Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

29 de set de 2015

Sentença (Fúria 3ª temp) - Capítulo 1

LIZA

A campainha toca, de repente, pondo fim ao aconchegante silêncio.
Eu abro os olhos num sobressalto, encontrando Jennifer, que come tranquilamente, como se nada estivesse acontecendo. Suspiro.
Jennifer, minha filha, faz 14 anos no próximo mês. É uma idade complicada, repleta de brigas, mas todo o mau humor que isso possa me causar vai embora quando lembro que consegui. Sim, eu consegui me desligar da máfia. Consegui viver os últimos anos como uma pessoa comum, longe de tiroteios ou ameaças. Me casei com Will. Engravidei. Tive uma linda e estável família. Discussões com adolescentes rebeldes não são nada em comparação.

“Jennifer, não viu a campainha?!”
    - Pergunto, num tom de desaprovação. Ela apenas encolhe os ombros e não diz nada.

Caminho lentamente em direção a porta de madeira envernizada, passando um rápido e avaliador olhar nas coisas de Jen. Instinto materno. Toda vez que ela vai sair eu tenho que conferir se está tudo no lugar ou se há uma mancha de comida em sua roupa.
Destranco a porta, bobamente feliz, divagando sobre o quanto é maravilhoso ter Will de volta para casa mais cedo hoje. Posso encomendar algo para o jantar; os dois gostam tanto de comida mexicana…

Então meu olhar encontra James Hansson, encostado no vão da porta.

O medo repentino toma conta de mim, fazendo meu coração saltar.

“Oi Liza.”
   - Ele murmura simplesmente, me passando um olhar compreensivo. Ele sabe que meu desconforto com suas visitas não é algo pessoal, e sim um trauma, um medo trancado de que tudo possa acontecer de novo.

Abro espaço para que ele entre.
Seu rosto está muito mais cansado desde a última vez que o vi, e há algo parecido com tristeza na sua expressão. Depois da morte de Rachael, James se uniu aos Vaccari, de Beth, não porque ele goste de fazer parte de uma máfia, mas porque essa é a única coisa que sabe fazer.
Não é como eu, que pude formar uma família com Will e mandar o resto às favas.

Ele sempre nutriu uma admiração pela Beth, de qualquer forma. Ele fazia um bom serviço e ela era como uma mãe para ele. Essa foi a melhor alternativa que tinha.

“Hey, Jennifer!”
     - Ele solta com uma animação forçada na voz, porém, com um sorriso genuíno, ao que ela retribui alegremente. Há algum tipo de ligação abstrata e inexplicável entre os dois. Eu permaneço imóvel, observando enquanto ela pega a mochila.

“Volte cedo!” - Lanço para Jen. Ela balança a cabeça num sinal afirmativo e vai embora.

Silêncio.
Solto o ar aos poucos, buscando coragem para encará-lo.
James não costuma me visitar com frequência, então seja qual for o assunto dessa conversa, é importante.

“O que aconteceu?”
- Pergunto finalmente. Ele fica um momento calado, escolhendo as palavras.

“Ela morreu, Liza.” - Solta. - “Beth. Beth morreu.”

Fico quieta por um bom tempo.
Beth manteu uma distância razoável de nós depois de tudo o que aconteceu. A queima da carta do cofre, contendo o enigma, foi o sinal suficiente de que eu não queria fazer mais parte disso. Enquanto ela estivesse viva, ela prometeu me manter fora. Ela era nossa proteção. Ela era o que estava entre mim e o ódio incontrolável de César.

“Você sabe o que acontece agora.” - Ele murmura, seu olhar fixo em mim, captando, examinando minhas reações. - “Você sabe quem...”

“Não.”

“Isso não é mais uma escolha, Liza.” - Ele argumenta, me seguindo até a cozinha. - “Não há mais nada para te defender do César agora. Ele vai vir com tudo em cima de você.”

“Não posso largar tudo e voltar, James!”
- Exclamo.
“Eu não aguentaria tudo aquilo de novo, eu...”

“O que você acha, Liza?! Que ele vai te dar uma trégua?!” - Rebate. - “O pessoal ainda apoia a sua volta, mas você precisar se mexer, não posso ficar te protegendo o tempo todo.”

“Não pedi sua proteção.” - Solto, e me arrependo no instante seguinte.

Ele pisca várias vezes, como se acabasse de levar uma bofetada.
Eu caminho a passos largos em direção a cozinha, me punindo internamente por o ter tratado dessa forma. Ele é meu amigo. Só está aqui porque está preocupado comigo. Eu deveria ser um pouco mais grata.

“Ele pegou o Alex.”
- James recomeça, ainda tentando me convencer. Apoio as mãos contra o batente da pia, pressionando o aço com tanta força que os nós dos meus dedos ficam brancos.

Alex desapareceu misteriosamente dias depois do nascimento de Jennifer. Foi dado como morto. Ninguém achou o paradeiro dele. Uma série de conflitos entre os Vaccari surgiram quando aconteceu, e Beth estava pronta para uma guerra; seria inútil. Ninguém jamais saberia onde ele está.

“Alex está morto.” - Murmuro, fracamente, a frase que repeti para mim mesma durante todos esses anos.

“Acha mesmo?!” - James dispara. - “Sério, Liza, você realmente acha que ele está morto?! O problema é que você não quer encarar a realidade, você...”

“Chega!” - Grito; ele finalmente se cala.

As dúvidas de anos atrás voltam a minha mente. Alex está morto. Alex precisa estar morto. É melhor para todo mundo que ele esteja.

“Está fora de cogitação, James. Eu não vou voltar.”

Ele acena com a cabeça, num gesto afirmativo, apesar de não concordar nenhum pouco com a minha decisão. Observo como o osso de seu maxilar salta, enquanto ele sustenta seu olhar em mim. Ele está frustrado, decepcionado até, mas precisa entender o meu ponto.
James caminha em direção à saída, pisando mais forte do que o normal.
Sua mão envolve a maçaneta da porta, então ele para e volta a me encarar, com a expressão de quem esqueceu algo…

“O enterro vai ser amanhã, pela tarde, às duas.” - Diz, seco. - “Boa sorte pra você.”

JAMES
Posso sentir seus olhos em mim quando atravesso a porta.
Sidney Basner, a garota negra com que divido o apartamento desde que me desliguei dos Hansson, me segue com o olhar durante todo o percurso até sua mesa. Ela escolheu a mesa mais afastada do restaurante, encostada numa parede de vidro que fornece uma visão ampla do mundo lá fora, com bancos largos acolchoados e forrados num tecido vermelho. Quando eu me sento, com o maxilar travado, um esboço de sorriso ilumina seu rosto.

“Eu estava certa, não é?”
     - Ela afirma, com o tom de alguém que está muito satisfeita consigo mesma. Eu apenas lhe lanço um olhar carregado.
“Não me olhe desse jeito, James. Não tenho culpa se você não conseguiu enxergar o óbvio.”

Sidney leva um cabelo curto, meio arrepiado, com um aspecto meio bagunçado, que combina muito bem com o seu rosto. Há um brilho constante em seus olhos amendoados e ela parece se manter limpa no meio de toda a sujeira na qual vivemos.
É como se ela fosse uma pessoa normal, de uma realidade muito distante à mafia.
Eu a admiro por isso.

O garçom coloca duas cervejas na nossa mesa. Eu espero ele sair para dizer:

“Será que ela não tem um pingo de juízo?!”
- Solto. Sidney permanece imperturbável ao meu tom de voz.
“Eu lhe disse todos os riscos, lhe ofereci proteção, até falei do Alex, mas ela nem sequer quis me ouvir!”

“É claro que não.” - Ela diz, após tomar um gole. - “O que você queria, James? A Liza nunca quis fazer parte disso, assim como o resto de nós. Ela finalmente conseguiu ter uma família e uma vida normal, é muito difícil para ela ter que abandonar tudo. Eu a entendo, de certa forma.”

E realmente entende, penso.
Há uma semelhança entre sua história e a de Liza, em algum ponto. Ambas nunca quiseram isso. As circunstâncias e o passado as trouxeram para cá.
Solto uma longa expiração.
Meu atual estado de frustração se une ao receio de que ela esteja realmente decidida a se manter fora. De que ela nunca mude de ideia. Por mais que a maioria aceite o retorno da Liza, por ela ser uma legítima Vaccari, e mais, por ser a indicada por Beth, ninguém vai esperar por muito tempo e é muito difícil protegê-la daqui. A conversa que tive há quase meia hora atrás repassa várias vezes na minha memória, e uma raiva crescente surge em mim.
Por sorte, Sidney se lembra a tempo do motivo que a trouxe aqui…

“Tenho novidades.”
- Diz, pousando a garrafa sobre a mesa. Seu rosto continua suave, como se ela ainda estivesse brincando, mas enxergo a tensão em seu olhar.

A mão fina de Sidney se estica até o envelope bege, arrastando-o em minha direção. Eu encaro o envelope com o cenho franzido, já presumindo o que possa ser. Há alguns meses enviei homens para monitorar César Vaccari. Ordens de Beth. A mera lembrança gera um incômodo muito maior do que o que já está.
Olho para os lados rapidamente e abro o envelope, puxando as fotos reveladas para fora.
Na primeira, uma mulher alta, loura, cabelo até os ombros, desce de um helicóptero acompanhada de dois homens. Todos estão usando casacos pretos e óculos escuros. Ela caminha com altivez e eu começo a reconhecer suas feições.
O nariz fino, o longo pescoço…
O traços arianos…
A segunda foto revela um outro homem ainda mais alto que ela, sorrindo abertamente.
Então eu entendo.
Meu olhar se crava em Sidney, que balança a cabeça num gesto afirmativo.

“Isso mesmo, Vera Kvitova.”
- Diz.
“Essas fotos foram tiradas em Atenas, no heliporto particular de César, ontem pela manhã. Isso tudo é um pouco estranho, não acha?”

“Muito.” - Murmuro. - “César sempre manteve suas amantes longe da Grécia, por que ele traria uma delas agora?”

“Foi exatamente o que eu me perguntei.”

O problema não está exatamente no que César faz com suas amantes, mas porque esta é Vera Kvitova, uma assassina de aluguel russa que, além de manter um caso com César, trabalha para ele em troca de uma vida luxuosa na Suécia e alguns milhões. Há um motivo muito maior na repentina viagem de Kvitova à Grécia e isso pode estar ligado a Liza.
Estalo a língua em desgosto.
Talvez eu entenda agora o que Beth passava com a sobrinha.

“Vamos para Atenas.”
- Solto. Levanto o olhar rapidamente e tenho um vislumbre de Sidney quase engasgando com a cerveja.

“O quê?!”
- Ela protesta, com a voz esganiçada.

“Isso mesmo, Sid.”
- Respondo.
“Você vai reunir 3 dos nossos, de confiança, e vamos embarcar essa madrugada.”

“Peraí, você não tá pensando em invadir a mansão do César ou sair por aí seguindo a amante dele né?! Você sabe, seria loucura.”

“Relaxe.” - Digo.

“Sério, James.” - Ela diz. - “Não pode ir atrás da Kvitova.”

Puxo a carteira do bolso, colocando o dinheiro em cima da mesa.
Sidney me segue com o olhar enquanto levanto da cadeira. Ela junta as duas sobrancelhas em desaprovação e eu lanço:

“Hoje, às duas, sem atrasos.”

Então, quando estou pronto para sair, a voz dela surge novamente…

“James!”
- Cruzo os braços, voltando a encará-la.
“Se a Liza não quiser mesmo ser a chefe, quem vai ser?”

“Eu não sei.”
   - Respondo. Então completo, mais para mim do que para Sidney…
“E espero não precisar pensar nisso.”