Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

14 de out de 2015

Sentença (3ª temp de Fúria) - Capítulo 2

WILL

Diana Milazzo é a primeira pessoa que vejo quando entro no departamento. Ela é a única sentada numa fileira com cerca de 10 assentos, bem de frente para a sala do delegado. Vultos de outros policiais são vistos do outro lado do corredor. Ela não me nota quando eu me aproximo, e o som dos seus pés batendo no chão ecoa pelas paredes. Levanto uma sobrancelha. Diana não é o tipo de pessoa que fica nervosa a toa e o seu auto-controle é talvez sua qualidade mais reconhecida. Eu observo o modo como apoia os cotovelos nas coxas, fechando as mãos em punhos. O ouro do seu relógio de pulso reflete uma ou outra luz do lugar, e a pulseira de couro está desgastando. Sua camisa preta estampa os dizeres escritos em tinta vermelha: “O sucesso é a melhor vingança”. Sento-me ao seu lado.


“Café?”
- Sussurro, estendendo o copo para ela. Seu corpo vibra com o susto que a minha voz causa. Ela me encara por um segundo e solta:

“Não achei que seria tão rápido.”

“Do que está falando?”

“Craven.”
- Diz. Mark Craven é o delegado e chefe de polícia de toda Nápoles faz mais de 10 anos, e mora no país desde a adolescência. Diana percebe a confusão em meu rosto e pergunta:
“Foi ele que te chamou aqui, não foi?”

“Foi.” - Respondo. - “Você está me deixando preocupado.”

Ela solta uma risada sem humor.

“Olha, boa sorte.” - Declara. - “Vai precisar disso.”

“Diana...”

“Não.” - Afirma. - “Não vou contar nada, nem se eu pudesse. Vai ter que entrar pra saber.”

E no instante seguinte, eu abro a porta do gabinete.
Eu passei os últimos anos agradecendo aos céus pela oportunidade de desfrutar de alguma estabilidade familiar. Desde que Liza saiu do coma, eu me mantive focado no meu filho, tentando desviá-lo do fogo cruzado que envolvia Rachael, a irmã e suas descobertas sobre a máfia. Agradeci por Alex ter sobrevivido sem nenhum arranhão. Casei com Liza e tivemos uma vida absolutamente perfeita até o terceiro ano de casamento. Ela engravidou. Todos – até mesmo a grave e distante Beth Vaccari – foram contagiados com uma euforia incontrolável durante os nove meses de gestação, inclusive eu.
E esse foi o problema.
Eu odeio ter que lembrar disso, mas toda vez que acontece algo que ameace a estabilidade, as imagens horríveis onde eu corria desesperadamente nos corredores do hospital atrás de uma criança de 8 anos que tinha desaparecido, voltam à minha mente.
Por mais que eu saiba que a culpa não vai ajudar nada, é quase impossível se livrar desse sentimento. Você põe a cabeça no travesseiro e começa a imaginar mil situações em que poderia ter evitado que acontecesse.
E quando olho para Mark e tenho a impressão de que minha redoma de vidro está prestes a quebrar, as memórias voltam como um avalanche.
Mas como sempre, eu visto a máscara e finjo que nada disso me afeta.

“Richmond!”
- A forma como ele força a voz para parecer descontraído me causa um pressentimento ainda pior do que o que já tenho.

“Mandou me chamar?”

“Mandei.” - Diz. - “Fecha a porta.”

Fecho.
Ele faz sinal para que eu me sente. Seus olhos estão fixos a cada movimento meu e ele escolhe as palavras…

“Você é um ótimo policial, Will.”
- Começa.
“Sempre mostrou muita disciplina e profissionalismo, e é exatamente por isso que me sinto mais seguro tendo essa conversa com você.”

Permaneço calado.

“Eu vou precisar, mais do que nunca, dessas suas qualidades.” - Ele completa.

“Alguma missão impossível?”

“Depende do ponto de vista.”

“O que eu tenho que fazer?” - Pergunto, impaciente.

“Ontem a noite eu recebi uma visita do governador.”
- Craven diz.
“Digamos que há pessoas importantes que estão começando a se incomodar com o que os Vaccari estão fazendo no Mediterrâneo, e o governador é só um deles.”

“Pessoas importantes...”

“A Interpol. O FBI, a CIA e todo o pessoal envolvido com eles.”

Prendo a respiração.
Era exatamente o que eu temia.

“Escuta, o governador não quer escândalos, então ele vai conseguir manter todos no lugar, pelo menos por algum tempo.” - Explica. - “A Interpol deu um prazo de pouco mais que um mês para pegar, pelo menos, um dos líderes da máfia. Se isso não acontecer, eles vão intervir. Eu sei que você é casado com uma Vaccari e...”

“Liza se desligou da máfia há muitos anos.”
- Rebato. Minha voz sai dura.

“Ok, eu sei, mas ela continua sendo da família, certo? O fato é que, mesmo que ela ande na lei agora, isso não apaga seu passado e muito menos os seus conhecimentos sobre os Vaccari.”

“Se está achando que vou manipular minha mulher só para te garantir uma promoção, esqueça.”
- Cuspo as palavras para ele, me levantando no instante seguinte. Ele levanta ao mesmo tempo de sua mesa, bloqueando minha passagem até a porta.

“Eu acho que você não entendeu”
- Sibila.
“Isso vai muito além de uma promoção. Migração ilegal de refugiados africanos, tráfico de mulheres, escravidão? Os Vaccari acumulam uma lista de crimes hediondos e ninguém quer mais consertar a bagunça que a família da tua esposa tá fazendo. Se quiser sair por essa porta, vá em frente, mas saiba que na sua condição, como marido de uma 'ex' mafiosa, recusar-se a ajudar numa causa a nível mundial, como essa, pode te fazer ser considerado cúmplice de um bando de criminosos, não acha?!”

Abro um lento e preguiçoso sorriso.

“Boa tentativa.” - Digo. - “Mas infelizmente para você, ameaça não é a minha forma de negociação favorita.”

“Vamos dar proteção a Liza.”
- Ele solta. Eu o encaro, cético.

“Isso, é claro, se você participar da missão e manter sua esposa longe da máfia. Daremos proteção a sua filha também. O governo não está interessado em matar Liza Vaccari e eu sei que você não está nem aí para a família dela. Proteção. Só podemos garantir isso se você colaborar.”

Eu continuo examinando seu rosto, buscando algo que prove que ele está blefando.
Nos últimos anos eu também venho tentando proteger Liza e minha filha do modo como não consegui proteger Alex. Me conformando com a presença eventual da máfia. Passando madrugadas circulando pela casa com arma em punho. A garantia de manter Liza fora dessa caçada aos Vaccari não é algo a se ignorar.

“Tenho que responder agora?”
- Pergunto finalmente.

“Não.”
- Ele responde, cansado, como se toda essa conversa tivesse sugado sua energia.

Talvez tenha sugado a minha também.
Por fim, eu aceno com a cabeça num sinal afirmativo, minha mente um redemoinho tão grande que sou incapaz de dizer ou decidir algo agora.
Saio da sala de Craven, pensando em acender um cigarro.