. Elas simplesmente aparecem e nós deixamos que chorem pelo corpo e então elas somem e nunca mais vamos revê-las. Isso não aconteceu hoje.”

“Toda família da Beth está morta.”

“Menos você.”
- Rebate.
“Você era a única pessoa que ela realmente se importava. Você é a única que merecia carregar aquela bandeja.”

Eu abro a boca, mas fecho no instante em que percebo que não há nada a dizer.
O desconforto cresce entre nós, tornando-se quase palpável.

“Eu vou viajar hoje.”
- Ele quebra o silêncio.
“Atenas. Mas não conte a ninguém.”

Eu me pergunto se o incômodo que essa informação gera foi de propósito e se ele me disse isso só para me punir; a palavra Atenas quase sempre diz respeito a uma pessoa: César Vaccari.
Mesmo sabendo a resposta, eu pergunto…

“É o César, não é?”

“Claro. Sempre é.”
- James diz. Seu olhar se desvia de mim e ele se mantém distante.
“Acho que passamos os últimos anos tentando desviá-lo de você.”

*

O som da porta batendo me tira do torpor.
Do sofá de couro, vejo Will guardando as chaves, aparentando mais cansaço que o normal. Seus olhos me fitam por um tempo e então ele cruza a sala, segura meu rosto entre as mãos e me beija; não do jeito calmo e lento – como se quisesse aproveitar cada instante – que sempre faz, mas com uma desesperada intensidade.
Olho atentamente para ele quando nos separamos. A preocupação cresce dentro de mim.

“O que aconteceu?”
- Pergunto. Ele desvia o olhar de mim e responde, distante…

“Nada.” - A vulnerabilidade some do seu rosto e o momento evapora, como se nunca tivesse acontecido. - “Cadê a Jennifer?”

“No quarto dela.”
- Digo.
“Acabou de chegar do vôlei.”

Por mais que seu rosto esteja neutro e seu tom de voz tenha assumido a normalidade, há algo mecânico, uma serenidade forçada em suas reações.
Ele evita meu olhar e caminha para a cozinha.
Observo, encostada no vão da porta, sua mão abrindo a geladeira e tirando a jarra transparente de água. Ele enche o copo até quase a borda e pergunta:

“Alguma novidade?”

“Sim.” - Digo, seca. - “A Beth morreu.”

Ele me encara agora.
Só a suposição de que Will possa estar escondendo algo de mim me deixa irritada, e então, eu começo a ser ríspida com ele.

“Sinto muito.”
- Declara.

“Fui na cremação.” - Digo. - “Hoje à tarde. Na praia.”

Sua mandíbula trava.

“Com todos aqueles Vaccari?” - Ele tenta ser suave, mas sua voz sai endurecida.

“Era minha tia.”
- Rebato.
“Eu devia isso. Nós só estamos vivos aqui por causa dela.”

Ele se cala.
Sua expressão suaviza, mas ainda não estou satisfeita.
Suspiro, exasperada.

“Tem certeza de que não aconteceu nada?!” - Deixo escapar.

“Tenho.”
- Will diz, entre dentes.

“E o trabalho, como foi?”

“Como sempre é.”

“Will...” - Minha voz assume um tom de advertência.

“Eu peguei um caso complicado.” - Ele solta, após um suspiro impaciente. - “Peguei um caso difícil e estou pensando nele. É só isso.”

Fico quieta.
Seu copo pousa pesadamente na pia e ele se afasta.
Acompanho seus movimentos com o olhar e deixo ele ver no meu rosto que não estou convencida. Seja lá o que for, eu vou descobrir, e ele sabe disso.

“Vou tomar um banho.”
- Ele murmura com a voz tão baixa que parece um sussurro. E então se afasta.