Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 55

Minha mente é infestada por uma série de imagens desconexas.
Feixes de luz avermelhada que surgem, volta e meia, em todos os lados.
O calor. Crescendo e envolvendo meu corpo.
É quase como ser tragada pelas chamas. A diferença é que eu não sinto dor.
Vozes ecoam, tão longe e ao mesmo tempo tão perto de mim. Eu quero pedir ajuda, mas meu corpo está tão dormente que não consigo me mexer.
Mãos agarram meus braços e ombros. Sinto gosto de sangue na minha boca.
Então, eu volto para a escuridão. A infinita e silenciosa escuridão.
Por mais que eu tente me convencer de que estou morta, eu não estou. A morte não é assim.

 
"Ela pode ficar assim por alguns dias."
    - Uma voz, de alguém que não conheço, soa bem próximo a mim. Eu tento mexer os meus dedos, e percebo que não é tão difícil assim. Um dedo depois outro. Depois são os meus olhos que se abrem.

Está tudo muito branco e embassado ao meu redor.
Silhuetas que não consigo distinguir estão de pé, a minha frente, concentradas demais em si mesmas para me notar. Tento me sentar, mas minha cabeça dói, então permaneço do jeito em que estou. Pisco várias vezes, até as coisas ganharem nitidez.
Estou em uma cama de lençóis brancos. Há uma poltrona ao meu lado e um fio injetando soro no meu braço esquerdo. As paredes são brancas, assim como o piso, e a silhueta que falou é na verdade um homem, de jaleco. Eu não o conheço, mas conheço quem está ao seu lado. Melanie Jaswant. Ela é a primeira a me olhar e descobrir que estou acordada.

"Daphne."
   - Ela diz, caminhando em direção ao meu leito. Observo seu rosto. Ela está com o cabelo preso num rabo de cavalo, uma calça jeans e blusa branca, aparentemente saudável. Sua esclera tem uma coloração normal e não há nenhum calo de sangue em seu rosto.

"Você está viva." - Digo. Ela sorri com a minha afirmação.

"É." - Ela responde. - "Você também."

Olho para o médico, ainda confusa. Ele oscila seu olhar entre mim e Melanie, para depois dizer:

"Eu acho melhor deixar as duas conversarem."

E ele sai do quarto, em seguida.

"Como você está?"
    - Melanie pergunta.
"O médico disse que você poderia ficar alguns dias desacordada, pela pancada na cabeça."

"O que aconteceu?" - Solto. Ela suspira.

"Bom, você bateu o carro." - Melanie explica. - "Pensou que o carro que vinha na sua frente era da Central e tentou desviar indo para a ponte. Eu não a culpo por isso. Tinha o símbolo da Central mesmo."

"Era você naquele carro?"

"Era."
   - Ela diz.
"Eu e mais outras pessoas da organização. Acredito que você já sabe do que estou falando. Bom, eles não esqueceram de você, como deve ter pensado."

"Nem de você."
   - Replico, lhe lançando um olhar avaliador. Ela afasta minha frase com as mãos.

"Eles não me curaram da praga." - Ela diz. - "Prudence tinha que testar o antídoto dela. Funcionou, ainda bem. Fiquei curada e fugi. Daí a organização me pegou. Estamos num lugar bem longe de Illies ou Calanma, Tori chegou aqui a alguns dias e está na ala intensiva, e o julgamento dos chefes da Central vai ser em alguns dias. Eu vou ter que depor, claro. Provavelmente, você também."

"O que aconteceu com Tori?"
    - Pergunto, subitamente preocupada.

"Foi terrível." - Ela diz. - "Eu vi quando ela chegou. Cheia de hematomas e sangrando. Passou por umas duas ou três cirurgias, mas está se recuperando bem agora."

"Melanie." - Murmuro. - "O que exatamente aconteceu com a Tori?!"

Ela suspira.
Há um breve momento de silêncio, enquanto ela olha fixamente para mim, se perguntando se estou ou não preparada para isso.

"Eu não tenho certeza, mas o que eu ouvi é que ela sofreu um... estupro coletivo." - Ela solta. Eu ponho a mão na boca em espanto. - "Tá vendo?! É por isso que eu não queria contar a você! Sabia que ia se chocar."

Eu me mantenho calada, incapaz de dizer algo.
É claro, alguém descobriu que ela nos forneceu a nave e as armas, e Evan quis puni-la. Minha repulsa por Evan Muller e outras pessoas da Central só cresce.

"Escute, ela está recebendo acompanhamento psiquiátrico e vai melhorar."
     - Melanie diz.
"Mas é você que está em questão agora. Eu quero saber como você está se sentindo."

Então, saber sobre Tori não melhorou a minha situação.
Tudo está muito confuso para mim, e a menção da organização não clareia as coisas, como Melanie pensa. Eu ainda não faço ideia de onde estou e o que aconteceu depois que eu apaguei, e minha última lembrança são os carros da Central.
E o corpo de Eric, é claro.
A lembrança do tiro, dos gritos de Prudence e o rosto desolado de Amanda me persegue como um pesadelo. Eu não sei se Melanie sabe, mas se sabe, está fazendo de tudo para fingir que as coisas estão bem. É inútil. Eu vi o corpo dele. Não há nada que vá amenizar o buraco que se formou no meu peito desde então.
Dou uma longa olhada no rosto de Melanie, contraído numa genuína preocupação.
Eu nunca tive uma boa relação com ela, mas penso que isso deve mudar, porque ela é a única pessoa que me restou...

"Eric está morto."
    - As palavras escapam da minha boca. Elas fazem meu coração pesar como chumbo.

"Eu sei." - Ela responde, num fio de voz.

Meus olhos, até então fixados em Melanie, se desviam para um objeto aleatório enquanto eu pisco várias vezes, tentando conter as lágrimas que ameaçam escorrer.
Eu tento não olhar para ela, porque eu sei que a minha dor está refletida naqueles olhos negros, que como um castigo, são imensamente parecidos com os de Eric.

"As vezes eu me pego pensando: poderia ter sido eu."
     - Digo, com a voz embargada. As imagens do corpo inanimado e ensaguentado de Eric surge na minha mente, enquanto solto:
"Todo mundo achava que eu acabaria morta mesmo."

A dor se torna tão grande que não suporto mais e começo a chorar.
Os braços finos de Melanie me rodeiam, apertando-me contra si mesma, e eu ouço ela fungar.
Não choro apenas por Eric.
Choro por minha mãe e por meu irmão, choro por Melanie, choro pelo meu atual estado e até por Tori e as feridas incuráveis que se abriram em seu psicológico. Me sinto uma colcha de retalhos, tentando agarrar qualquer coisa que a guerra ainda não me tirou, mas parece que não sobrou nada.
Melanie também chora comigo e eu sei como ela se sente, porque é assim que eu me sinto.
Fragmentada. Tentando juntar os cacos.
A chuva cai com força lá fora, mas a verdadeira tormenta está dentro de nós.

     Então, por fim, a leve dor da agulha em meu braço dissolve o mundo ao meu redor, transformando tudo numa névoa confusa que desfaz a dor. Mas só por enquanto.