Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de jun de 2015

Veneno - Capítulo 4

 Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2009
JEFF
Eu nunca tive a ingenuidade de achar que os meus pais eram honestos.
É uma verdade incontestável de que toda a nossa fortuna foi fundada sobre 'bases alheias'. Nosso dinheiro nunca foi legitimamente nosso. Meu pai se gaba da quantidade de crimes perfeitos que cometeu.
Minha família é terrível. Completamente inadequada. Eu gosto de fazer parte dela, entretanto.
     Minha mãe fez todo o esforço que pôde para nos manter fora de tudo isso, chegando a brigar com o meu pai várias vezes, porém, ela só deixou de insistir quando percebeu que eu queria estar dentro; eu queria os roubos, queria as brigas, queria as mortes. Não por um senso de dever ou o orgulho estúpido que o meu pai implica sobre nós com aquela maldita frase: O sangue é sagrado. Unidade familiar. Como se nós fossemos uma família...



O fato é que eu gosto de uma boa guerra.
Eu simplesmente admiti que tenho uma má essência, e não tento conter meus instintos. Ok. Talvez eu contenha alguns.
       A adrenalina que surge numa situação tão perigosa quanto um roubo, tão tênue que qualquer movimento em falso pode levar tudo a baixo, me faz sentir vivo. Não é a coisa mais aceitável a se dizer, mas é a verdade. As ruas escuras, propriedades guarnecidas e cofres escondidos significam apenas mais um excitante desafio pra mim...

"Braços cruzados não é bem a minha posição favorita."
    - Ouço a voz rouca do meu pai ecoar por toda a sala. Descruzo os braços automaticamente e praguejo internamente por isso. Tenho que parar de agir como se ele fosse meu patrão.

Ele caminha até sua poltrona de couro tranquilamente, como se fosse um rei. Arrogante.
Talvez minha aversão tenha começado por causa da sua ridícula tentativa de nos fazer parecer uma família. Não porque ele realmente queria ter uma família de verdade, mas porque ele precisa do elogio e apreciação das pessoas em geral.

"Espero que esteja se organizando para o trabalho de amanhã." - Ele lembra.

    Ninguém entendeu quando ele falou do roubo do disco. O disco pertencia a uma empresa petrolífera estrangeira, com informações confidenciais sobre possíveis novas jazidas de petróleo. O meu pai pode ser arrogante, presunçoso e outras coisas piores, mas ele não é burro. Esse roubo seria suicídio. Atrairia atenção da mídia. A polícia iria nos caçar. Mesmo assim, com todos esses perigos, ele permaneceu com o plano. Até a mamãe tentou dissuadi-lo, mas ele estava irredutível.

"Sairei durante a madrugada, senhor."
    - A palavra 'senhor' soa amarga na minha boca. É um velho hábito chamá-lo dessa forma. Hábito esse que estou tentando me livrar.

"Ótimo." - É a sua única resposta.

O estranho e particular interesse do meu pai nesse roubo me chama a atenção.
Não é simplesmente por dinheiro, até porque há roubos muito mais lucrativos e seguros; o meu pai é metódico, analítico. Ele jamais faria algo assim, a menos que precisasse.
Ele não demora muito tempo no mesmo cômodo que eu, já que ele sente tanta afeição por mim quanto eu por ele.
Não desvio os olhos quando ele caminha para a saída, como normalmente faço.
Talvez esse disco contenha tudo o que eu preciso para levá-lo a ruína.
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Sadie mantém seu olho em nós o tempo inteiro, enquanto estamos de pé, algemados, no meio da sala.
Mary olha para mim algumas vezes, e eu retribuo seu olhar em outras, tentando lhe passar confiança, mesmo sabendo que não estou tão confiante assim.
Eu posso morrer hoje. Essa é a sensação que me acompanha desde que cheguei nesse lugar.
Fred e Paul, ambos de mesma altura, chegam juntos, pisando forte na entrada. Mary fica cada vez mais apreensiva, quase em pânico, e eu observo a pistola na mão direita de Paul, receoso.

"Amarrem ela na cadeira."
    - É a única coisa que ele diz. Sadie o obedece prontamente, mas Fred ainda fica uns segundos lá, parado, pensando se realmente deve fazer isso.
Meus olhos voam para Mary e sua expressão desesperada, enquanto Sadie prende mais algemas aos seus braços e tornozelos, ligando-os à cadeira envernizada. O que vem depois é o som da arma de Paul, destravando...

"Perdi a paciência com você."
   - Ele diz, apontando seu revólver para mim.
"Ou você fala logo onde tá a droga do disco ou eu mato os dois aqui mesmo."

"Eu não sei..."
    - Balbucio. O impacto do soco me atinge em cheio no rosto e eu caio, atordoado. Ele começa a me chutar e eu ouço os gritos de Mary de longe, enquanto tento me proteger. As algemas que apertam meus pulsos impedem qualquer reação e um de seus chutes me acerta no estômago, me fazendo soltar um grunhido de dor. Um novo chute me acerta no rosto e eu sinto o sangue quente escorrer pelo meu nariz. A dor forte surge em todas as partes do meu corpo e eu me sinto zonzo, quase inerte. Os gritos parecem ainda mais distantes, como se não passassem de um simples eco. Começo a pensar se realmente vale a pena esconder o paradeiro do disco. Eles não vão conseguir ficar com ele por muito tempo. A polícia vai nos achar. Talvez a melhor coisa a fazer é dizer onde o CD está e morrer de uma vez...

"Eu sei onde ele está!"
    - O grito de Mary é a única coisa que consigo distinguir em meio ao emaranho de vozes. Eu permaneço com o corpo encolhido e tenso, esperando pelo próximo golpe, que não vem.
Meus sentidos começam a voltar, lentamente, e eu levanto o rosto, num movimento quase imperceptível, para vê-la dizer...

"Eu sei onde está o disco." - Ela repete. Seu olhar cai sobre mim por um segundo. - "Nós mentimos o tempo todo, quem é está com ele não é o Jeff, sou eu."

Eu a encaro sem entender o objetivo disso, mas não falo nada.
Paul caminha lentamente na direção dela, cético, e solta...

"Por que está me contando isso?"

"Porque eu acredito que haja uma forma de negociar." - Ela responde, com uma firmeza surpreendente. - "Todo mundo pode sair ganhando aqui, sabe."

Ele olha para Fred e Sadie, para depois fixar o olhar nela de volta.

"O que você quer?"

"Eu quero uma garantia."
    - Mary fala.
"Quero que assegure de que vamos sair vivos depois que eu te passar a informação."

"E se a informação estiver errada?"

"Você pode me matar, ou fazer o que bem quiser." - Diz. - "Agora, se qualquer um dos teus comparsas tentar alguma coisa contra a gente, você vai matá-los."

A boca de Paul se curva num sorriso, que, gradativamente, transforma-se numa risada.
Ele olha para mim e para Sadie como se acabasse de ouvir uma piada, dá alguns passos para trás e depois volta. Quando seu olhar recai novamente sobre Mary, não há mais riso em sua expressão. Ele se inclina e sibila, com o rosto a centímetros do dela...

"Eu não tenho que garantir nada a você, menina."
     - Então ele se afasta e ordena para os outros...
"Levem os dois de volta para a cela. A comida está suspensa."