Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 48

Meus olhos se abrem lentamente, e mesmo com a visão embaçada, consigo distinguir sua sombra.
     Eric está sentado no alto do morro que se ergue ao lado do porto, cobrindo e protegendo toda a plataforma. Desde que descobri que ele existia, fiquei me perguntando como Illies permitia navios desconhecidos ancorando em seu litoral. Bom, é claro, o porto está quilômetros afastado de qualquer área habitada, mas uma nave iliense poderia facilmente detectá-lo. A menos que ele ofereça alguma vantagem ao governo.
  Desde que Dustfire foi completamente bombardeada, Illies não tem apresentado problema algum em abastecer suas cidades, algo que deveria acontecer, já que todos os distritos da cidade destruída eram formados por fazendas e plantações. Estela uma vez comentou que todas as áreas de conflito quebravam durante uma guerra, visto que estavam em território empobrecido, com sua própria sobrevivência arriscada e governo muito instável. Isso, é claro, contando com o fato de que não havia ninguém a quem pedir ajuda. Então, a única coisa que lhes restava era ceder às aproximações da organização. O porto é uma delas.
Solto uma longa expiração enquanto subo a colina.
É claro que Eric ainda está chateado comigo, com razão, mas essa situação está insustentável. Agora que perdemos a oportunidade de fugir, não dá para ficar ignorando a presença um do outro.
Devo ser prática, penso.
Apresentar a necessidade que temos de conversar, criar planos. Ele vai me ouvir. Ele precisa de mim tanto quanto eu preciso dele.

"Eric."
   - Digo, logo depois de exalar um suspiro cansado. Ele permanece com a vista fixa no horizonte. Avanço alguns passos até estar ao lado dele.
"Precisamos conversar, você sabe."

Ele olha para mim, então.
Bom.

"Eu sei que estou errada." - Começo. - "E lamento por isso, mas você não pode agir como se eu não estivesse aqui."

Eric continua calado, mas não afasta os olhos dos meus.
Seu rosto está estranhamente neutro, o que me irrita profundamente.

"Já que vamos ficar aqui, vamos fazer alguma coisa, não é?!" - Pergunto, nervosa. Ele continua tão indiferente quanto antes e eu espero uma resposta, por um bom tempo, mas ele não fala nada.

Eu me levanto, contrariada.
Apesar de tudo, não dou mais que dois passos até, finalmente, ouvir sua voz...

"Eu falei com Tori."
    - Ele diz assim, simples, como se tudo estivesse bem.
"Essa madrugada. Ela pode ser de grande ajuda para nós dois."

Olho para ele, surpresa.
Há o esboço de um de seus sorrisos enviesados em seu rosto, e seus olhos demonstram toda a diversão que ele se esforçou em esconder com a minha irritação.
Eu me jogo em seu colo no instante seguinte, rodeando os braços em volta de seu pescoço. Minha boca se cola a sua e ele corresponde ao beijo mais rápido do que eu imaginei, visto seu aparente aborrecimento. Seus braços me puxam, insistentes, para mais perto dele e eu ignoro qualquer pensamento que atrapalhe o momento, inclusive o fato de que estamos à beira de um penhasco. O calor do seu corpo esquenta minha pele gelada e os pelos grossos de sua barba arranham meu queixo...

"Ainda estou chateado com você."
     - Ele sussurra, com a boca poucos centímetros afastada da minha. Seus olhos sorriem, o que desmente o tom sério de sua voz. Eu sorrio de volta.

"Eu sei."

*
"Pensei que nunca iriam me contatar."
    - Tori Rounden afirma, seu rosto estampado na tela do notebook. Seu cabelo está preso em um rabo de cavalo, acentuando ainda mais seu rosto oval; ela usa roupas formais, típicas de alguém que trabalha na Central, e o local onde está é tão escuro que mal dá para vê-la. Ela esboça uma animação muito fora de lugar, entretanto.

    Uma hora depois da minha reconciliação com Eric, ele me revelou que tinha achado um galpão abandonado nos fundos do porto. É o lugar mais seguro e deserto que achamos no momento, e ele me garantiu que Tori estava suficientemente disposta a se arriscar falando conosco.
Dou uma rápida olhada a minha volta.
Não há nada além de caixas vazias e imensos barris enferrujados.

"Como estão as coisas por aí, Tori?"
    - Eric pergunta, apreensivo.

"Péssimas." - Ela confessa. - "A sede em Pumi da Central foi evacuada e movida para Sukvinder. Em menos de uma semana, metade da população de Pumi foi infectada pela praga. Os que ainda não caíram doentes estão tentando migrar para o sul. O controle de imigrantes está mais rígido agora, quem quiser viajar vai ter que fazer baterias de exames, passar por entrevistas e tudo. Ninguém quer uma bomba biológica em sua cidade, não é?"

"E o que a Central está fazendo para conter a epidemia?"

"Quase nada, Eric."
   - Ela diz.
"Por isso mesmo estou ajudando vocês. São os únicos que podem concertar isso."

"Precisamos ir para New Roman."
    - Digo, rapidamente. Ela arqueia uma sobrancelha.

"Novamente para o olho do furacão?"

"É preciso."
    - Respondo.
"O antídoto está lá dentro."

"E vocês sabem exatamente onde?"

"Ainda não." - Confesso. - "Mas eu... quer dizer, Eric, desconfia de uma certa pessoa."

"Prudence."
    - Ele diz.
"Ela estava particularmente interessada neste antídoto da última vez que a vi. Richard passou o lugar onde o antídoto está guardado para Jaime, mas como bem sabemos, ela não gosta muito dele."

"Acha que ela roubou o antídoto?"

"Não." - Ele responde. - "Eu acho que ela fez um novo."

"Certo."
   - Tori suspira.
"Qual é o plano, então?"

"Simples."
   - Solto, apesar de saber que não é tão simples assim.
"Vamos sequestrar Prudence Helvet."